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No refúgio dos ursos bailarinos

 

Notícias Magazine
21.Out.2007

No refúgio dos ursos bailarinos

 

Na ilha grega de Arkturos há um santuário especial. Um centro de acolhimento onde vivem trinta ursos, resgatados a tristes destinos: refugiados de guerra, confiscados a circos e a ciganos que os passeavam pelas ruas para mostrarem, os seus dotes de dançarinos.

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O centro de informação sobre os Ursos Castanhos, na ilha grega de Arkturos, na Macedónia Ocidental, recebe mais de trinta mil visitantes por ano. O grande objectivo é contribuir para uma maior consciencialização dos problemas ambientais e para a necessidade de preservar os animais selvagens e os seus habitats.

 

Em Arkturos foi criado um centro para recolher os ursos bailarinos (confiscados aos seus donos que lhes queimavam as patas para dar a impressão de dançarem) e outros, como ursos “refugiados de guerra” vindos do zoo de Belgrado, ou um urso preto americano resgatado de um circo. Um staff de profissionais voluntários cuida deles e do seu habitat.

 

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Há mais de 35 milhões de anos que os muito adaptáveis ursos castanhos conseguiam encontrar boas condições de vida em quase todo o continente europeu. Mas calcula-se que só nos últimos dois séculos a distribuição e a população de ursos castanhos tenha decrescido 60 e 50 por cento, respectivamente, conduzindo a uma dramática fragmentação daquela que sempre foi uma zona de habitat para este animais. Actualmente, os ursos castanhos sobrevivem em pequenas populações isoladas no Sudeste Europeu e foram oficialmente considerados uma espécie ameaçada. O contínuo declínio da população de ursos castanhos e a destruição dos seus habitais devem-se sobretudo a factores humanos. Nos últimos anos, a ilha grega de Arkturos tem-se empenhado activamente em salvar esta espécie.

A triste história da «dança»

urso-1.jpgOs ursos castanhos são muito populares na Grécia. Era frequente vê-los passear nas ruas, pelas trelas dos donos, geralmente ciganos, que os faziam dançar ao som dos batuques dos seus tambores. Só que esta «habilidade» tinha por detrás uma triste história: em bebés, os donos queimavam-lhes as patas da frente para que as levantassem e abanassem enquanto tocavam, dando assim a impressão de estarem a dançar. Em jovens e adultos, traumatizados pela experiência, os ursos levantavam e abanavam as patas sempre que ouviam os batuques.
Em 1969, esta prática foi proibida por lei. Mas havia um problema: as autoridades não podiam confiscar os ursos aos donos porque não tinham onde os guardar. E estes animais nunca conseguiriam sobreviver em estado selvagem. Os donos partiam-lhes os dentes para que não os mordessem e estão psicologicamente perturbados pela experiência da vida em cativeiro.

Refugiados de guerra

Em 1992, a ilha de Arkturos fomentou a criação de uma organização não governamental e sem fins lucrativos para proteger os ursos castanhos. A iniciativa rapidamente conseguiu o apoio de fundos privados e da União Europeia. Foi criado o Centro de Informação sobre os Ursos Castanhos e concebido um abrigo para acolher os ursos «bailarinos» e outros, como refugiados do Zoo de Belgrado, evacuado durante a guerra, e um urso preto americano resgatado a um circo. Hoje vivem no centro trinta ursos. Uma equipa de 16 pessoas, coadjuvada por quarenta associados ao projecto e mais quarenta voluntários, tratam dos animais e da preservação do seu habitat. O centro recebe mais de trinta mil visita por ano e desempenha um papel fulcral na consciencialização das pessoas. Porque a sobrevivência destes ou de quaisquer outros animais depende só de uma verdade muito simples: para que a vida no planeta continue, os seres humanos e os animais selvagens têm de saber «coabitar».

 

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Estes ursos seriam incapazes de sobreviver no estado selvagem. Têm os dentes partidos pelos antigos donos (que o faziam para não serem mordidos) e estão perturbados pela sua experiência de vida em cativeiro. Os ursos castanhos existem no continente europeu há milhões de anos. Hoje, são uma espécie ameaçada.

 

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Um camelo nas ruas da cidade

Um camelo vai andar hoje nas ruas de S. Domingos de Benfica. Trata-se de uma fêmea de duas bossas cor castanho-acinzentada e de 13 anos de idade. Há oito anos que reside no Zoo de Lisboa, vindo do Zoo de Frankfurt.
Este camelo é muito elegante, pois só pesa 1500 quilos e tem 2,5 metros de altura. Chama-se “Zeide” e vai colaborar no início das sessões de animação cultural e espectáculos promovidos pela Associação de Amizade Internacional “A Criança”.

