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Um camelo nas ruas da cidade

Um camelo vai andar hoje nas ruas de S. Domingos de Benfica. Trata-se de uma fêmea de duas bossas cor castanho-acinzentada e de 13 anos de idade. Há oito anos que reside no Zoo de Lisboa, vindo do Zoo de Frankfurt.
Este camelo é muito elegante, pois só pesa 1500 quilos e tem 2,5 metros de altura. Chama-se “Zeide” e vai colaborar no início das sessões de animação cultural e espectáculos promovidos pela Associação de Amizade Internacional “A Criança”.

Jornal de Notícias, 9-3-1980

Digam lá: não me acham elegante com as minhas duas bossas castanho-acinzentadas? Acham que sou vaidosa? Talvez, mas sou senhora do meu focinho. E a propósito, caros primos e primas, vou contar-lhes uma história aborrecida.
Ontem, estava eu muito sossegada, a apanhar sol nas bossas, aqui junto à minha casa no zoo, quando dois homens de aspecto rude chegaram com umas cordas e disseram:
— Anda daí, Zeide, vais hoje dar um belo passeio pelas ruas da cidade.
— Não há como ser animal de jardim zoológico: sem preocupações, comidinha sempre a horas… — acrescentou o outro. — Quem me dera também poder ir passear.
— Isso é que era bom! — retorquiu o primeiro com ar fatigado. — Passa-se a vida a trabalhar. Quase não há tempo para um passeiozito e os transportes, ainda por cima, estão caros. Nem ao domingo, que é dia de consertar alguma coisa estragada lá por casa ou de fazer uns biscates aqui e ali.
Eu estava interessada em tudo menos naquelas lamentações ou em ir passear pela cidade num dia de sol tão bonito como o de ontem. Se ainda fosse para dar uma volta pelas areias quentinhas e macias dos desertos do meu país! Não acham, primos?
Mas não. Meteram-me num camião e lá fui aos solavancos para um lugar aqui perto, a que ouvi chamar S. Domingos de Benfica. Bem fica? Bem é que não fiquei!
Quando chegámos, havia um magote de gente à espera. Alguém puxou pela corda que me tinham amarrado ao pescoço e logo várias pessoas me rodearam, aos saltos e aos berros. Impossíveis, estes humanos! Todos a falar ao mesmo tempo, além de passarem a vida a empurrar-se uns aos outros. O que eu tive de aguentar! Ora ouçam:
Penduraram-me nas bossas uns grandes cartões com uns dize¬res de várias cores, mais umas fitas amarelas e encarnadas. E, para minha grande vergonha, puseram-me uma cartola presa com um elástico e obrigaram-me a ir para o meio da rua, feita macaco ou cavalo de circo — isto não desfazendo aqui no primo macaco e no primo cavalo… Lá fui fazer propaganda a uma associação qualquer, nem sei bem qual. Se ao menos fosse a Sociedade Protectora dos Animais… As crianças batiam palmas e riam à minha passagem.
— Aquele camelo com a cartola parece um palhaço! — gritava uma rapariguinha.
— O camelo é bom companheiro! O camelo é bom companheiro! — cantavam em coro dois miúdos.
— Pessoal, se a professora aqui estivesse, dizia logo, com ar de quem nos está a fazer um favor, que aproveitássemos bem, para depois contarmos tudo por escrito. — Isto proclamava um matulão, sem parar de dar palmadas nos costados dos colegas.
— E então? Aproveita. Pode ser que escrevas a melhor história da turma — comentou outro com ar de gozo.
Assim caminhei duas horas no meio de autocarros, automóveis e motorizadas, a aturar o chinfrim dos humanos, que riam, batiam palmas e me atazanavam os ouvidos. Enquanto isto, um carteirista aproveitava para palmar umas carteiras sem ninguém reparar. O que eu não daria para estar, naquele momento, deitada à sombra de uma palmeira, num oásis do meu país, sem ter de respirar o fumo de gasóleo e gasolina e de aguentar empurrões e barulheira!
Por fim, lá me levaram de volta para o camião, onde os dois homens me esperavam. E assim regressei, maldisposta e com dores de cabeça, a esta areia do zoo.
Fiquei mais exausta do que se tivesse feito uma caminhada de quilómetros pelo deserto — onde, ao menos, o ar é puro. Os fumos da cidade não se aguentam. Estou para entender como os homens conseguem. Antes este espacinho meu, aqui no zoo, entre árvores e palmeiras, do que as ruas irrespiráveis do centro da cidade.
Olhem, ao menos que o matulão tenha aproveitado o episódio para fazer o tal escrito.
Quanto a mim, espero nunca mais ter de lhes contar outra triste aventura como esta.
E agora, primos, vou beber uma aguinha fresca, desentorpecer as pernas e depois estender-me à sombra da minha palmeira favorita. Ainda me não recompus.

