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No refúgio dos ursos bailarinos

 

Notícias Magazine
21.Out.2007

No refúgio dos ursos bailarinos

 

Na ilha grega de Arkturos há um santuário especial. Um centro de acolhimento onde vivem trinta ursos, resgatados a tristes destinos: refugiados de guerra, confiscados a circos e a ciganos que os passeavam pelas ruas para mostrarem, os seus dotes de dançarinos.

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O centro de informação sobre os Ursos Castanhos, na ilha grega de Arkturos, na Macedónia Ocidental, recebe mais de trinta mil visitantes por ano. O grande objectivo é contribuir para uma maior consciencialização dos problemas ambientais e para a necessidade de preservar os animais selvagens e os seus habitats.

 

Em Arkturos foi criado um centro para recolher os ursos bailarinos (confiscados aos seus donos que lhes queimavam as patas para dar a impressão de dançarem) e outros, como ursos “refugiados de guerra” vindos do zoo de Belgrado, ou um urso preto americano resgatado de um circo. Um staff de profissionais voluntários cuida deles e do seu habitat.

 

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Há mais de 35 milhões de anos que os muito adaptáveis ursos castanhos conseguiam encontrar boas condições de vida em quase todo o continente europeu. Mas calcula-se que só nos últimos dois séculos a distribuição e a população de ursos castanhos tenha decrescido 60 e 50 por cento, respectivamente, conduzindo a uma dramática fragmentação daquela que sempre foi uma zona de habitat para este animais. Actualmente, os ursos castanhos sobrevivem em pequenas populações isoladas no Sudeste Europeu e foram oficialmente considerados uma espécie ameaçada. O contínuo declínio da população de ursos castanhos e a destruição dos seus habitais devem-se sobretudo a factores humanos. Nos últimos anos, a ilha grega de Arkturos tem-se empenhado activamente em salvar esta espécie.

A triste história da «dança»

urso-1.jpgOs ursos castanhos são muito populares na Grécia. Era frequente vê-los passear nas ruas, pelas trelas dos donos, geralmente ciganos, que os faziam dançar ao som dos batuques dos seus tambores. Só que esta «habilidade» tinha por detrás uma triste história: em bebés, os donos queimavam-lhes as patas da frente para que as levantassem e abanassem enquanto tocavam, dando assim a impressão de estarem a dançar. Em jovens e adultos, traumatizados pela experiência, os ursos levantavam e abanavam as patas sempre que ouviam os batuques.
Em 1969, esta prática foi proibida por lei. Mas havia um problema: as autoridades não podiam confiscar os ursos aos donos porque não tinham onde os guardar. E estes animais nunca conseguiriam sobreviver em estado selvagem. Os donos partiam-lhes os dentes para que não os mordessem e estão psicologicamente perturbados pela experiência da vida em cativeiro.

Refugiados de guerra

Em 1992, a ilha de Arkturos fomentou a criação de uma organização não governamental e sem fins lucrativos para proteger os ursos castanhos. A iniciativa rapidamente conseguiu o apoio de fundos privados e da União Europeia. Foi criado o Centro de Informação sobre os Ursos Castanhos e concebido um abrigo para acolher os ursos «bailarinos» e outros, como refugiados do Zoo de Belgrado, evacuado durante a guerra, e um urso preto americano resgatado a um circo. Hoje vivem no centro trinta ursos. Uma equipa de 16 pessoas, coadjuvada por quarenta associados ao projecto e mais quarenta voluntários, tratam dos animais e da preservação do seu habitat. O centro recebe mais de trinta mil visita por ano e desempenha um papel fulcral na consciencialização das pessoas. Porque a sobrevivência destes ou de quaisquer outros animais depende só de uma verdade muito simples: para que a vida no planeta continue, os seres humanos e os animais selvagens têm de saber «coabitar».

 

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Estes ursos seriam incapazes de sobreviver no estado selvagem. Têm os dentes partidos pelos antigos donos (que o faziam para não serem mordidos) e estão perturbados pela sua experiência de vida em cativeiro. Os ursos castanhos existem no continente europeu há milhões de anos. Hoje, são uma espécie ameaçada.