Jornal de Notícias, 9-3-1980

Digam lá: não me acham elegante com as minhas duas bossas castanho-acinzentadas? Acham que sou vaidosa? Talvez, mas sou senhora do meu focinho. E a propósito, caros primos e primas, vou contar-lhes uma história aborrecida.
Ontem, estava eu muito sossegada, a apanhar sol nas bossas, aqui junto à minha casa no zoo, quando dois homens de aspecto rude chegaram com umas cordas e disseram:
— Anda daí, Zeide, vais hoje dar um belo passeio pelas ruas da cidade.
— Não há como ser animal de jardim zoológico: sem preocupações, comidinha sempre a horas… — acrescentou o outro. — Quem me dera também poder ir passear.
— Isso é que era bom! — retorquiu o primeiro com ar fatigado. — Passa-se a vida a trabalhar. Quase não há tempo para um passeiozito e os transportes, ainda por cima, estão caros. Nem ao domingo, que é dia de consertar alguma coisa estragada lá por casa ou de fazer uns biscates aqui e ali.
Eu estava interessada em tudo menos naquelas lamentações ou em ir passear pela cidade num dia de sol tão bonito como o de ontem. Se ainda fosse para dar uma volta pelas areias quentinhas e macias dos desertos do meu país! Não acham, primos?
Mas não. Meteram-me num camião e lá fui aos solavancos para um lugar aqui perto, a que ouvi chamar S. Domingos de Benfica. Bem fica? Bem é que não fiquei!
Quando chegámos, havia um magote de gente à espera. Alguém puxou pela corda que me tinham amarrado ao pescoço e logo várias pessoas me rodearam, aos saltos e aos berros. Impossíveis, estes humanos! Todos a falar ao mesmo tempo, além de passarem a vida a empurrar-se uns aos outros. O que eu tive de aguentar! Ora ouçam:
Penduraram-me nas bossas uns grandes cartões com uns dize¬res de várias cores, mais umas fitas amarelas e encarnadas. E, para minha grande vergonha, puseram-me uma cartola presa com um elástico e obrigaram-me a ir para o meio da rua, feita macaco ou cavalo de circo — isto não desfazendo aqui no primo macaco e no primo cavalo… Lá fui fazer propaganda a uma associação qualquer, nem sei bem qual. Se ao menos fosse a Sociedade Protectora dos Animais… As crianças batiam palmas e riam à minha passagem.
— Aquele camelo com a cartola parece um palhaço! — gritava uma rapariguinha.
— O camelo é bom companheiro! O camelo é bom companheiro! — cantavam em coro dois miúdos.
— Pessoal, se a professora aqui estivesse, dizia logo, com ar de quem nos está a fazer um favor, que aproveitássemos bem, para depois contarmos tudo por escrito. — Isto proclamava um matulão, sem parar de dar palmadas nos costados dos colegas.
— E então? Aproveita. Pode ser que escrevas a melhor história da turma — comentou outro com ar de gozo.
Assim caminhei duas horas no meio de autocarros, automóveis e motorizadas, a aturar o chinfrim dos humanos, que riam, batiam palmas e me atazanavam os ouvidos. Enquanto isto, um carteirista aproveitava para palmar umas carteiras sem ninguém reparar. O que eu não daria para estar, naquele momento, deitada à sombra de uma palmeira, num oásis do meu país, sem ter de respirar o fumo de gasóleo e gasolina e de aguentar empurrões e barulheira!
Por fim, lá me levaram de volta para o camião, onde os dois homens me esperavam. E assim regressei, maldisposta e com dores de cabeça, a esta areia do zoo.
Fiquei mais exausta do que se tivesse feito uma caminhada de quilómetros pelo deserto — onde, ao menos, o ar é puro. Os fumos da cidade não se aguentam. Estou para entender como os homens conseguem. Antes este espacinho meu, aqui no zoo, entre árvores e palmeiras, do que as ruas irrespiráveis do centro da cidade.
Olhem, ao menos que o matulão tenha aproveitado o episódio para fazer o tal escrito.
Quanto a mim, espero nunca mais ter de lhes contar outra triste aventura como esta.
E agora, primos, vou beber uma aguinha fresca, desentorpecer as pernas e depois estender-me à sombra da minha palmeira favorita. Ainda me não recompus.

João Pedro Mésseder

José António Gomes (org.)
Um Bosque de Palavras
Porto, Porto Editora, 2006

Animais: com que direito lhes negamos direitos?

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

Animais: com que direito lhes negamos direitos?

 

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Isto de ser humano

Sabia que existe uma declaração universal dos direitos dos animais? Sabia que há leis para definir as fórmulas correctas, éticas e “humanas” para criar, transportar e matar vitelos, porcos, galinhas e todos os outros animais usados na alimentação? Sabe distinguir a crueldade “necessária” da “desnecessária”? E o sofrimento “útil” do “inútil”? Já ouviu falar do “bem-estar animal”? Não? Então é provável que não faça a mais pequena ideia do que é o veganismo e que nunca tenha colocado em questão o supremo direito do Homem sobre os outros seres da Terra ou o seu lugar como centro do mundo, rei incontestado de tudo o que existe. É possível que nada o faça desistir de comer carne ou peixe, que ache perfeitamente admissíveis as experiências em animais, que não se incomode com o uso de peles ou com a caça, aplauda as touradas, não pestaneje com o tiro aos pombos, se entusiasme com as lutas de galos, adore levar as crianças ao Zoo e considere as feras o melhor do circo. É possível que encare algumas destas coisas como normais e necessárias e outras não e ache mal misturar tudo. É até possível que determine toda esta conversa como absolutamente ridícula. Em todo o caso, não tem nada a perder: pense nisso.