João Pedro Mésseder

José António Gomes (org.)
Um Bosque de Palavras
Porto, Porto Editora, 2006

Um urso à caça

Um urso à caça

Esta história não é nenhum conto de fadas.

Era uma vez um ursinho a quem faltavam pêlos na cabeça.

A sério! Quando o urso veio ao mundo, tinha um pêlo maravilhoso no corpo todo. Só em cima, no cocuruto da cabeça, havia uma mancha redonda e despida.

— Oh, uma careca! — disse o pai. — De certeza que o pêlo ainda vai nascer. Tem tempo.

Mas não cresceu. Nem com o tempo.

Então, a mãe pôs-lhe umas raízes na careca: rábano, raízes de árvores, raízes de dente-de-leão, raízes de acanto.

— É das raízes que tudo nasce — dizia a mãe — portanto, isto há-de ajudar!

Mas não ajudou. A mãe esfregou com água da chuva.

— A água da chuva faz nascer tudo.

Nada.

Esfregou estrume de galinha.

— Os homens também o usam para as plantas crescerem.

Nada.

Então o irmão do urso cuspiu-lhe na pelada.

— Desculpa, mas teve de ser! — disse o irmão. — Onde eu cuspo, medra sempre alguma coisa.

Na cabeça do urso, contudo, não cresceu nada.

— Não é assim tão mau — disse a mãe. — Põe um gorro.

Mas o urso só usava o gorro quando estava frio. No Verão tirava-o, primeiro, porque tinha muito calor, e segundo, porque todos os outros ursos olhavam para ele com um olhar tão esquisito como quando lhe viam a careca.

— Faz tu alguma coisa! Um bom urso sabe sempre tirar-se de apuros — dizia o pai. — Caça um animal, arranca-lhe o pêlo e depois colamos-to na cabeça.

— Com cuspo — disse o irmão.

O urso saiu para o bosque e encontrou um tigre que bufava ferozmente e se preparava para lhe saltar. Zás! O urso saiu dali e foi a correr para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não. No bosque só estava um tigre e eu não quis caçá-lo. Não quero ficar com riscas na cabeça.

No dia seguinte, o urso voltou ao bosque para ir caçar e viu vir ao longe um lobo a lamber os beiços.

O urso fugiu o mais depressa que pôde e correu para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não, só encontrei um lobo e não quis caçá-lo. Tinha pêlo cinzento e branco e eu não quero parecer assim tão velho.

Na caçada seguinte, apareceu-lhe, de repente, uma raposa, de boca aberta. O urso foi mais rápido e conseguiu chegar inteiro a casa.

— Voltaste a não caçar nada? — perguntou o irmão.

— Não, só vi uma raposa e não quis apanhá-la. Cheirava a carne podre e eu não quero ter maus cheiros na cabeça.

— Esta é a minha última tentativa — disse o urso, no dia seguinte, ao partir para o bosque.

Não encontrou ninguém e foi-se embrenhando nele cada vez mais. Procurava nos matagais, rastejou para dentro dos arbustos, subiu a uma árvore. Aí, na segunda ramificação, estava um esquilinho a dormir, e o seu pêlo era da mesma cor do pêlo do urso.

— Ora aqui está! — disse o urso, esfregando as patas de contente. Levantou-se para fulminar o esquilo com um golpe. O esquilinho abriu um olho e piscou-lho amigavelmente e sem medo.

— Desculpa! — disse o urso. — Não quero que seja assim. Não quero ficar com remorsos.

Baixou a pata, estendeu-a ao esquilinho e desceu do ramo. Sentou-se no musgo, encostou-se à árvore e, como estava cansado, adormeceu também.

