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No refúgio dos ursos bailarinos

 

Notícias Magazine
21.Out.2007

No refúgio dos ursos bailarinos

 

Na ilha grega de Arkturos há um santuário especial. Um centro de acolhimento onde vivem trinta ursos, resgatados a tristes destinos: refugiados de guerra, confiscados a circos e a ciganos que os passeavam pelas ruas para mostrarem, os seus dotes de dançarinos.

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O centro de informação sobre os Ursos Castanhos, na ilha grega de Arkturos, na Macedónia Ocidental, recebe mais de trinta mil visitantes por ano. O grande objectivo é contribuir para uma maior consciencialização dos problemas ambientais e para a necessidade de preservar os animais selvagens e os seus habitats.

 

Em Arkturos foi criado um centro para recolher os ursos bailarinos (confiscados aos seus donos que lhes queimavam as patas para dar a impressão de dançarem) e outros, como ursos “refugiados de guerra” vindos do zoo de Belgrado, ou um urso preto americano resgatado de um circo. Um staff de profissionais voluntários cuida deles e do seu habitat.

 

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Há mais de 35 milhões de anos que os muito adaptáveis ursos castanhos conseguiam encontrar boas condições de vida em quase todo o continente europeu. Mas calcula-se que só nos últimos dois séculos a distribuição e a população de ursos castanhos tenha decrescido 60 e 50 por cento, respectivamente, conduzindo a uma dramática fragmentação daquela que sempre foi uma zona de habitat para este animais. Actualmente, os ursos castanhos sobrevivem em pequenas populações isoladas no Sudeste Europeu e foram oficialmente considerados uma espécie ameaçada. O contínuo declínio da população de ursos castanhos e a destruição dos seus habitais devem-se sobretudo a factores humanos. Nos últimos anos, a ilha grega de Arkturos tem-se empenhado activamente em salvar esta espécie.

A triste história da «dança»

urso-1.jpgOs ursos castanhos são muito populares na Grécia. Era frequente vê-los passear nas ruas, pelas trelas dos donos, geralmente ciganos, que os faziam dançar ao som dos batuques dos seus tambores. Só que esta «habilidade» tinha por detrás uma triste história: em bebés, os donos queimavam-lhes as patas da frente para que as levantassem e abanassem enquanto tocavam, dando assim a impressão de estarem a dançar. Em jovens e adultos, traumatizados pela experiência, os ursos levantavam e abanavam as patas sempre que ouviam os batuques.
Em 1969, esta prática foi proibida por lei. Mas havia um problema: as autoridades não podiam confiscar os ursos aos donos porque não tinham onde os guardar. E estes animais nunca conseguiriam sobreviver em estado selvagem. Os donos partiam-lhes os dentes para que não os mordessem e estão psicologicamente perturbados pela experiência da vida em cativeiro.

Refugiados de guerra

Em 1992, a ilha de Arkturos fomentou a criação de uma organização não governamental e sem fins lucrativos para proteger os ursos castanhos. A iniciativa rapidamente conseguiu o apoio de fundos privados e da União Europeia. Foi criado o Centro de Informação sobre os Ursos Castanhos e concebido um abrigo para acolher os ursos «bailarinos» e outros, como refugiados do Zoo de Belgrado, evacuado durante a guerra, e um urso preto americano resgatado a um circo. Hoje vivem no centro trinta ursos. Uma equipa de 16 pessoas, coadjuvada por quarenta associados ao projecto e mais quarenta voluntários, tratam dos animais e da preservação do seu habitat. O centro recebe mais de trinta mil visita por ano e desempenha um papel fulcral na consciencialização das pessoas. Porque a sobrevivência destes ou de quaisquer outros animais depende só de uma verdade muito simples: para que a vida no planeta continue, os seres humanos e os animais selvagens têm de saber «coabitar».

 

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Estes ursos seriam incapazes de sobreviver no estado selvagem. Têm os dentes partidos pelos antigos donos (que o faziam para não serem mordidos) e estão perturbados pela sua experiência de vida em cativeiro. Os ursos castanhos existem no continente europeu há milhões de anos. Hoje, são uma espécie ameaçada.

 

Um camelo nas ruas da cidade

Um camelo vai andar hoje nas ruas de S. Domingos de Benfica. Trata-se de uma fêmea de duas bossas cor castanho-acinzentada e de 13 anos de idade. Há oito anos que reside no Zoo de Lisboa, vindo do Zoo de Frankfurt.
Este camelo é muito elegante, pois só pesa 1500 quilos e tem 2,5 metros de altura. Chama-se “Zeide” e vai colaborar no início das sessões de animação cultural e espectáculos promovidos pela Associação de Amizade Internacional “A Criança”.