É difícil escolher por onde começar. Mas podia ser em números. Por exemplo, quantos animais morreram, morrem e morrerão, em média, para que um de nós, carnívoro, omnívoro, apreciador de calçado de pele genuína, cintos de couro, casacos de cabedal e abafos de pêlo, utilizador de cremes, perfumes e desodorizantes, antibióticos, antiesta-mínicos, anti-alérgicos e outras drogas corriqueiras, sujeito a uma ou outra cirurgia, transportado em automóveis, motos e demais veículos, alérgico a ratos, baratas, moscas e outras pragas, viva a sua vida normal? Milhões? Biliões? Triliões?

Entre vacas, ovelhas, cabras, porcos, galinhas, patos, perus, coelhos, perdizes, lebres, javalis, veados, peixes de todas as descrições, moluscos de variados calibres, crustáceos, crocodilos, avestruzes e tudo o que ocorra degustar, incluindo, se calhar em viagem ou em proveniência, macacos, cobras, cães, gatos, antílopes, tartarugas, golfinhos, gafanhotos, toupeiras e o que mais se use comer por esse mundo fora, uma hecatombe.

Só nos Estados Unidos, em cada ano, são 100 milhões de mamíferos e cinco biliões de aves. No mesmo espaço de tempo, a Grã-Bretanha consome 850 milhões de animais. Em média, um milhão e meio por pessoa.

Um oceano de cadáveres a perder de vista, esfaqueados, decapitados, electrocutados, asfixiados, baleados, armadilhados, arpoados, esmagados, espancados, sangrados, cozinhados vivos. Em agonia óbvia ou incerta, rápida ou lenta, necessária ou desnecessária. Quase sempre secreta, invisível na assepsia das prateleiras do supermercado, indeterminável no prato, mastigada com deleite, digerida com negligência. Quem é que já somou as vidas todas que vale, as vidas de que é feito? Quem é que já mediu as agonias, as dores, os sacrifícios que reclama? Quem é que vive com isso? E, deve também perguntar-se, quem é que pode viver sem isso?

É muito diferente quando se vê. Talvez, com o tempo, o hábito apague a náusea das imagens e dos sons e dos cheiros. É possível acreditar que é esta distância entre a vida nas cidades, longe dos ritmos essenciais do nascimento, do crescimento e da morte, longe do que se apelida de natural, que impede a convivência descontraída com o sangue e a carne e os ossos, com aquilo que se chama a inevitabilidade das coisas.

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Marcar animais com um ferro em brasa configura um sofrimento útil ou inútil?

Mas essa ligação tão óbvia entre o lombo, a costeleta e o bife e a carnificina industrial que estremece os matadouros, essa relação de causa e efeito que conduz dos estábulos e das pocilgas e dos aviários estes cortejos de animais comprimidos em gaiolas, em camionetas e vagões, quilómetros de animais em quilómetros de estrada, o espaço útil preenchido ao limite, a utilidade como critério, o sacrifício como razão, essa imanente verdade é um prodígio de negação. É um suave milagre que a consciência dos homens os salve daquilo que não vêem e apenas sabem e mais milagre é ainda que os salve daquilo que vêem e ouvem e cheiram. E fazem, claro. Nos matadouros como nas criações, nas produções de leite como de ovos, nos laboratórios como nos biotérios.

Um passeio, chamemos-lhe assim, pelos arquivos audiovisuais das organizações que pugnam pelos direitos dos animais revela-se um desafio à infinita capacidade de obliteração da memória.

A começar, por exemplo, pelo espectáculo das descargas de gado nos centros de abate, efectuado à paulada, ao pontapé, com guindastes (usados para descarregar vacas vivas, suspensas por uma pata, de um navio para o cais), passando pelas pecuárias intensivas onde cada animal é imobilizado num espaço ínfimo, sem luz do dia, manjedoura à frente, entregue à tarefa única de engordar o mais depressa possível para dar lugar a outro.

Pelas produções de leite onde as vacas são mantidas em maternidade constante, retirando-se-lhes os vitelos mal nascem, úberes ulcerados, deformados, o tempo de vida estreitado na margem dos quatro anos mais lucrativos, despachadas para o matadouro mal o fluxo enfraquece; percorrendo as fábricas de ovos onde as poedeiras, às quatro dentro de uma estreita gaiola, se esgotam na vertigem de verter claras e gemas em sequência contínua, o espeto e o fricassé como recompensa final.

Atravessando os longos corredores dos pomposamente denominados biotérios onde em milhares de pequenas gaiolas, sob luzes fluorescentes, em ambiente rigorosamente asséptico, se criam os hamsteres e os ratos e os coelhos e os gatos e os macacos que nos laboratórios desenvolvem todas as doenças, experimentam todos os vírus, bactérias e vacinas, pomadas, gotas, comprimidos, cremes de beleza, desodorizantes, perfumes.