 

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Um camelo nas ruas da cidade

Um camelo vai andar hoje nas ruas de S. Domingos de Benfica. Trata-se de uma fêmea de duas bossas cor castanho-acinzentada e de 13 anos de idade. Há oito anos que reside no Zoo de Lisboa, vindo do Zoo de Frankfurt.
Este camelo é muito elegante, pois só pesa 1500 quilos e tem 2,5 metros de altura. Chama-se “Zeide” e vai colaborar no início das sessões de animação cultural e espectáculos promovidos pela Associação de Amizade Internacional “A Criança”.

Jornal de Notícias, 9-3-1980

Digam lá: não me acham elegante com as minhas duas bossas castanho-acinzentadas? Acham que sou vaidosa? Talvez, mas sou senhora do meu focinho. E a propósito, caros primos e primas, vou contar-lhes uma história aborrecida.
Ontem, estava eu muito sossegada, a apanhar sol nas bossas, aqui junto à minha casa no zoo, quando dois homens de aspecto rude chegaram com umas cordas e disseram:
— Anda daí, Zeide, vais hoje dar um belo passeio pelas ruas da cidade.
— Não há como ser animal de jardim zoológico: sem preocupações, comidinha sempre a horas… — acrescentou o outro. — Quem me dera também poder ir passear.
— Isso é que era bom! — retorquiu o primeiro com ar fatigado. — Passa-se a vida a trabalhar. Quase não há tempo para um passeiozito e os transportes, ainda por cima, estão caros. Nem ao domingo, que é dia de consertar alguma coisa estragada lá por casa ou de fazer uns biscates aqui e ali.
Eu estava interessada em tudo menos naquelas lamentações ou em ir passear pela cidade num dia de sol tão bonito como o de ontem. Se ainda fosse para dar uma volta pelas areias quentinhas e macias dos desertos do meu país! Não acham, primos?
Mas não. Meteram-me num camião e lá fui aos solavancos para um lugar aqui perto, a que ouvi chamar S. Domingos de Benfica. Bem fica? Bem é que não fiquei!
Quando chegámos, havia um magote de gente à espera. Alguém puxou pela corda que me tinham amarrado ao pescoço e logo várias pessoas me rodearam, aos saltos e aos berros. Impossíveis, estes humanos! Todos a falar ao mesmo tempo, além de passarem a vida a empurrar-se uns aos outros. O que eu tive de aguentar! Ora ouçam:
Penduraram-me nas bossas uns grandes cartões com uns dize¬res de várias cores, mais umas fitas amarelas e encarnadas. E, para minha grande vergonha, puseram-me uma cartola presa com um elástico e obrigaram-me a ir para o meio da rua, feita macaco ou cavalo de circo — isto não desfazendo aqui no primo macaco e no primo cavalo… Lá fui fazer propaganda a uma associação qualquer, nem sei bem qual. Se ao menos fosse a Sociedade Protectora dos Animais… As crianças batiam palmas e riam à minha passagem.
— Aquele camelo com a cartola parece um palhaço! — gritava uma rapariguinha.
— O camelo é bom companheiro! O camelo é bom companheiro! — cantavam em coro dois miúdos.
— Pessoal, se a professora aqui estivesse, dizia logo, com ar de quem nos está a fazer um favor, que aproveitássemos bem, para depois contarmos tudo por escrito. — Isto proclamava um matulão, sem parar de dar palmadas nos costados dos colegas.
— E então? Aproveita. Pode ser que escrevas a melhor história da turma — comentou outro com ar de gozo.
Assim caminhei duas horas no meio de autocarros, automóveis e motorizadas, a aturar o chinfrim dos humanos, que riam, batiam palmas e me atazanavam os ouvidos. Enquanto isto, um carteirista aproveitava para palmar umas carteiras sem ninguém reparar. O que eu não daria para estar, naquele momento, deitada à sombra de uma palmeira, num oásis do meu país, sem ter de respirar o fumo de gasóleo e gasolina e de aguentar empurrões e barulheira!
Por fim, lá me levaram de volta para o camião, onde os dois homens me esperavam. E assim regressei, maldisposta e com dores de cabeça, a esta areia do zoo.
Fiquei mais exausta do que se tivesse feito uma caminhada de quilómetros pelo deserto — onde, ao menos, o ar é puro. Os fumos da cidade não se aguentam. Estou para entender como os homens conseguem. Antes este espacinho meu, aqui no zoo, entre árvores e palmeiras, do que as ruas irrespiráveis do centro da cidade.
Olhem, ao menos que o matulão tenha aproveitado o episódio para fazer o tal escrito.
Quanto a mim, espero nunca mais ter de lhes contar outra triste aventura como esta.
E agora, primos, vou beber uma aguinha fresca, desentorpecer as pernas e depois estender-me à sombra da minha palmeira favorita. Ainda me não recompus.