Jornal de Notícias, 9-3-1980

Digam lá: não me acham elegante com as minhas duas bossas castanho-acinzentadas? Acham que sou vaidosa? Talvez, mas sou senhora do meu focinho. E a propósito, caros primos e primas, vou contar-lhes uma história aborrecida.
Ontem, estava eu muito sossegada, a apanhar sol nas bossas, aqui junto à minha casa no zoo, quando dois homens de aspecto rude chegaram com umas cordas e disseram:
— Anda daí, Zeide, vais hoje dar um belo passeio pelas ruas da cidade.
— Não há como ser animal de jardim zoológico: sem preocupações, comidinha sempre a horas… — acrescentou o outro. — Quem me dera também poder ir passear.
— Isso é que era bom! — retorquiu o primeiro com ar fatigado. — Passa-se a vida a trabalhar. Quase não há tempo para um passeiozito e os transportes, ainda por cima, estão caros. Nem ao domingo, que é dia de consertar alguma coisa estragada lá por casa ou de fazer uns biscates aqui e ali.
Eu estava interessada em tudo menos naquelas lamentações ou em ir passear pela cidade num dia de sol tão bonito como o de ontem. Se ainda fosse para dar uma volta pelas areias quentinhas e macias dos desertos do meu país! Não acham, primos?
Mas não. Meteram-me num camião e lá fui aos solavancos para um lugar aqui perto, a que ouvi chamar S. Domingos de Benfica. Bem fica? Bem é que não fiquei!
Quando chegámos, havia um magote de gente à espera. Alguém puxou pela corda que me tinham amarrado ao pescoço e logo várias pessoas me rodearam, aos saltos e aos berros. Impossíveis, estes humanos! Todos a falar ao mesmo tempo, além de passarem a vida a empurrar-se uns aos outros. O que eu tive de aguentar! Ora ouçam:
Penduraram-me nas bossas uns grandes cartões com uns dize¬res de várias cores, mais umas fitas amarelas e encarnadas. E, para minha grande vergonha, puseram-me uma cartola presa com um elástico e obrigaram-me a ir para o meio da rua, feita macaco ou cavalo de circo — isto não desfazendo aqui no primo macaco e no primo cavalo… Lá fui fazer propaganda a uma associação qualquer, nem sei bem qual. Se ao menos fosse a Sociedade Protectora dos Animais… As crianças batiam palmas e riam à minha passagem.
— Aquele camelo com a cartola parece um palhaço! — gritava uma rapariguinha.
— O camelo é bom companheiro! O camelo é bom companheiro! — cantavam em coro dois miúdos.
— Pessoal, se a professora aqui estivesse, dizia logo, com ar de quem nos está a fazer um favor, que aproveitássemos bem, para depois contarmos tudo por escrito. — Isto proclamava um matulão, sem parar de dar palmadas nos costados dos colegas.
— E então? Aproveita. Pode ser que escrevas a melhor história da turma — comentou outro com ar de gozo.
Assim caminhei duas horas no meio de autocarros, automóveis e motorizadas, a aturar o chinfrim dos humanos, que riam, batiam palmas e me atazanavam os ouvidos. Enquanto isto, um carteirista aproveitava para palmar umas carteiras sem ninguém reparar. O que eu não daria para estar, naquele momento, deitada à sombra de uma palmeira, num oásis do meu país, sem ter de respirar o fumo de gasóleo e gasolina e de aguentar empurrões e barulheira!
Por fim, lá me levaram de volta para o camião, onde os dois homens me esperavam. E assim regressei, maldisposta e com dores de cabeça, a esta areia do zoo.
Fiquei mais exausta do que se tivesse feito uma caminhada de quilómetros pelo deserto — onde, ao menos, o ar é puro. Os fumos da cidade não se aguentam. Estou para entender como os homens conseguem. Antes este espacinho meu, aqui no zoo, entre árvores e palmeiras, do que as ruas irrespiráveis do centro da cidade.
Olhem, ao menos que o matulão tenha aproveitado o episódio para fazer o tal escrito.
Quanto a mim, espero nunca mais ter de lhes contar outra triste aventura como esta.
E agora, primos, vou beber uma aguinha fresca, desentorpecer as pernas e depois estender-me à sombra da minha palmeira favorita. Ainda me não recompus.

João Pedro Mésseder

José António Gomes (org.)
Um Bosque de Palavras
Porto, Porto Editora, 2006

Animais: com que direito lhes negamos direitos?

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

Animais: com que direito lhes negamos direitos?

 

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Isto de ser humano

Sabia que existe uma declaração universal dos direitos dos animais? Sabia que há leis para definir as fórmulas correctas, éticas e “humanas” para criar, transportar e matar vitelos, porcos, galinhas e todos os outros animais usados na alimentação? Sabe distinguir a crueldade “necessária” da “desnecessária”? E o sofrimento “útil” do “inútil”? Já ouviu falar do “bem-estar animal”? Não? Então é provável que não faça a mais pequena ideia do que é o veganismo e que nunca tenha colocado em questão o supremo direito do Homem sobre os outros seres da Terra ou o seu lugar como centro do mundo, rei incontestado de tudo o que existe. É possível que nada o faça desistir de comer carne ou peixe, que ache perfeitamente admissíveis as experiências em animais, que não se incomode com o uso de peles ou com a caça, aplauda as touradas, não pestaneje com o tiro aos pombos, se entusiasme com as lutas de galos, adore levar as crianças ao Zoo e considere as feras o melhor do circo. É possível que encare algumas destas coisas como normais e necessárias e outras não e ache mal misturar tudo. É até possível que determine toda esta conversa como absolutamente ridícula. Em todo o caso, não tem nada a perder: pense nisso.

É difícil escolher por onde começar. Mas podia ser em números. Por exemplo, quantos animais morreram, morrem e morrerão, em média, para que um de nós, carnívoro, omnívoro, apreciador de calçado de pele genuína, cintos de couro, casacos de cabedal e abafos de pêlo, utilizador de cremes, perfumes e desodorizantes, antibióticos, antiesta-mínicos, anti-alérgicos e outras drogas corriqueiras, sujeito a uma ou outra cirurgia, transportado em automóveis, motos e demais veículos, alérgico a ratos, baratas, moscas e outras pragas, viva a sua vida normal? Milhões? Biliões? Triliões?