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Quanto tempo leva um champô a destruir o globo ocular? Estes coelhos vão descobrir.

Segue: Animais: com que direito lhes negamos direitos? – cont.

Animais: com que direito lhes negamos direitos? – cont.

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

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É preciso não esquecer, lembram os gratos cientistas, que é pelo holocausto destes animais e de todos os que os antecederam que tantos medicamentos foram lançados no mercado, tantas doenças incuráveis deixaram de o ser. É graças à morte atroz de milhares de cães, por exemplo, e é só um dos muitos exemplos possíveis, que os diabéticos dispõem hoje da insulina. Se não fossem os animais de laboratório, onde treinariam os cirurgiões as novas técnicas de cirurgia? Que seria dos transplantes? E, já agora, que seria da segurança automóvel não fora a insistência nos “crash-tests” com animais vivos?

Que seria do conhecimento dos danos cerebrais humanos se não fosse possível infligir, em circunstâncias rigorosamente controladas, pancadas brutais, com máquinas, martelos ou outros instrumentos menos sofisticados, na cabeça de babuínos supostamente anestesiados que, entre cada golpe, procuram fugir das amarras que os prendem?

Como se avançaria na psicologia humana e no estudo do autismo e outros fenómenos misteriosos da psique caso não fosse possível manter chimpanzés (animais muito inteligentes e sensíveis, tão parecidos connosco) em absoluta solidão, do nascimento à morte, para ver que tipo de loucura desenvolvem?

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No fim da experiência, terminada a utilidade do sofrimento, este gato deverá ser morto. De forma humana, claro.

Depois, há outras necessidades, talvez menos vitais mas nem por isso menos evidentes. A utilização de produtos de origem animal no vestuário, quer implicando a morte dos animais quer não – é o caso da lã –, é tão antiga como o Homem. Como é antigo o uso de armadilhas, cada vez mais sofisticadas à medida que a tecnologia progride, cada vez mais perfeitas no seu cuidado de não danificar nenhuma parte relevante do animal.

Fotografias e filmes, mais uma vez, atestam a forma como as mandíbulas de aço das armadilhas modernas aprisionam os animais – raposas, arminhos, texugos – sem os matar, numa agonia de horas, dias, até que o caçador apareça para o golpe de misericórdia. Ou como nas quintas de criação de animais para aproveitamento de peles se electrocutam, gaseiam ou asfixiam os visons, chinchilas, etc, de modo a não arruinar nem um pêlo da preciosa mercadoria, a mesmíssima preocupação que obriga os caçadores de focas bebés a espancá-las até à morte. Podia pensar-se que o fazem por prazer; pois não, é mesmo necessário.

Mas, é claro, há também o divertimento. Os espectáculos com animais, da tradicional tourada ao tradicional circo, passando pelas tradicionais corridas de cavalos, cães, etc. Para não falar da luta de galos, dos duelos de cães, ou de certos costumes pouco compreendidos no Ocidente que consistem em torneios de cavaleiros a disputar um cabra, por exemplo, ou a ver qual é que consegue, passando a galope, arrancar a cabeça a um galo pendurado pelos pés. O espantoso arquivo das organizações internacionais de defesa dos animais não deixa nada em claro.

Eis a incursão nos bastidores do circo, por exemplo, para descobrir, do outro lado das habilidades demonstradas em palco, os imprescindíveis treinos à base de chicote, paulada e aguilhões. Mas como será que, a bem, se ensina um elefante a caminhar nas patas traseiras? Ou um tigre a saltar um arco em chamas? Com muito amor? Decerto. O mesmo amor aos animais que leva toda a gente a adorar uma ida ao Zoo, onde animais habituados a percorrer dezenas de quilómetros num dia se vêem confinados a algumas dezenas de metros (se tiverem sorte) ou a uma jaula de três por quatro, chão de cimento, paredes de azulejo, talvez mesmo sem luz natural.

Segue: E não há leis?

E não há leis?

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)
Texto de Fernanda Câncio

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E não há leis para estas coisas, pergunta-se. Claro que há, isto não é a barbárie. Há convenções, há até uma declaração universal dos direitos dos animais, proclamada pela UNESCO em 1978. E há as leis. Em Portugal, excedem a trintena os diplomas legais subordinados ao tema “protecção dos animais” ou melhor, “bem-estar animal”. Uma coisa algo árdua de definir mas que até merece, desde 1993, toda uma Divisão da administração portuguesa. Criada sob os auspícios do governo Cavaco Silva e inserta no então Instituto de Protecção da Produção Agro-Alimentar, a “Divisão de Bem-Estar Animal e Novas Produções” tinha como incumbência, além do acompanhamento das tais novas produções – crocodilos, avestruzes, chinchilas, caracóis, minhocas, moscas e outras curiosidades – zelar por que os animais de criação fossem tratados dentro dos parâmetros adequados às necessidades da espécie, garantindo as suas características fisiológicas e comportamentais, num meio ambiente correcto.