Chegou depois junto dele um arganaz, ou melhor, uma mãe arganaz com uma barriga muito gorda. Passou furtivamente pelo urso, rastejou-lhe pelo braço e pelo ombro até que chegou à cabeça.

— Olá! — exclamou ela. — Este lugarzinho parece ter sido feito para mim. Não é lá muito macio, mas à volta é quentinho.

Arrancou algum pêlo seu, com o qual almofadou a pelada, instalou-se e deu à luz os filhotes.

Quando o urso acordou, sentiu uma comichão esquisita na cabeça. Levou a pata à mancha branca – como ele lhe chamava – e viu que se encontravam lá um rato grande e quatro ratinhos que sentiu não terem pêlo. Levantou-se com muito, muito cuidado, e foi para casa pé ante pé.

A mãe, o pai e o irmão ficaram assombrados.

— Agora já tens pêlos na cabeça — disseram.

O urso passou a dormir de costas direitas, sentado numa cadeira, até os pequenos arganazes saírem da pelada, rastejarem atrás da mãe pelos ombros e pelo braço do urso e, passando pela perna dele, seguirem na direcção do bosque.

Aos poucos, o vento fio soprando da cabeça do urso o pelo do arganaz.

— Afinal, estou muito satisfeito com a minha careca — disse o urso. — Talvez alguém mais possa vir a precisar dela.

Hans Manz

Reinhard Michl (org.)
Wo Fuchs und Hase sich Gute Nacht sagen
Hildesheim, Gerstenber Verlag, 2002
Tradução e adaptação

Um cãozinho amoroso

Um cãozinho amoroso

— Entra, David! — diz a professora de piano. — Não tenhas medo. O Henrique é um cão muito bem comportado.

— Não gosto de cães — diz David parando na ombreira da porta.

A Sr.ª Messner segura o cão pela coleira para ele não se atirar ao David.

“Que nome mais esquisito para um cão”, pensa David. Depois diz:

— Uma vez um mordeu-me — David aponta para uma cicatriz minúscula na bochecha direita. — Aqui, quando eu era bebé.

— Mas o Henrique não morde! Só quer brincar contigo!

— Mas eu não quero brincar! Tenho medo. A mamã disse que a senhora tinha um cão pequenino, mas este é grande!

— Mesmo assim ainda é pequenino — explica a Sr.ª Messner. — Ele não te faz nada, só que um pastor alemão não é propriamente um caniche.

David já se tinha habituado aos caniches. Até já tinha feito festas a um. Mesmo assim, David prefere passar bem longe de cães que lhe cheguem aos joelhos ou até mais acima. Pelo menos Henrique parou de ladrar.

— Para o lugar! — ordena a Sr.ª Messner, para o grande Henrique parecer um pouco mais pequeno aos olhos do seu aluno. Agora o cão quer farejá-lo.

— Para o lugar! — repete a dona e dá-lhe uma palmada na parte de trás. A palmada foi tão forte que Henrique até deslizou um bocado no chão de parquet.

— Ai! — diz David. Ele não quer que a professora bata no cão por sua causa. De certeza que a palmada lhe doeu. Henrique gane um pouco e encolhe a cabeça. Olha para a Sr.ª Messner com grandes olhos amedrontados. Por vê-lo mostrar tanto medo, David fica com pena do cão.

De um momento para o outro, o medo que ele tinha do cão, por sua vez também tão amedrontado, tornou-se um bocadinho menor.

— Pronto, vamos então começar a aula!

A professora senta-se ao piano e abre o livro de música. Do canto onde Henrique está deitado sobre a sua manta chegam ruídos de mascar, de salivar, rangidos e estalidos.

A Sr.ª Messner bate numa tecla mas David só ouve o mascar e o salivar, os rangidos e os estalidos do cão.

— Está a roer no osso de plástico — diz ela.

— Não lhe dá nada a sério para ele comer?

— Claro que sim! Mas o osso é bom para os dentes e para o maxilar. E, além disso, ele gosta de morder.

David encolhe as pernas imediatamente.

— Não tenhas medo. Ele só morde no que tem autorização para morder.

“Espero que saiba que não tem autorização para morder nas minhas pernas”, pensa David.

— O Henrique recebe boa carne, alguns vegetais e vitaminas. Até lhe dou óleo de fígado de bacalhau.