Entre vacas, ovelhas, cabras, porcos, galinhas, patos, perus, coelhos, perdizes, lebres, javalis, veados, peixes de todas as descrições, moluscos de variados calibres, crustáceos, crocodilos, avestruzes e tudo o que ocorra degustar, incluindo, se calhar em viagem ou em proveniência, macacos, cobras, cães, gatos, antílopes, tartarugas, golfinhos, gafanhotos, toupeiras e o que mais se use comer por esse mundo fora, uma hecatombe.

Só nos Estados Unidos, em cada ano, são 100 milhões de mamíferos e cinco biliões de aves. No mesmo espaço de tempo, a Grã-Bretanha consome 850 milhões de animais. Em média, um milhão e meio por pessoa.

Um oceano de cadáveres a perder de vista, esfaqueados, decapitados, electrocutados, asfixiados, baleados, armadilhados, arpoados, esmagados, espancados, sangrados, cozinhados vivos. Em agonia óbvia ou incerta, rápida ou lenta, necessária ou desnecessária. Quase sempre secreta, invisível na assepsia das prateleiras do supermercado, indeterminável no prato, mastigada com deleite, digerida com negligência. Quem é que já somou as vidas todas que vale, as vidas de que é feito? Quem é que já mediu as agonias, as dores, os sacrifícios que reclama? Quem é que vive com isso? E, deve também perguntar-se, quem é que pode viver sem isso?

É muito diferente quando se vê. Talvez, com o tempo, o hábito apague a náusea das imagens e dos sons e dos cheiros. É possível acreditar que é esta distância entre a vida nas cidades, longe dos ritmos essenciais do nascimento, do crescimento e da morte, longe do que se apelida de natural, que impede a convivência descontraída com o sangue e a carne e os ossos, com aquilo que se chama a inevitabilidade das coisas.

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Marcar animais com um ferro em brasa configura um sofrimento útil ou inútil?

Mas essa ligação tão óbvia entre o lombo, a costeleta e o bife e a carnificina industrial que estremece os matadouros, essa relação de causa e efeito que conduz dos estábulos e das pocilgas e dos aviários estes cortejos de animais comprimidos em gaiolas, em camionetas e vagões, quilómetros de animais em quilómetros de estrada, o espaço útil preenchido ao limite, a utilidade como critério, o sacrifício como razão, essa imanente verdade é um prodígio de negação. É um suave milagre que a consciência dos homens os salve daquilo que não vêem e apenas sabem e mais milagre é ainda que os salve daquilo que vêem e ouvem e cheiram. E fazem, claro. Nos matadouros como nas criações, nas produções de leite como de ovos, nos laboratórios como nos biotérios.

Um passeio, chamemos-lhe assim, pelos arquivos audiovisuais das organizações que pugnam pelos direitos dos animais revela-se um desafio à infinita capacidade de obliteração da memória.

A começar, por exemplo, pelo espectáculo das descargas de gado nos centros de abate, efectuado à paulada, ao pontapé, com guindastes (usados para descarregar vacas vivas, suspensas por uma pata, de um navio para o cais), passando pelas pecuárias intensivas onde cada animal é imobilizado num espaço ínfimo, sem luz do dia, manjedoura à frente, entregue à tarefa única de engordar o mais depressa possível para dar lugar a outro.

Pelas produções de leite onde as vacas são mantidas em maternidade constante, retirando-se-lhes os vitelos mal nascem, úberes ulcerados, deformados, o tempo de vida estreitado na margem dos quatro anos mais lucrativos, despachadas para o matadouro mal o fluxo enfraquece; percorrendo as fábricas de ovos onde as poedeiras, às quatro dentro de uma estreita gaiola, se esgotam na vertigem de verter claras e gemas em sequência contínua, o espeto e o fricassé como recompensa final.

Atravessando os longos corredores dos pomposamente denominados biotérios onde em milhares de pequenas gaiolas, sob luzes fluorescentes, em ambiente rigorosamente asséptico, se criam os hamsteres e os ratos e os coelhos e os gatos e os macacos que nos laboratórios desenvolvem todas as doenças, experimentam todos os vírus, bactérias e vacinas, pomadas, gotas, comprimidos, cremes de beleza, desodorizantes, perfumes.

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Quanto tempo leva um champô a destruir o globo ocular? Estes coelhos vão descobrir.

Segue: Animais: com que direito lhes negamos direitos? – cont.

E não há leis? – cont.

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos)
Texto de Fernanda Câncio

Anterior: E não há leis?

Pois é normal e até desejável que, na mesma altura em que se discute com cada vez mais virulência a questão dos direitos da vida intra-uterina e do ovo e da concepção e por aí fora, se polemize também em matéria de direitos animais. Um embrião humano com doze semanas terá mais sensibilidade e consciência e capacidade de sofrer que uma vaca? E, caso seja por aí, não são ambos criaturas de Deus?

Há no entanto poucas coisas que suscitem tanto ridículo e irritação como esta história dos direitos dos animais. É usual argumentar-se que enquanto houver crianças a sofrer, homens e mulheres privados dos mais ínfimos direitos, a morrer à fome, etc, etc, não se pode falar em defesa dos animais. Uma estranha lógica que levaria os nossos antepassados abolicionistas a calarem-se para sempre perante a consciência de que também, entre os membros da raça considerada superior, se poderiam indiciar casos de sofrimento, exploração e discriminação, e induziria as mulheres em luta pela igualdade a meterem a viola no saco à menção da existência de homens escravizados, discriminados, explorados e privados da “auto-determinação”. Considerar mutuamente exclusiva a demanda de direitos só colherá quando esses direitos colidam de algum modo. Pois não é o caso: em que é que defender os direitos dos animais pode contender com a defesa dos direitos dos homens? Ou, melhor ainda, como é que suportar, compreender e achar normal o maltratar de animais pode beneficiar a causa da dignidade humana?