João Pedro Mésseder

José António Gomes (org.)
Um Bosque de Palavras
Porto, Porto Editora, 2006

Marcella, uma amiga que veio de longe

Marcella, uma amiga que veio de longe

Lúcia desceu a escada a correr e com grande alarido. Certamente pelo barulho que fez, a mãe olhou para ela e disse-lhe:

— Não vás lá para fora tão pouco agasalhada.

— Oh! mãe, não está frio!

A Lúcia respondeu assim porque não gostava nada de usar muita roupa. Mas, temendo ser obrigada a vestir aquele casacão que, apesar de muito bonito, era bastante pesado, concordou:

— Está bem, vou vestir outra coisa.

Não fosse a mãe lembrar-lhe o tal casacão, subiu, na mesma pressa com que há pouco a descera, a escada que dá para o andar onde ficam os quartos de dormir. Imediatamente pensou em vestir a camisola azul que lhe fizera a avó Joana, porque era muita quentinha e leve.

Feita de uma lã tão macia que, quando lhe tocava, lembrava-se logo do seu já velhinho mas sempre fofo ursinho de peluche.

— Vês como assim estás melhor? — disse a mãe, quando de novo Lúcia desceu do quarto. E só depois lhe perguntou:

— Aonde vais?

— Vou até ao fundo do quintal ver os aviões.

Como a mãe não disse mais nada, a menina compreendeu que ela estava de acordo. Saiu de casa, meteu pelo estreito passeio que atravessa o jardim e o pomar, e foi entregar-se ao seu passatempo favorito.

Realmente, o que Lúcia mais gostava de fazer era ir até ao fundo do quintal, mesmo ao lado do aeroporto. Atrás da sebe feita com rede de arame, ficava horas sem fim a ver os aviões que a toda a hora chegavam e partiam.

— Afinal, a mãe até tinha razão — pensou. — Mesmo com o sol a espreitar, o tempo está um pouco frio!

Encostou-se à rede e, apesar de o arame lhe arrefecer o rosto, não o descolou dela, tão grande era o fascínio que lhe causava o vaivém no aeroporto. Ao olhar tudo aquilo, sonhou com o dia em que iria viajar num daqueles aviões e conhecer novas terras. Depois, e porque esse sonho ainda estava longe de se realizar, desejou que, pelo menos, um deles lhe trouxesse algo muito importante e bonito, para maior alegria do seu coração. A imaginar coisas fantásticas, da forma que só nós, os mais pequenos, sabemos fazer, ficou ali muito tempo encostada à sebe.

Despertou-a dos sonhos o ruído de mais um avião que se preparava para aterrar. Desde o momento em que este parou até à saída de todos os passageiros, Lúcia não tirou os olhos daquele grande pássaro de aço pensando alto, como se falasse para si mesma:

— Quem virá lá dentro? Reis? Princesas? Gente importante, certamente! — E continuou a dar largas à sua imaginação carregada de fantasia: — Doutores! Poetas! Mágicos! Inventores!

A certa altura, teve de interromper a festa dos seus pensamentos, pois um choro miudinho fez-se ouvir muito perto de si. Apanhada de surpresa – sim, porque não esperava que surgisse alguém por ali! – olhou na direcção de onde vinha esse choro. Ficou, sem palavras, maravilhada a olhar uma linda borboleta. Esta flutuava, como se buscasse um raio de sol, um pouco acima da sua cabeça. Era realmente a mais bela borboleta que já tinha visto, e só o facto de ela estar a chorar e a tremer muito lhe quebrou o prazer de contemplar tão formosa criatura.

— Porque choras? — perguntou-lhe.