Nada mais que aplicar a legislação que a entrada de Portugal na Comunidade Europeia tornava imperativa. Uma tarefa espinhosa a que o governo PS deu o seu aval, mantendo a Divisão (já sem a pasta das “novas produções”) e inserindo-a na Direcção Geral de Veterinária.

E de que consta o referido bem-estar que a Divisão tem o dever de acautelar? Está tudo legislado, basta consultar.

Antes de mais, deve evitar-se o “sofrimento inútil”, assim como as “dores inúteis”, as “aflições inúteis”, os “danos inúteis”, etc. Sendo inútil muito claramente o contrário de útil, deve partir-se do princípio que existe um tipo de sofrimento útil e que, esse sim, não pode ser evitado. Quanto às formas de evitar os tais sofrimentos que não servem para nada, a legislação indica algumas:

No caso de animais não desmamados conduzidos ao matadouro, por exemplo, prescreve que devem ser mortos no mais curto espaço de tempo possível; se se tratar de animais de laboratório, sujeitos a experiências particularmente dolorosas ou traumáticas (o tal sofrimento “útil”) cuja recuperação se afigure dolorosa ou árdua, devem ser mortos o mais rapidamente possível, de forma “humana”.

No caso da occisão (morte) ou abate (morte por sangria) de animais para a alimentação, a lei prevê um atordoamento prévio, quer com gás, quer com uma pancada (“concussão”), quer com choque eléctrico (no caso das galinhas, suspendendo-as pelas pernas e enfiando-lhes a cabeça dentro de um tanque de água onde passa uma corrente eléctrica) de modo a anestesiá-los no instante fatal.

As formas de morte podem variar, desde a decapitação, aceite apenas no caso das galinhas, à intoxicação com dióxido de carbono – indicada para as chinchilas –, à electrocussão e ao tiro. Diagramas e desenhos das cabeças das várias espécies, explícitos q.b. e indicando a zona a atingir no atordoamento e “occisão” do animal, acompanham o texto da lei.

Quanto ao “descarregamento” dos animais no matadouro, a lei é estrita: “os animais devem ser deslocados com cuidado”, “deve assegurar-se que os animais não sejam amedrontados, excitados, maltratados e derrubados. É proibido erguer os animais pela cabeça, cornos, orelhas, patas, cauda ou velo, ocasionando dores ou sofrimentos inúteis”. Também é proibido “espancar os animais ou empurrá-los pressionando partes sensíveis do corpo”, “esmagar, torcer ou quebrar a cauda dos animais ou agarrá-los pelos olhos”, e “pancadas aplicadas com brutalidade, designadamente os pontapés”.

A sensatez destes preceitos prolonga-se no que respeita à exigência de que os animais que não possam ser abatidos logo após a chegada ao matadouro sejam estabulados, alimentados, dessedentados, e, caso passem ali a noite, lhes seja disponibilizada uma cama. O mesmo grau de exigência norteia a criação: tudo deve ser feito de modo a evitar “sofrimento inútil”, incluindo o proporcionar de “liberdade de movimentos própria da espécie” e de “um espaço apropriado às suas necessidades fisiológicas e etológicas” (mesmo quando o animal está preso “habitual ou continuamente”).

Nos sistemas de criação intensiva, os animais devem ser “objecto de uma inspecção rigorosa” pelo menos uma vez por dia e jamais ser alimentados “de forma susceptível a causar-lhes danos ou sofrimentos…” (adivinha-se o resto). Para os biotérios, estabelecem-se medidas mínimas para jaulas e gaiolas, métodos de alimentação, cuidados de higiene, temperaturas, humidades. Recomenda-se ao pessoal que, dado ser muito importante para o êxito da maioria das experiências que os animais tenham confiança nos humanos, reserve alguns momentos do dia para contactar com os animais, falar com eles ou até acariciá-los. Conciliando, bem entendido, a “amabilidade” com a “firmeza”, e excluindo sempre a agressividade.

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Apanhada na armadilha, esta raposa pode esperar dias pelo golpe de misericórdia. Tudo por uma gola de pele

Quanto ao transporte de gado, a lei obriga a que, em percursos superiores a 50 quilómetros, os animais sejam descarregados, alimentados e abeberados regularmente, tendo ainda que ter espaço para se deitarem e alguém para tomar conta deles. As multas pela não observância destas e das outras regras atingem alguns milhares de contos e as eventuais punições podem incluir o confiscar dos animais, o retirar da licença ou o encerramento das instalações ou exploração.

Surpresa das surpresa, na Divisão de Bem-Estar Animal, para além de algumas multas pecuniárias, não há notícia de qualquer contra-ordenação aplicada até hoje no que a estas regras diz respeito. Não houve até hoje uma única criação de animais que tivesse merecido ser encerrada. Portugal é um país de apaixonados do bem-estar animal, os nossos matadouros são um exemplo de compaixão e as nossas pecuárias referência mundial em termos de ética? Ou será que nesta matéria como nas outras – a começar pela da qualidade da carne produzida, da despistagem de usos de antibióticos, farinhas suspeitas e hormonas – a fiscalização é uma piada e a aplicação das leis uma quimera?