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Primata bebé de olhos cosidos numa experiência qualquer: legal, justificado e útil?

Depois das crianças, das mulheres e de todos os indivíduos de raças que não a branca, era inevitável que chegasse a vez dos animais. Não que as outras discussões estejam encerradas, longe disso. Por definição, estas discussões nunca se encerram. Aliás, é instrutivo recordar que no Ocidente o primado inquestionável (?) dos direitos humanos não tem nem cem anos.

Foi neste século, após centenárias discussões sobre a existência, fiabilidade e solidez da “alma” feminina, que as mulheres ocidentais, por exemplo, conquistaram o direito de voto, a autonomia da personalidade jurídica dentro do casamento e o direito de decidir sobre a sua vida sexual e reprodutiva (quer dizer…). Mas é neste século, mais exactamente no seu final, que as afegãs são fechadas em casa, impedidas de ir à rua sem a companhia de um homem, interditas de estudar, ler, ouvir música, de decidir seja o que for por si próprias.
Foi neste século que os maus-tratos infligidos às crianças pelos detentores do poder paternal se configuraram como crime e foi apenas no século passado que a maioria das nações ocidentais aboliu a escravatura. Para se constatar agora, aqui, que talvez nunca tenha sido tão extensa a multidão de seres humanos, crianças e adultos, forçados a trabalhar sem regras nem horário por um salário de miséria.

Foi este o século que instituiu o tráfico de órgãos humanos como um negócio altamente rentável e é neste século que a manipulação genética e a clonagem se perfilam como as mais milagrosas das descobertas científicas, capazes de obviar as insuficiências da Natureza, de compatibilizar o coração de um porco com o corpo humano, de multiplicar ao infinito cada indivíduo e abolir todas as fronteiras bioquímicas.

Foi neste século que as Nações Unidas declararam o genocídio como o mais abominável dos crimes contra a Humanidade, mas foi este século que encenou o mais sistemático e voluntarioso genocídio de que há memória. Contam-se exactamente cinquenta e três anos desde que milhões de pessoas foram espoliadas de tudo o que lhes pertencia, enfiadas aos magotes em vagões de mercadorias, transportadas durante semanas, através de milhares de quilómetros, sem água, luz, comida, ou higiene de qualquer espécie, para um destino onde a subalimentação, o trabalho escravo, a sujeição a incontáveis torturas com fins recreativos ou alegadamente científicos, e a ameaça permanente da morte só se suspendiam com o decreto do fim da sua utilidade enquanto seres vivos.

Do ilimitado pragmatismo da empresa atesta a existência de artefactos de pele humana (de preferência tatuada, para um efeito mais artístico) como luvas e abat-jours, o registo das várias manipulações e experiências – nomeadamente filmes e fotografias da autoria dos metódicos algozes – com incontáveis corpos desmembrados e o aproveitamento da carne dos mesmos para a alimentação. Isso mesmo explicava um normalíssimo octogenário de barba branca num documentário recente passado na televisão portuguesa: quando faltava a carne nos campos de concentração “era necessário” ir buscá-la aos cadáveres que esperavam, à boca dos fornos crematórios, a solução final. “Não me pareceu eticamente reprovável fazê-lo”, afirmava ele. Acredita-se.

Segue: Acção directa

Acção directa

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

Anterior: E não há leis? – cont.

ACÇÃO DIRECTA

A maioria das associações portuguesas ligadas aos direitos dos animais lida sobretudo com cães e gatos. As poucas excepções não têm um papel particularmente activo, mas são o que há. A nível internacional existe uma grande quantidade de organizações, a começar pela PETA. A melhor forma de encontrá-as, conhecer-lhes os objectivos e contactá-las é através da Internet. Faça uma busca com “animal rights” e vai lá parar num instante. Para começo de conversa, aqui ficam alguns contactos. (dados de 1998)

Liga Portuguesa dos Direitos do Animal: Rua José Costa Mamede na 9,2775 Carcavelos telef: (01) 4581818

Sociedade protectora dos Animais, R. S. Paulo, 55, 2ºDto, Lisboa, telef. (01) 342 3851

União Zoofila: Av. Cidade de Valbom, 82, r/c-E, 1050 Lisboa, telef. (01) 7977480/4198

Ass. Amigos dos animais do Porto: Rua Firmeza 68, 4000 Porto, telef: (02) 5102614

Ass. Agir pelos animais – R. Tenente Campos Rego, 31-22 esq, 3000 Coimbra (e.mail: agir@tgeocities.com)

Associação dos amigos dos animais abandonados, Apartado 135,8136 Almancil Codex Loulé, Telf: 089 395730

Cantinho dos Animais Abandonados de Viseu – R. do Ciclo Preparatório, 164, Póvoa de Abravezes, 3510 Viseu

Grupo Lobo, Dr F Petrucci-Fonseca – Departmento Zoologia Faculdade Ciências, R. Escola Politécnica, 58, 1200 Lisboa, Telf- (01) 875652

Naturanimal, Apartado 40, 2800 Almada

Sociedade portuguesa de Naturologia, R do Alecrim, 38 – 3º, 1200 Lisboa, Telf: (01) 346 3335
Vegan ninja distribution & zine “Vontade de ferro”, Apartado 336, 2725 Mem-Martins