— Ugh! — David arrepia-se todo. Ele também tinha de engolir uma colher daquele óleo horrível todos os dias pela manhã.

Coitadinho do cão! Dão-lhe palmadas, tem de tomar óleo de fígado de bacalhau e mascar ossos de plástico.

— Bom — diz a Sr.ª Messner. — Agora toca lá a música que estivemos a ver na última aula.

David toca nas teclas erradas. Hoje já aprendeu muitas coisas sobre cães que já são grandes, embora ainda sejam pequeninos. Então talvez os cães grandes que encontra na rua não sejam assim tão maus como ele pensa.

— Então, o que é desta vez? — a voz da Sr.ª Messner soa um pouco zangada. — O cão não te faz nada! Ele está só a ouvir. Gosta de ouvir tocar piano.

“Do que eu toco, de certeza que não”, pensa David. O medo voltou. “À primeira nota errada, ele morde-me…”

David toca mas não sai nenhuma música de jeito porque ele vai deitando constantemente uma olhadela a Henrique. Henrique também parou de roer. Olha curioso para David, levanta-se e encaminha-se devagar para o piano.

— Garanto-te que o Henrique não faz mal. Ele também tem medo e precisa de muito carinho. Só lhe dou uma palmada de vez em quando porque ele tem de aprender a obedecer.

Dá-lhe palmadinhas no pêlo e bate-lhe suavemente no focinho.

— És um cão muito bonito, és um cão muito bem comportado… Vai! Volta para a tua manta!

E, de facto, Henrique volta para o seu canto!

— Uau! — exclama David. — Ele percebe o que lhe diz!

— Só tem de se repetir várias vezes as mesmas frases.

Isto também é novo para David: um cão com quem se pode falar. David experimenta imediatamente:

— És um cão muito bonito — diz, baixinho. Depois mais alto:

— Um cão muito bonito… um cão muito bonito…

— Já vais ver; daqui a nada, volta outra vez. Ele é como um bebé que está sempre à espera que lhe façam festas.

Henrique está de volta e deita-se aos pés de David.

— Fui eu que o chamei cá — diz, com orgulho.

De repente a professora começou a falar de Henrique.

— Devias ter visto em que estado o recebi. Fui buscá-lo a um canil. Lá, ninguém queria ficar com ele porque era muito magro e feio. E ainda por cima tem uma mania. Não entra em carro nenhumm. Quando ainda era muito pequenino foi atropelado. Olha! — diz, virando-o suavemente de barriga para o ar. — Estás a ver, foi aqui que foi cosido.

David consegue ver uma linha curva vermelho acastanhada que atravessa ao comprido a barriga clara do cão. Pobre Henrique! David leva a mão à sua própria cicatriz. Aquilo é tão mau como o que se passou com ele próprio!

— E de quem era o cão antes de ser seu?

— Não sei. Foi encontrado ferido na estrada. Alguém o levou para o canil porque não estava identificado.

— E ninguém foi procurá-lo?

— Ninguém. Foi no Verão, talvez os donos tivessem querido ir de férias e não soubessem o que fazer com ele.

— E deixaram-no assim na rua, sem mais nem menos?

— É uma hipótese — diz a Sr.ª Messner — Também se pode ter perdido. Fosse como fosse, ninguém apareceu para o levar.

David tinha uma vontade enorme de fazer uma festinha ao pobre do cão, mas ainda não se atreve a chegar mesmo à beira dele.

— Pronto! Então agora vamos lá começar!

David olha para o caderno mas na sua cabeça um cãozinho preto atravessa a estrada a correr. Não é suficientemente rápido. Ouvem-se travões a chiar. O cãozinho é projectado pelo ar e fica deitado debaixo das rodas, sem se mexer.

David range os dentes com as dores e fecha as mãos de repente.

— Assim não se pode tocar! — diz a Sr.ª Messner — Mas o que é que tens? Dói-te a barriga?

— Nn…ão — gagueja David. Olha furtivamente para Henrique. O medo que David tem do cão, que também tem medo por ter sido atropelado por um carro, desapareceu definitivamente. Já nem a língua vermelha e comprida que lhe cai da boca, o assusta.

— Espera um bocadinho. Vou buscar-lhe alguma coisa para beber. — A Sr.ª Messner corre para a cozinha.