Num país em que é normal abandonar animais de companhia (estima-se em um milhão o total de cães e gatos “errantes”), afogar cachorrinhos e gatinhos à nascença e manter cães presos por correntes de ferro uma vida inteira, alimentados a ossos e pontapés, não é difícil adivinhar que tipo de tratamento recebem os animais destinados à alimentação. E se fosse difícil adivinhar bastaria abrir os olhos e ver os transportes de gado que passam todos os dias nas estradas portuguesas, ao sol, à chuva, atolados nas próprias fezes, sem água nem espaço para mexer a cabeça. Bem-estar animal? Matança humanizada?

“Isso é uma absoluta contradição”. Em inglês resulta melhor: “a contradiction in terms”, uma contradição dos termos. Andrew Butler está muito certo disso, talvez não devesse estar. Afinal, o que é que há de contraditório entre “humano” e “matança”? Para um membro da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals – Pessoas a favor do tratamento ético dos animais) a pergunta só pode ter uma resposta. Mais misteriosa é a forma como os PETAS coadunam a vida normal com esse “tratamento ético dos animais”. É fácil tratar bem os cães e os gatos, não é impossível deixar de comer carne ou peixe, abdicar do leite e dos ovos, abandonar as lãs, deitar fora os casacos de cabedal e as botas de couro… Mas como é que se faz quando apanhamos uma pulga ou deparamos com uma barata gigante no lava-loiças? Do outro lado da linha, Andrew sorri. “É praticamente impossível viver no mundo moderno sem causar sofrimento a algum animal ou até eventualmente matá-lo. Mas podemos tentar. Podemos deixar de comer animais, podemos parar com práticas cruéis, com as experiências com animais, a criação de animais para produção de eles, as armadilhas com o mesmo fim. O que nós defendemos, aqui na PETA, é que os animais não são nossos para comer, brincar, possuir, explorar ou seja o que for.”

 

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Método de “occisão” comum nas criações de animais para aproveitamento de pele: asfixia com um tubo de metal.

Conhecida no mundo inteiro pela intensidade e glamour das suas campanhas anti-peles, encenadas com o auxílio inestimável de algumas celebridades, produzidas em pelota para fazer fé ao dístico “prefiro andar nua que usar peles”, a PETA apresenta-se, com os seus 600 mil membros, como a mais importante de todas as organizações de defesa dos direitos dos animais, vencedora de algumas batalhas determinantes, como a travada contra a General Motors para obrigar a empresa a acabar com os testes de embate usando animais vivos. Ferozmente veganista – um tipo extremo de vegetarianismo que recusa qualquer produto de origem animal – e apaixonadamente contrária a qualquer tipo de utilização de animais, mesmo em experimentações com o objectivo de salvar vidas humanas, a PETA degusta nos seus panfletos, manifestos e discursos a ideia de justiça poética associada ao aparecimento de doenças como a Creuftfeld Jacobs. “Aquilo que temos andado a fazer não é bom para os animais, não é bom para o planeta e não é bom para nós”, agoira Andrew.

Como justificação – para quem precisa, é claro – ocorre sempre a mesma fórmula. Que é assim, que sempre foi assim, que é a lei da sobrevivência. Que também os animais (os outros) se matam entre si e se comem e aparentemente não têm grandes problemas de consciência lá por causa disso. Que temos de comer qualquer coisa e se não forem os bichos hão-de ser as plantas que também têm direito à vida. Que os animais existem para isso. Que a Terra é dos homens. Que somos o topo da cadeia alimentar, os predadores supremos. Que gostamos de comer carne e peixe. Que nos apetece. Que não temos força de vontade para mudar. Que fomos criados assim. Que é tradição. Que qualquer coisa.

As coisa são o que são, etc, etc. Mas o que é que as coisas são, finalmente? Donde é que vem esta certeza que nos separa tão radicalmente dos outros animais, esta consciência de superioridade não apenas no pensamento e na vontade mas sobretudo, porque é disso que se trata aqui, na sensibilidade e na capacidade de sofrer? Das diferenciações aristotélicas entre animais úteis e daninhos às determinações cartesianas do animal como autómato, passando pelas taxidérmicas distinções dos reinos e por todas as metódicas interrogações sobre o assunto da alma para finalizar nas mui científicas pesquisas da inteligência animal, conclusões nenhumas.

Tudo, afinal, uma questão de querer. Ou de querer pensar. O que é que faz da vida humana sagrada no desprezo radical das outras? De que é que falamos quando falamos de vida? E de humano? David DeGrazia, autor de “Taking Animais Seriously”, coloca o dedo na ferida (e em mais que uma, até):

“A nossa intermitente angústia moral acerca do aborto de embriões/fetos humanos demonstra que não somos sempre cegos em relação aos direitos dos fracos e sem defesa; mas as nossas vítimas dentro do útero são, do ponto de vista neurológico e psicológico, muito menos desenvolvidas que as vítimas da nossa última refeição.”

Segue: E não há leis? – cont.

E não há leis? – cont.