Clube vegetariano de Lisboa, Sakoni – Centro Comercial Mouraria, Loja 230/236, Martim Moniz, 1100 Lisboa, telef (01) 875652 (o telefone é de um restaurante vegetariano que serve de ponto de encontro aos membros do clube)

PETA – Europa (sediada no Reino Unido): telef. (44) 1817853113 fax 7852922

SEGUNDO A LEI

Para além de variados diplomas e decretos-lei, na sua maioria correspondendo à aplicação de diplomas e convenções europeias, que especificam a forma como se devem criar, manter, transportar e abater (“evitando sofrimento, angústia e dor desnecessárias ) os animais utilizados na alimentação, existe em Portugal a Lei 92/95, de 12 de Setembro, da autoria do deputado do PSD António Maria Pereira, que visa a “Protecção dos Animais Não Humanos”.

Aprovada à custa de consideráveis cedências e após um penoso debate parlamentar em que a chalaça e o dichote imperaram, esta lei nunca foi regulamentada e não é apoiada por qualquer regime de sanções, o que significa que não teve até agora qualquer resultado prático.

Visando alterar esta situação, a deputada do PS Rosa Maria Albemaz prepara a apresentação de um projecto-lei que reforça, enfatiza e alarga o âmbito da anterior lei, sendo de salientar, nomeadamente:

* a proibição de utilização de animais para fins didácticos no ensino secundário e universitário, sempre que “os procedimentos envolvidos forem invasivos ou lhes causarem morte, dor ou angústia”;

* a interdição de venda de animais a menores de dezasseis anos, sem autorização dos pais, e a venda, cedência ou doação de animais por parte de Zoos (a não ser que para outro Zoo e com fins de educação e reprodução);

* a proibição da caça a cavalo, da indução de “confrontos mortais de animais uns contra os outros” (salvo na prática da caça), da criação de raposas e outros predadores com intuito de posteriormente os caçar e da organização de corridas de cães com lebres vivas e de provas de tiro com animais vivos.

Propondo a criação de um “Gabinete dos direitos do animal”, visando garantir os objectivos e princípios do diploma em causa, Rosa Maria Albemaz não esquece as sanções, propondo pena de prisão até um ano ou pena de multa até seis meses para quem “matar um vertebrado sem razões justificadas”, ou o submeter a “dor ou sofrimento consideráveis de um modo brutal” ou “de modo persistente e repetitivo”, sendo a pena intensificada (até 18 meses de prisão e até um ano de multe) caso o vertebrado seja “animal de companhia”. O abandono de um animal de companhia implica multa até 12 meses. Em caso de reincidência, Albernaz inclui a possibilidade de duplicação das penas.

A “caça tradicional” é aceite e as touradas, sempre pedra de toque nestas discussões, permanecem intocadas, à excepção do reforço da proibição dos touros de morte e da sorte de varas (inclusão do picador) e da interdição de entrada de menores de catorze anos nesse tipo de espectáculos.

Esta estudada benevolência para com os sectores tradicionalmente mais avessos à problemática dos direitos dos animais não evitou, porém, que estes se manifestassem desde logo contra o projecto-lei, com um documento apresentado aos jornais sob o título “uma veemente chamada de atenção”, em que se imputa aos “extremistas e fundamentalistas urbanos” a tentativa de destruir o “mundo rural”.

Não há duvida de que a coisa promete: resta esperar pelo agendamento da discussão parlamentar.

Matar por luxo

Micheal Bright
Natureza em perigo – Matar por luxo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

Introdução

O Homem sempre matou animais. Tradicionalmente, matava por necessidade alimentar e de vestuário, mas o esqueleto do animal também proporcionava utensílios domésticos, joalharia e outros ornamentos. Nada era desperdiçado. Hoje em dia, vários milhões de animais são mortos, todos os anos, não para fornecer a comida necessária à sobrevivência, mas para abastecer o lucrativo mercado do luxo. Alguns animais são abatidos para serem usados em símbolos de uma posição social abastada ou para favorecer uma imagem de virilidade; mas que preço pagam os animais, para satisfazer esta vaidade humana? Alguns animais são retirados do seu habitat e criados em cativeiro, exclusivamente por causa da sua pele, do seu pêlo ou do aroma que produzem. Será uma maneira aceitável de obter um produto animal? Em certos casos, é o próprio acto de matar que se torna um luxo.

Muitos dos animais comerciados no mercado dos artigos de luxo foram de tal modo reduzidos em número que estão ameaçados de extinção. Manifestamente, têm de ser protegidos. Mas, por vezes, surge um dilema: quem deverá ter prioridade? Os povos nativos que precisam de matar para sobreviver, ou as espécies raras? Para controlar o comércio mundial de produtos animais, foi assinada em Washington, em 1973, a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies de Fauna e Flora Ameaçadas. Todavia, apesar disso, muitas espécies são abatidas e comerciadas ilegalmente. Algumas, tais como elefantes e rinocerontes, correm perigo de desaparecer totalmente. A marta marinha, caçada por causa da pele, extinguiu-se. Quantas mais espécies desaparecerão antes de nos convencermos de que a matança tem de parar?


Durante as primeiras seis semanas de vida, a cria da foca-da-Gronelândia apresenta uma pelagem extremamente apreciada. Todos os anos, dezenas de milhares de crias eram espancadas até à morte por caçadores comerciais da Terra Nova e da Noruega. Em 1968, uma manifestação pública de repúdio conduziu, eventualmente, à proibição de importação de peles de foca, por parte dos países da CEE. Essa proibição praticamente eliminou o mercado.