Henrique pousa uma pata no pedal.
— Toca tu por mim — diz David. — Ninguém ia notar a diferença.
O cão olha para ele com grandes olhos suplicantes.
— Mas o que é que tu queres?
— Quer que lhe faças festas — diz a Sr.ª Messner ao voltar para a sala com uma tigela cheia de água. — Repara como ele olha para ti.
David gostava muito de fazer festas ao cão mas ainda não é capaz. Mesmo que Henrique seja diferente dos outros cães, David sabe muito bem que os cães mordem.
E o seu amigo Olaf, que tem um Spaniel, disse-lhe que os cães cheiram melhor que os Homens e ouvem muito melhor do que ele, David. E os cães percebem muito bem quando temos medo. Se um cão lhe aparecer na rua pela frente, David bem pode cantar e assobiar a fingir que não tem medo, porque o cão consegue olhar para dentro da barriga de David e vê-la a tremer.
“Por mim, o Henrique bem pode deitar-se aqui em cima dos meus pés”, pensa David. “Mas tocar-lhe com as mãos, isso é que não.”
— És um cão muito bonito — diz-lhe outra vez, o mais amável de que é capaz. David sente o bafo quente de Henrique no dedo grande do pé.
— Ele gosta de ti — diz a Sr.ª Messner. — Vai fica à tua beira.
David acha isso bonito.

— Socorro! — grita ele de repente, levantando-se com um salto tão violento que o banco do piano cai ao chão com grande estrondo. No mesmo instante, Henrique levanta-se assustado e desaparece por baixo do piano, encolhendo-se, a tremer, no canto escuro da parede.

— O que foi? — grita a Sr.ª Messner assustada.

Nem sabe quem deve consolar primeiro, se David, que está assustadíssimo, se o cão, que está a tremer.

— Ele lambeu o meu dedo grande do pé! — diz David, um pouco envergonhado.

— Mas ele não queria fazer-te nada de mal! Só queria mostrar que gosta de ti!

“Que maneira mais esquisita de mostrar que se gosta de alguém”, pensa David.

David já se acalmou. Henrique não.

A Sr.ª Messner gatinha para baixo do piano e fala carinhosamente ao cão.

— Pronto, não é nada.

David gatinha também por baixo do piano ao encontro da professora.

— Desculpa — diz ele a Henrique.

A Sr.ª Messner pega-lhe na mão e passa-a pelo dorso de Henrique.

— O David não queria assustar-te — diz. A professora retira a sua mão e David continua sozinho a passá-la pelo pêlo, sempre, sempre, até o cão deixar de tremer, até ficar completamente calmo.

É bonito fazer festas ao cão.

Ainda é mais bonito mostrar que já não se tem medo.

O que David mais gostava agora de fazer era dar-lhe outra vez o dedo grande a lamber, como prenda por terem feito as pazes e para mostrar que lamenta o que aconteceu.

Mas assim também já está bem.

Henrique pousa a cabeça no colo de David e David fica sentado muito quieto.

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
Tradução e adaptação

O pai de Andi

O pai de Andi

Não era normal! Os três amigos de Andi tinham pais famosos.

O pai de Alexandre era cirurgião. Um daqueles médicos a quem as pessoas ricas e importantes recorrem para tirar o apêndice.

O pai de Rafael tocava violino. Não apenas por prazer. Dava concertos pelo mundo inteiro e era sobejamente conhecido.

O pai de Gino era um realizador de cinema. Diz aos actores o que eles têm de fazer, foi como Gino, com certo orgulho, explicou a profissão do pai.

O pai de Andi era vendedor numa loja de roupa para homem. Um pouco baixo, usava óculos dourados e não era nada conhecido.

Andi só o via ao fim-de-semana, porque os pais tinham-se separado. Quando os colegas falavam dos pais, Andi ficava calado. O que é que ele havia de dizer? Na passada terça-feira, o meu pai vendeu um fato de flanela cinzenta?

Nas férias grandes, Alexandre foi para África, porque o pai queria fotografar leões. Rafael foi para Nova Iorque, onde o pai ia dar um concerto. E Gino foi para a Jugoslávia onde o pai estava a rodar um filme de cowboys.