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos)
Texto de Fernanda Câncio

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Pois é normal e até desejável que, na mesma altura em que se discute com cada vez mais virulência a questão dos direitos da vida intra-uterina e do ovo e da concepção e por aí fora, se polemize também em matéria de direitos animais. Um embrião humano com doze semanas terá mais sensibilidade e consciência e capacidade de sofrer que uma vaca? E, caso seja por aí, não são ambos criaturas de Deus?

Há no entanto poucas coisas que suscitem tanto ridículo e irritação como esta história dos direitos dos animais. É usual argumentar-se que enquanto houver crianças a sofrer, homens e mulheres privados dos mais ínfimos direitos, a morrer à fome, etc, etc, não se pode falar em defesa dos animais. Uma estranha lógica que levaria os nossos antepassados abolicionistas a calarem-se para sempre perante a consciência de que também, entre os membros da raça considerada superior, se poderiam indiciar casos de sofrimento, exploração e discriminação, e induziria as mulheres em luta pela igualdade a meterem a viola no saco à menção da existência de homens escravizados, discriminados, explorados e privados da “auto-determinação”. Considerar mutuamente exclusiva a demanda de direitos só colherá quando esses direitos colidam de algum modo. Pois não é o caso: em que é que defender os direitos dos animais pode contender com a defesa dos direitos dos homens? Ou, melhor ainda, como é que suportar, compreender e achar normal o maltratar de animais pode beneficiar a causa da dignidade humana?

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Primata bebé de olhos cosidos numa experiência qualquer: legal, justificado e útil?

Depois das crianças, das mulheres e de todos os indivíduos de raças que não a branca, era inevitável que chegasse a vez dos animais. Não que as outras discussões estejam encerradas, longe disso. Por definição, estas discussões nunca se encerram. Aliás, é instrutivo recordar que no Ocidente o primado inquestionável (?) dos direitos humanos não tem nem cem anos.

Foi neste século, após centenárias discussões sobre a existência, fiabilidade e solidez da “alma” feminina, que as mulheres ocidentais, por exemplo, conquistaram o direito de voto, a autonomia da personalidade jurídica dentro do casamento e o direito de decidir sobre a sua vida sexual e reprodutiva (quer dizer…). Mas é neste século, mais exactamente no seu final, que as afegãs são fechadas em casa, impedidas de ir à rua sem a companhia de um homem, interditas de estudar, ler, ouvir música, de decidir seja o que for por si próprias.
Foi neste século que os maus-tratos infligidos às crianças pelos detentores do poder paternal se configuraram como crime e foi apenas no século passado que a maioria das nações ocidentais aboliu a escravatura. Para se constatar agora, aqui, que talvez nunca tenha sido tão extensa a multidão de seres humanos, crianças e adultos, forçados a trabalhar sem regras nem horário por um salário de miséria.

Foi este o século que instituiu o tráfico de órgãos humanos como um negócio altamente rentável e é neste século que a manipulação genética e a clonagem se perfilam como as mais milagrosas das descobertas científicas, capazes de obviar as insuficiências da Natureza, de compatibilizar o coração de um porco com o corpo humano, de multiplicar ao infinito cada indivíduo e abolir todas as fronteiras bioquímicas.

Foi neste século que as Nações Unidas declararam o genocídio como o mais abominável dos crimes contra a Humanidade, mas foi este século que encenou o mais sistemático e voluntarioso genocídio de que há memória. Contam-se exactamente cinquenta e três anos desde que milhões de pessoas foram espoliadas de tudo o que lhes pertencia, enfiadas aos magotes em vagões de mercadorias, transportadas durante semanas, através de milhares de quilómetros, sem água, luz, comida, ou higiene de qualquer espécie, para um destino onde a subalimentação, o trabalho escravo, a sujeição a incontáveis torturas com fins recreativos ou alegadamente científicos, e a ameaça permanente da morte só se suspendiam com o decreto do fim da sua utilidade enquanto seres vivos.

Do ilimitado pragmatismo da empresa atesta a existência de artefactos de pele humana (de preferência tatuada, para um efeito mais artístico) como luvas e abat-jours, o registo das várias manipulações e experiências – nomeadamente filmes e fotografias da autoria dos metódicos algozes – com incontáveis corpos desmembrados e o aproveitamento da carne dos mesmos para a alimentação. Isso mesmo explicava um normalíssimo octogenário de barba branca num documentário recente passado na televisão portuguesa: quando faltava a carne nos campos de concentração “era necessário” ir buscá-la aos cadáveres que esperavam, à boca dos fornos crematórios, a solução final. “Não me pareceu eticamente reprovável fazê-lo”, afirmava ele. Acredita-se.

Segue: Acção directa

Acção directa

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

Anterior: E não há leis? – cont.