Os Esquimós (Inuit) também matam focas por causa da pele. Parte da sua subsistência depende dessa caça tradicional. Porém, como a caça é considerada cruel, têm sido feitos apelos para que lhe seja posto fim.


A caça às peles

Por trás da fachada elegante da indústria de peles, que movimenta rios de dinheiro, está a triste realidade da matança. Todos os anos, milhões de animais, apanhados em armadilhas, sofrem uma morte lenta e dolorosa. Ficam presos pelas patas, pescoço ou tronco, em armadilhas de metal ou nós corredios. Os animais permanecem na ratoeira cerca de 15 horas, antes de serem estrangulados ou mortos à paulada. Um lince-do-Alasca esteve com a pata presa numa armadilha durante seis semanas. Conseguiu manter-se vivo tanto tempo porque outros animais do seu grupo familiar lhe levavam comida. As armadilhas são cegas. Muitos outros animais, tais como águias, corujas, cisnes e animais domésticos, são apanhados, mortos e rejeitados. Na gíria do comércio, estes animais são “lixo”.

Nas terras confinantes com o Árctico, as pessoas dependem da caça às peles como meio de subsistência. Muitas temem que uma proibição do uso de armadilhas possa afectar gravemente os índios canadianos isolados e as comunidades Inuit desta área. Outras acham que a utilização de armadilhas se justifica porque mantém sob controlo a população de animais produtores de peles.

Alguns países condenam o uso de armadilhas e, contudo, importam peles. Por exemplo, dos milhões de peles importadas pela Grã-Bretanha todos os anos, muitas delas são de animais selvagens apanhados por armadilhas de guindaste, mecanismos que foram banidos na Grã-Bretanha, em 1965, depois de um relatório do governo as ter descrito como “instrumentos diabólicos que causam um sofrimento incalculável”.

A moda das peles

Nos Estados Unidos, apesar das campanhas contra a caça às peles, o comércio retalhista triplicou durante a última década, envolvendo dois biliões de dólares. A moda masculina é responsável por grande percentagem desse aumento. Cada vez mais pessoas têm possibilidades de comprar peles verdadeiras e caras e não têm problemas morais em fazê-lo.

A armadilha mais utilizada nos E.U.A. é o guindaste para aprisionar os animais pelas patas. As mandíbulas de metal soltam-se e cerram-se quando o animal pisa o mecanismo de disparo. É como se a porta de um carro se fechasse sobre a nossa mão. Frequentemente, a carne da pata do animal é cortada e o osso partido. Às vezes, o animal, rói a própria pata, numa tentativa para se libertar.


Milhares de raposas são mortas, em toda a Europa. Muitas são apanhadas em armadilhas e envenenadas ilegalmente pelos chamados “bicheiros”. Por engano, são apanhados muitos texugos, que são animais protegidos.


Criação de animais de pêlo

A maioria das peles não provém de animais selvagens, mas sim de “fazendas” de criação de peles onde grandes quantidades de animais, como a marta, a zibelinha e a raposa, são criadas em pequenas jaulas. A criação de animais de pêlo é um grande negócio. Na Finlândia, por exemplo, existem 6.500 “fazendas” destas. As maiores produzem mais de 46.000 peles de raposa e 500.000 de marta, anualmente.

Na última década, a produção quadruplicou, apesar das pressões exercidas pelos apoiantes das campanhas contra o uso de peles. O facto é que, na maior parte do mundo, um verdadeiro casaco de peles ainda é considerado um símbolo de posição social. No Texas, vêem-se pessoas a usar peles caríssimas, mesmo em dias quentes de Verão. Nas regiões do Norte, contudo, as peles ainda são consideradas a melhor protecção contra o frio.

Os criadores de animais de pêlo acham que a sua actividade constitui o aspecto aceitável da indústria de peles. Advogam que os seus animais gozam de excelente saúde e vivem em boas condições. Se assim não fosse — dizem — as peles adquiririam mau aspecto e perderiam valor.

Os animais são mantidos em jaulas pequenas com fundo de arame e não lhes é permitido saírem delas, pois os criadores temem que os animais sujem ou danifiquem as peles, caso os deixassem à solta. Não obstante, as peles acabam por ser danificadas devido a lutas, contaminação pela urina ou má nutrição, o que origina enormes perdas financeiras para as “fazendas”. Nem sequer os animais confinados a jaulas permanecem intactos. As martas são agressivas e mordem-se umas às outras. Por vezes, são vítimas de canibalismo.


Nunca consegui realmente entender a ideia de que vestir a pele de um animal morto seja atraente. Não tenho absolutamente vontade nenhuma de usar peles e nunca possuí alguma. Gostaria sempre mais de ver a pele no próprio animal.


Marie Helvin, Modelo


Por exemplo, as marta das “fazenda” são mortas por gaseamento, injecções letais ou electrocussão. Afirma-se que a morte é imediata, mas isso não foi ainda provado.


A Vicunhas são uma espécie de lama e encontram-se no Chile e no Peru. Em tempos eram abundantes, mas o seu número foi consideravelmente reduzido depois de os invasores espanhóis as terem começado a matar por causa da sua lã, extremamente apreciada. Os Incas (o povo que habitava o Peru, antes da chegada dos Espanhóis) tosquiavam as vicunhas sem as matar. Actualmente, a caça e abate de vicunhas para extracção de lã está proibida. Pelo contrário, as manadas são levadas para ranchos protegidos, nas montanhas.