O pai de Andi queria ir para a Toscânia. Pela sua bela paisagem e porque gostava de visitar igrejas antigas. Andi não tinha bem a certeza se queria ir, mas estava combinado passarem juntos umas férias por ano. Por isso, Andi foi com o pai para Itália. Para dizer a verdade, até gostou bastante. Ficaram numa terrinha entre vinhas, davam passeios e visitavam igrejas antigas, mas não em demasia.

Certo dia, que seria diferente dos outros, passeavam pelo mercado de uma pequena aldeia. Compraram tomates e alhos para o molho do esparguete, e ainda pêssegos e uvas para a sobremesa. Num pequeno bar, o pai de Andi tomou café e

Andi bebeu um sumo de laranja, que em Itália se diz “aranciata”. Dirigiram-se depois, devagar, para o local onde o carro ficara estacionado.

Andi foi o primeiro a ver os pássaros. Parou, horrorizado. Numa parede batida pelo sol estavam dependuradas cerca de vinte minúsculas gaiolas, cada uma com um pássaro fechado dentro. Pardais, tentilhões, um melro. Num desespero evidente, arremessavam-se para cima e para baixo contra as grades das pequenas gaiolas.

— Que maldade! — disse Andi.

O pai de Andi olhou pensativamente e não proferiu palavra.

De resto, mais ninguém parecia incomodar-se com os pássaros encarcerados. As pessoas passavam, falavam, riam, e não prestavam a mínima atenção àquele arremeter e piar de desespero.

O pai de Andi aproximou-se de uma gaiola. O pardal, prisioneiro e em pânico, tentava bater as asas, mas a gaiola era tão pequena que as asas embatiam contra as grades de madeira. Num gesto rápido e resoluto, o pai de Andi abriu a porta da gaiola. Teve de retirar primeiro o recipiente da água e só depois é que pôde abrir a porta de arame. O pardal mais parecia dar cambalhotas do que voar. Pousou por um instante na rua, atordoado, mas depois voou e desapareceu. O pai de Andi abriu todas as gaiolas uma por uma.

— Estão a olhar para nós — disse Andi. — Despacha-te!

Mas só quando abriu a última gaiola, é que o pai pegou no saco de papel que tinha pousado no chão e deu a mão a Andi.

— Não vão deixar-nos passar — disse Andi com medo.

Um pouco mais à frente, havia pessoas paradas na rua, que falavam em voz baixa umas com as outras e olhavam para eles com um ar severo.

Agora bem que precisariamos de Renzo Romano, pensou Andi, deitando um olhar de soslaio ao pai. Que esquisito! Teria crescido em pouco tempo? Parecia muito maior do que de costume, muito decidido e fazia uma cara – Isso, exactamente como Renzo Romano antes de um duelo de vida ou de morte.

Contrariadas, mas sem nada fazerem, as pessoas da rua afastaram-se, deixando o caminho livre a Andi e ao pai.

Quando dobraram a esquina, estugaram o passo e, em poucas passadas, chegaram ao carro. Andi voltou a olhar para o pai para se certificar. Será que alguém na idade dele podia ainda crescer? E tão de repente? Devia ter sido uma ilusão.

Deixaram a pequena aldeia para trás, mas nenhum dos dois falava. Andi olhou mais do que uma vez discretamente pelo espelho. Nenhum perseguidor. À sua frente, estendiam-se montes raiados de cor-de-rosa, violeta e azul-claro. Ciprestes escuros erguiam-se contra o azul leitoso de um céu de Verão. Os dois continuavam ainda em silêncio.

Mais tarde, sentaram-se então debaixo de uma oliveira, a comer pêssegos sumarentos. Sobre as suas cabeças, pousado num ramo coberto de folhas prateadas, cantava um pássaro.

— Este é um dos do teu grupo de admiradores! — disse Andi.

Está ansioso por saber o que Alexandre, Rafael e Gino irão dizer desta acção de salvamento.

Edith Schreiber-Wicker

Brigitte e Wilhelm Meissel (org.)
Fernweh
Wien, Herder Verlag, 1980

tradução e adaptação

O Milhafre

O Milhafre

Quando abro os olhos, o céu é a primeira coisa que vejo, e o vento a primeira coisa que sinto. O céu azul afaga-me com os seus dedos de vento e o sol quente seca as minhas penas molhadas.

Do ovo que está junto da minha casca partida vem um barulho e um bico curvo emerge em busca de ar. Ouço mais um ruído e consigo ver uma cabecinha húmida e pegajosa. São dois passarinhos que lutam para se desembaraçarem da casca. São os meus irmãos.