ACÇÃO DIRECTA

A maioria das associações portuguesas ligadas aos direitos dos animais lida sobretudo com cães e gatos. As poucas excepções não têm um papel particularmente activo, mas são o que há. A nível internacional existe uma grande quantidade de organizações, a começar pela PETA. A melhor forma de encontrá-as, conhecer-lhes os objectivos e contactá-las é através da Internet. Faça uma busca com “animal rights” e vai lá parar num instante. Para começo de conversa, aqui ficam alguns contactos. (dados de 1998)

Liga Portuguesa dos Direitos do Animal: Rua José Costa Mamede na 9,2775 Carcavelos telef: (01) 4581818

Sociedade protectora dos Animais, R. S. Paulo, 55, 2ºDto, Lisboa, telef. (01) 342 3851

União Zoofila: Av. Cidade de Valbom, 82, r/c-E, 1050 Lisboa, telef. (01) 7977480/4198

Ass. Amigos dos animais do Porto: Rua Firmeza 68, 4000 Porto, telef: (02) 5102614

Ass. Agir pelos animais – R. Tenente Campos Rego, 31-22 esq, 3000 Coimbra (e.mail: agir@tgeocities.com)

Associação dos amigos dos animais abandonados, Apartado 135,8136 Almancil Codex Loulé, Telf: 089 395730

Cantinho dos Animais Abandonados de Viseu – R. do Ciclo Preparatório, 164, Póvoa de Abravezes, 3510 Viseu

Grupo Lobo, Dr F Petrucci-Fonseca – Departmento Zoologia Faculdade Ciências, R. Escola Politécnica, 58, 1200 Lisboa, Telf- (01) 875652

Naturanimal, Apartado 40, 2800 Almada

Sociedade portuguesa de Naturologia, R do Alecrim, 38 – 3º, 1200 Lisboa, Telf: (01) 346 3335
Vegan ninja distribution & zine “Vontade de ferro”, Apartado 336, 2725 Mem-Martins

Clube vegetariano de Lisboa, Sakoni – Centro Comercial Mouraria, Loja 230/236, Martim Moniz, 1100 Lisboa, telef (01) 875652 (o telefone é de um restaurante vegetariano que serve de ponto de encontro aos membros do clube)

PETA – Europa (sediada no Reino Unido): telef. (44) 1817853113 fax 7852922

SEGUNDO A LEI

Para além de variados diplomas e decretos-lei, na sua maioria correspondendo à aplicação de diplomas e convenções europeias, que especificam a forma como se devem criar, manter, transportar e abater (“evitando sofrimento, angústia e dor desnecessárias ) os animais utilizados na alimentação, existe em Portugal a Lei 92/95, de 12 de Setembro, da autoria do deputado do PSD António Maria Pereira, que visa a “Protecção dos Animais Não Humanos”.

Aprovada à custa de consideráveis cedências e após um penoso debate parlamentar em que a chalaça e o dichote imperaram, esta lei nunca foi regulamentada e não é apoiada por qualquer regime de sanções, o que significa que não teve até agora qualquer resultado prático.

Visando alterar esta situação, a deputada do PS Rosa Maria Albemaz prepara a apresentação de um projecto-lei que reforça, enfatiza e alarga o âmbito da anterior lei, sendo de salientar, nomeadamente:

* a proibição de utilização de animais para fins didácticos no ensino secundário e universitário, sempre que “os procedimentos envolvidos forem invasivos ou lhes causarem morte, dor ou angústia”;

* a interdição de venda de animais a menores de dezasseis anos, sem autorização dos pais, e a venda, cedência ou doação de animais por parte de Zoos (a não ser que para outro Zoo e com fins de educação e reprodução);

* a proibição da caça a cavalo, da indução de “confrontos mortais de animais uns contra os outros” (salvo na prática da caça), da criação de raposas e outros predadores com intuito de posteriormente os caçar e da organização de corridas de cães com lebres vivas e de provas de tiro com animais vivos.

Propondo a criação de um “Gabinete dos direitos do animal”, visando garantir os objectivos e princípios do diploma em causa, Rosa Maria Albemaz não esquece as sanções, propondo pena de prisão até um ano ou pena de multa até seis meses para quem “matar um vertebrado sem razões justificadas”, ou o submeter a “dor ou sofrimento consideráveis de um modo brutal” ou “de modo persistente e repetitivo”, sendo a pena intensificada (até 18 meses de prisão e até um ano de multe) caso o vertebrado seja “animal de companhia”. O abandono de um animal de companhia implica multa até 12 meses. Em caso de reincidência, Albernaz inclui a possibilidade de duplicação das penas.

A “caça tradicional” é aceite e as touradas, sempre pedra de toque nestas discussões, permanecem intocadas, à excepção do reforço da proibição dos touros de morte e da sorte de varas (inclusão do picador) e da interdição de entrada de menores de catorze anos nesse tipo de espectáculos.

Esta estudada benevolência para com os sectores tradicionalmente mais avessos à problemática dos direitos dos animais não evitou, porém, que estes se manifestassem desde logo contra o projecto-lei, com um documento apresentado aos jornais sob o título “uma veemente chamada de atenção”, em que se imputa aos “extremistas e fundamentalistas urbanos” a tentativa de destruir o “mundo rural”.

Não há duvida de que a coisa promete: resta esperar pelo agendamento da discussão parlamentar.