Na linha de fogo

Muitos dos grandes predadores da natureza transformaram-se em vítimas. Os caçadores furtivos abatem a tiro, capturam com armadilhas e envenenam alguns dos animais mais raros do mundo, apenas para fornecer casacos de peles exclusivos para o mercado do luxo. As peles dos felinos malhados, por exemplo, atingem altos preços e isso encoraja a caça ilegal. Por vezes, o comércio legal ainda piora as coisas. É permitida a venda de peles de espécies protegidas, declaradas antes da introdução de restrições. Este comércio legal muitas vezes esconde a caça furtiva e transacções ilegais. Por exemplo, vários felinos malhados da Índia, tais como o leopardo das neves — “Uncia uncia”, são ilegalmente abatidos por membros de tribos nómadas. Os animais são abatidos nos Himalaias e as suas peles são contrabandeadas em Kashmir, ou vendidas com peles legalmente adquiridas. Posteriormente são traficadas na Europa e no Japão.

Noutras partes do mundo, os ursos polares, lobos, cangurus, tigres, focas e zebras, perdem as suas peles em favor dos caçadores. Até as peles do extremamente raro panda gigante, o próprio símbolo da conservação, têm sido descobertas no comércio ilegal que se efectua desde a China até Taiwan.

Todos os anos, os mercados legais de peles da Europa transaccionam 700.000 peles de animais selvagens, sendo dois terços constituídos por peles de pequenos felinos malhados. O mercado ilegal poderá ter dimensões maiores. Os comerciantes descobriram mil e uma maneiras de dissimular a fonte e o destino das peles ilegais, canalizando-as para terceiros países onde lhes são facultados documentos de comércio internacional legalizado. Este processo é chamado “lavagem”.

Outros modos de enganar o sistema incluem declarações falsas dos nomes das espécies, do país de origem e do fim a que se destina a importação. Há alguns anos, um grande carregamento de peles de chita foi interceptado no aeroporto Kai Tak, de Hong Kong, num voo vindo da Suíça. A remessa estava etiquetada como “marca italiana”.

Já não comemos os miolos de outras pessoas para adquirir sabedoria; seremos ainda tão primitivos que tenhamos de usar peles de animais para alcançar a beleza?

Joanna Lumley, actriz e escritora

A chita é ainda é um alvo da caça ilegal. Restam cerca de 25.000; contudo, todos os anos são comerciadas 5.000 peles.

Muitos dos felinos malhados estão inteiramente protegidos, o que não impede que casacos sejam feitos com as suas peles. Estão à venda peles de leopardo da África e da China, de pantera nebulosa da Ásia, de ocelote, jaguar, gato marsupial e margaí da América do Sul. Todas elas se podem encontrar nas lojas elegantes de Munique e Tóquio. Um ano após a proibição de peles de felinos malhados do Paraguai para a Alemanha Ocidental, foram transaccionadas 95.000 peles.

PERFIL…

Os grandes felinos

Os grandes felinos (leão, tigre, leopardo, jaguar, leopardo das neves, pantera nebulosa e chita) e os pequenos felinos (lince, gato-selvagem, puma, ocelote e várias espécies, tais como o serval e o caracal) são todos carnívoros. São predadores famosos, no topo das suas cadeias alimentares, e quase só o homem é que os abate. Contudo, a matança em larga escala de tigres e ocelotes e o comércio das suas peles malhadas quase os levaram à extinção. Como resultado disso, o tigre tornou-se uma espécie protegida, em 1972. Desde então, o seu número voltou a aumentar.

O leopardo

Os leopardos machos podem atingir 1,90 m de comprimento, têm uma cauda de 1 m e pesam cerca de 90 kg. As fêmeas atingem cerca de metade do tamanho. Vivem cerca de 12 anos em liberdade e até 20 anos em cativeiro.

O leopardo espalha-se pelo Sul da Ásia e em África, o que o torna no membro mais vastamente distribuído da família dos Felídeos. Os leopardos caçam durante a noite, atacando a presa de emboscada ou seguindo-a silenciosamente, de muito perto. A presa é levada para uma árvore, onde fica fora do alcance de leões e hienas.

A cor e o padrão da pele dos leopardos varia conforme o habitat. A base da cor de fundo é o castanho, o cinzento ou o amarelo-dourado, com círculos mais escuros ou laçadas.

O lince

O lince adulto pode atingir mais de 1 m e pesar cerca de 38 kg. Vivem 12 a 15 anos. Os gatos-selvagens da América do Norte diferem do lince por terem malhas escuras, patas nuas e não possuírem tufos de pêlos nas orelhas.

A cor castanho-acinzentada do lince permite-lhe confundir-se com a cor de fundo de uma densa floresta de coníferas.

Vive nas latitudes setentrionais da Escandinávia, no Norte da Ásia e na América do Norte. Com as patas compridas, consegue caminhar na neve alta. As patas são protegidas por pele espessa. Possui tufos de pêlos nas orelhas.

O leopardo das neves

O leopardo das neves vive nas montanhas do Sul da Ásia. Tem pêlo espesso e comprido. Sabe-se pouco sobre os seus hábitos. É noctívago, solitário e tímido.

Os exemplares grandes atingem 1,30 m de comprimento e a cauda mede 1 m. Pesa cerca de 75 kg. Vivem cerca de 15 anos em cativeiro. Também é conhecido por pantera da montanha.