De repente, ouve-se um batido de asas. É a nossa mãe que regressa ao ninho com comida no bico. Cheira tão bem que piamos logo “Ki! Ki!”. Temos todos fome, mas como sou a cria mais velha, sou alimentada primeiro.

Os nossos pais trazem-nos ratos e musaranhos mal os apanham, e cortam-nos em pedacinhos para podermos comê-los. Todos crescemos depressa, mas sou eu quem cresce mais.

O nosso ninho está numa pontinha do céu. Os dedos suaves do vento agitam as nossas penas e o sol aquece os nossos dorsos. Sentamo-nos bem juntinhos dentro de um buraco em forma de folha de trevo, colocado bem alto na parede de uma escola. Dali conseguimos ver o recreio, os campos da aldeia e a estrada.

Esticamos as asas e abanamo-las como fazem os nossos pais. As crianças que estão no recreio olham para cima e apontam:

— Olhem os milhafres bebés! Vejam só as suas peninhas fofas!

Certa noite, depois de as aulas acabarem, ouvimos um som de passos que se dirigem para nós. Arrastamo-nos até ao fundo do ninho. Vemos uma sombra negra a pairar e piamos “Ki! Ki!”. Não é o nosso pai nem a nossa mãe. É uma criatura sem cheiro a pássaro. Dou-lhe algumas bicadas e arranho-a com as minhas garras. A silhueta faz um barulho estranho e sou agarrado por duas mãos. Levam-me de casa, envolto na escuridão

Quando abrem o saco, a luz ofusca-me. Tento voar, mas vou de encontro a umas grades fortes e caio no chão, numa nuvem de penas. Onde está a minha casa, onde estão os meus pais e irmãos? Onde estão o vento e o sol? De novo me atiro contra as grades e de novo caio no chão. Uma voz diz, então:

— Quero que sejas meu amigo e de mais ninguém.

Mas eu não compreendo. Lembro-me de ver este rapaz no recreio. É maior do que os outros e empurra-os com frequência. Nunca se ri ou brinca com os colegas.

Quando me traz comida não a parte em bocados e, por isso, não posso comê-la. Tenta que eu salte para a sua mão enluvada, mas fico aninhado a um canto da gaiola. Começo a ficar mais magro e mais fraco, e tenho saudades de casa. Chamo pelos meus pais “Ki! Ki!”.

O rapaz cobre-me a cabeça e sinto os dedos do vento nas minhas penas. Quando me tira a cobertura, bato as asas e tento voar. Ouço, então, uma rapariga exclamar:

— Daniel! Roubaste o nosso milhafre!

— Deixa-me em paz! — grita o rapaz.

A rapariga é corajosa e não desiste:

— O que lhe aconteceu? Está tão magrinho!

O rapaz insiste:

— Quero ficar com ele. Quero ter algo que seja meu!

A rapariga replica:

— Um animal selvagem não pode ser teu amigo. Ou o levas de volta ou ele morre.

— Não quero que ele morra — diz o rapaz, num tom de voz suave e meigo.

— Se o levares de volta, prometo que não conto a ninguém ─ insiste a menina.

Consigo ouvir o barulho do recreio. Estou perto de casa. As crianças rodeiam-nos e gritam:

— É o nosso milhafre! O Daniel encontrou o nosso milhafre!

Estou em casa. Os meus irmãos sibilam. Estão mais crescidos do que eu e não parecem conhecer-me. Mas assim que pio “Ki! Ki!”, lembram-se do som que eu fazia e deixam-me entrar no ninho. Vão até à borda, batem as asas e voam por cima do recreio.

O céu afaga-me com os seus dedos de vento e agita as minhas penas. Estou sozinho em casa.

Ouço um bater poderoso de asas: é a minha mãe que vem alimentar-me. Lembra-se da sua primeira cria. Agora sei que estou a salvo.

Em breve as minhas asas ficam outra vez suaves e fortes. Mas continuo na borda do ninho. Não quero deixar a minha casa. As crianças que estão no recreio olham para cima e dizem umas às outras:

— O milhafre tem medo de voar.

O meu pai está no topo de um mastro do recreio. Tem um musaranho no bico para mim. Tenho fome e chamo por ele:

— Ki! Ki!

Mas o meu pai nem se mexe.

O meu irmão aterra numa árvore e pede comida. Bato as asas, numa tentativa desesperada. Tenho de voar!

De repente, sinto a espessura do ar e sinto os dedos do vento a segurarem-me. Atiro-me da borda e voo em direcção ao mastro. Arranco o musaranho do bico do meu pai e oiço as crianças a rir e a aplaudir.

O céu e o vento são meus amigos. Abano as asas para poder voar bem alto sobre a escola. Os meus olhos penetrantes procuram ratos, enquanto pairo sobre os dedos do vento.

Vejo o rapaz com o seu novo amigo. Olham para cima e exclamam, excitados:

— Olha o milhafre! O nosso milhafre!

Alan Brown; Christian Birmingham
Windhover
London, Picture Lions, 1998

tradução e adaptação

Ternura

Ternura

Era uma vez um violino. Tinha música azul. Tocava-o um músico de cabelo muito negro e longo e mãos longas e brancas. Pegava no arco e todo o azul se desenrolava no ar. Quando a música era mais triste, o azul ia ficando roxo e depois vermelho cor de sangue. Se a música era mais alegre, o azul ficava claro, verde, às vezes até amarelo.

Dirão os meus amigos: isto é uma história. Não é. Ou será história, talvez, mas uma história verdadeira.

O músico tinha um cão. Que se chamava Jagunço. Era preto e branco o Jagunço. Um rafeiro. O seu olhar meigo, como um luar castanho, todo ternura.

Um dia, o dono, o nosso músico – que se chamava Joaquim – sentou-se junto de uma janela de sua casa. Uma janela aberta. Era Outono, as folhas das árvores estavam castanhas, quase douradas, como o olhar do Jagunço.

E Joaquim sentou-se com o seu violino. E começou a tocar. Triste. Azul, roxo, vermelho. Vermelho igual à rosa da Primavera? Não. Um vermelho triste de uma ferida na nossa mão.

Jagunço olhou o dono. Olhar triste o do cão. Castanho-dourado das folhas de Outono. Perguntando sem ladrar, sem palavras da sua fala de cão:

— O que te apoquenta? Eu estou aqui e sou teu amigo.

Os sons continuavam. Azuis, roxos, vermelhos.

Joaquim estava triste. E Jagunço também. E o violino tocava, tocava, tanto azul, tanto roxo, tanto vermelho…

Parou de repente de tocar. Jagunço deitou a cabeça nos joelhos do dono.

Perguntando sem ladrar, sem palavras da sua fala de cão:

— O que te apoquenta? Eu estou aqui e sou teu amigo.

O dono passou-lhe a mão branca e longa pela cabeça. Com ternura. Igual à do olhar do cão.

Lá fora, nos ramos de folhas douradas, cantou um pássaro. Sons de todas as cores.

O Sol acabava de se pôr no horizonte.

Vermelho. Igual a uma rosa vermelha. A uma flor de sangue numa mão ferida.

Joaquim levantou a sua mão sobre a cabeça do Jagunço. A mão que levara ternura trazia ternura. Todo o dourado do olhar.

E, como por encanto, uma rosa vermelha, autêntica rosa de Primavera, ficou-lhe na mão. Fugiu para o arco do violino. E o arco foi uma ramada de folhas verdes. Que o vento da música ia agitar.

E Joaquim começou a tocar. Azul, verde, amarelo.

Jagunço olhava-o admirado. Talvez os cães sorriam. Talvez. O seu olhar dourado tinha ouro-claro de alegria.

Era um olhar de rei, mas de rei bom. De rei que entende os rafeiros. Os homens. Todos os Joaquins que sabem dizer se estão tristes ou alegres. E dizê-lo aos outros homens.

E Joaquim tocou, tocou, até anoitecer.

Um dia, em papel branco de pautas de cinco linhas, escreveu toda aquela música que tinha tocado defronte da janela. Em clave de fá e de sol. De Sol!

Jagunço não sabia ler mas sabia escutar.

Joaquim pôs um nome a essa música – Ternura.

E Jagunço tudo entendeu com os seus olhos bons.

Matilde Rosa Araújo
O Chão e a Estrela
Lisboa, Editorial Verbo, 2000
Adaptação