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Despojados da pele

Micheal Bright
Natureza em perigo – Matar por luxo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

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Despojados da pele

As vacas e os porcos não são os únicos animais utilizados para fornecer couro. As cobras, crocodilos, cangurus, caimões, lagartos e tubarões são chacinados e as suas peles são transformadas em vestuário e calçado de moda. Parte desse comércio é ilegal; mas grande parte dele não o é. Em 1986, El Salvador exportou 134.000 peles de caimão, apesar de ter uma população de caimões de apenas 10.000 animais. As peles “extra” foram de países onde existem restrições ao comércio, tais como o Panamá e a Colômbia.

O abate de caimões tornou-se semelhante a uma operação militar. Helicópteros-canhoneiras sobrevoam lagos e rios remotos, à noite. Holofotes localizam os animais, que são atingidos entre os olhos para não marcar as peles. No dia seguinte, os corpos são recolhidos. Estas actividades são ilegais, mas, infelizmente, os caçadores furtivos estão mais bem organizados do que os serviços de fiscalização do governo.

Um problema que surge com a tentativa de restringir o comércio de peles de répteis é que os países consumidores pactuam para ignorar os controlos internacionais. Os principais importadores de peles de répteis (França, Japão, Itália e Alemanha Ocidental) recebem milhões de peles, por ano, principalmente oriundas da Ásia e da América do Sul.

Alguns países iniciaram a criação de crocodilos, para satisfazer a procura de artigos de couro de crocodilo. Porém, os conservacionistas argumentam que o comércio encoraja o abate ilegal de animais selvagens. Quando se trata de fiscalizar o comércio, como é que as autoridades alfandegárias distinguem uma pele de animal criado em cativeiro da pele de um animal ilegalmente caçado sabe-se lá onde? A solução dada pela Nova Guiné é a etiquetagem das peles “de cultivo”.

Os tubarões fornecem o couro mais resistente que se conhece. Muitos são apanhados por pescadores mexicanos que enviam as peles secas para os Estados Unidos, para serem curtidas. No passado, o couro era usado por fabricantes de mobiliário para esfregar a madeira, e pelos esgrimistas no punho das espadas, para que as mãos não escorregassem com o sangue. Hoje utiliza-se para fabricar sapatos de qualidade e botas de vaqueiro. O comércio não tem restrições e ainda existem muitos tubarões no mar. A pesca intensiva poderia dizimar toda uma estirpe.

É moralmente inaceitável o abate deliberado de qualquer criatura viva — do crustáceo ao elefante — não sendo motivado pela fome, frio ou necessidades de saúde, mas tão-somente pelo luxo.

Richard Adams, autor de “Watership Down”

A pele de varano-malaio é passada clandestinamente do Bangladesh, Indonésia e Paquistão para o Japão. As peles de cobra também são populares, embora o padrão distinto da pitão seja facilmente descoberto pelos funcionários das alfândegas. Numa encomenda de 400 latas de caju, destinada a Singapura e originária da Índia, apenas 140 latas continham caju. As restantes continham peles de cobras, no valor de um milhão e seiscentos mil dólares.

PERFIL…

Crocodilos

Os crocodilos, aligátores, caimões e gaviais passaram pelas grandes extinções que fizeram desaparecer os dinossauros, há cerca de 65 milhões de anos. Sobreviveram, praticamente inalterados. Todavia, em apenas 100 anos, o homem quase conseguiu dizimá-los. Os crocodílidas possuem cérebros grandes. Além de mostrarem um comportamento instintivo, também são capazes de aprender. São predadores aquáticos bem adaptados, com os olhos e as narinas colocados no cimo da cabeça, o que lhes possibilita ver e respirar à superfície, com o corpo submerso.

O caimão-de-lunetas

O caimão sul-americano pode atinge mais de dois metros, desde o focinho até à extremidade da cauda. Vive nas bacias hidrográficas do Amazonas e do Orenoco. Cresce cerca de 30 cm por ano e pode viver de 75 a 100 anos, se o homem deixar.

O caimão-de-lunetas é assim denominado por causa da saliência córnea que une as órbitas oculares e que se assemelha à trave de um par de óculos. Um caimão adulto alimenta-se de gigantescos caracóis aquáticos, piranhas e qualquer outro animal que lhe surja no caminho. O caimão passa o dia escondido nos juncais ou estendido ao sol, nas margens dos rios. À noite, caça. Os exploradores contam os caimões, à noite, com uma lanterna, localizando os reflexos dos olhos do animal. Dos dois milhões de peles de crocodilos legalmente comerciadas todos os anos, três quartos são de caimão-de-lunetas. Outro milhão de peles sai ilegalmente do Paraguai, Bolívia e Brasil. A maior parte das peles é enviada para Itália, onde são transformadas em bolsas e carteiras dispendiosas.

O crocodilo-do-Nilo

Atinge cerca de 6,5 m de comprimento e pesa cerca de 1080 kg. Em liberdade, vive mais de 50 anos. Sabe-se de crocodilos que vivem mais de 100 anos. Os crocodilos-do-Nilo são responsáveis por muitas mortes.

O crocodilo-do-Nilo vive nas margens dos rios, em toda a parte de África. A fêmea do crocodilo enterra os ovos na areia e vigia o ninho enquanto os ovos incubam. Os crocodilos-bebés saem do ovo e apelam para a mãe, para os desenterrar. Depois, ela transporta-os, na boca, para a água. Durante os primeiros três meses, vivem em “infantários” em águas estagnadas. Se ameaçados, a mãe solta um grunhido e, todos ao mesmo tempo, mergulham na água.

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