A borboleta nem lhe respondeu, e Lúcia não conseguiu perceber se era porque o choro lhe travava a voz, ou se não sabia falar. Talvez fosse surda! Ou muda! Ou as duas coisas! Devagarinho, estendeu-lhe a mão. Como ela não fez o mais leve movimento de receio, pegou-lhe mansamente nos minúsculos pés e puxou-a para si. A borboleta, sem sombras de querer fugir. Por fim, muito a custo, respondeu:

— Tenho frio.

— Ah! — compreendeu a menina. — Por isso tremes tanto!

Percebendo o seu problema, Lúcia não esperou por mais nada. Juntou as mãos e fechou-as como uma concha, guardando dentro delas aquela pequenina e colorida criatura. Depois, correu para casa. Quando lá chegou, perguntou muito alto:

— Mamã, o fogão da sala está aceso?

— Está — respondeu a mãe como se estivesse a repreendê-la. — Tens frio, não é? Bem disse para te agasalhares.

Mas Lúcia nem se justificou e, na sua habitual correria, dirigiu-se ao seu quarto. Quando lá chegou, poisou a borboleta em cima da cama.

— Não fujas, está bem? — pediu-lhe. — Trato já de ti.

Abriu o guarda-roupa, revolvendo o seu interior em busca de qualquer coisa.

— Está aqui! — exclamou, com satisfação, ao encontrar aquilo que procurava. — Aqui dentro estavam as minhas botas de cano alto — explicou, enquanto mostrava uma caixa de cartão vazia — mas, com um agasalho, fica uma boa cama.

Da primeira gaveta da cómoda tirou um cachecol igual à sua camisola azul. Dobrou-o em três partes e colocou-o dentro da caixa de cartão. Depois, envolvendo-a de calor e carinho, disse à borboleta:

— Vais sentir-te tão quentinha nesta cama que até esqueces o frio que faz lá fora.

Deitou a amiga no colchão azul e, dirigiu-se à sala, transportando com todo o cuidado aquele improvisado leito que, antes disso, era a casa de umas botas de cano alto. Quando lá chegou, poisou-a no chão junto à lareira, onde ardiam pinhas secas. Sentiu vontade de continuar a conversar com a borboleta, mas ela já dormia. Talvez de cansaço. Talvez feliz por não sentir frio.

Era já dia, mas mais cedo do que o costume, quando Lúcia saiu da cama. Enquanto se vestia lembrou-se de que, na véspera, tinha deixado a pequenina criatura a dormir perto do fogão da sala. Antes de se deitar ainda fez algum barulho, para ver se ela acordava e lhe contava coisas da sua vida. Mas qual quê! A amiga dormia um sono tão profundo que nem foi capaz de a despertar.

— São horas de ires para a cama, Lúcia. Vai, que a tua borboleta já dorme. Amanhã brincas com ela — disse-lhe a mãe, nessa altura.

E a menina lá teve que ir dormir. Muito lhe custou, pois estava com um receio escondido no peito de que o silêncio da borboleta não fosse do sono, mas sim que tivesse morrido de frio.

No entanto, esse receio fora inútil, pois, pela manhã, quando regressou à sala, já a sua amiga borboleteava perto da janela com o olhar fixo no exterior, mostrando-se ansiosa par sair dali.

— Bom-dia, borboleta — cumprimentou Lúcia. — Dormiste bem?

— Dormi — respondeu a outra — mas quero ir embora.

— Embora? Não vês que faz frio lá fora? — perguntou a menina, muita decepcionada, pois já gostava da sua nova amiga.

— Eu quero ir para a minha terra. Lá nunca está frio.

— Ah! — exclamou Lúcia com o espanto de quem faz uma grande descoberta. — Não és de cá!?

— Não. Sou de um sítio onde há sempre calor.

— Mesmo quando chove?

— Mesmo quando chove — confirmou a borboleta.

— E onde fica esse sítio?

— Não sei. Mas creio que é muito longe.

Lúcia insistiu nas perguntas:

— Então, como vieste cá parar?

— Acho que foi porque adormeci.

Aí, a menina não entendeu mesmo nada!

— Adormeceste? Explica-te melhor, pois não percebo o que queres dizer com isso de “adormeci”.

A borboleta sentiu-se muito importante. Era a primeira vez que alguém lhe pedia explicações sobre qualquer coisa! A verdade é que também era a primeira vez que tinha uma pessoa como amiga. Sem mais demoras, contou o que lhe tinha acontecido:

— Tudo começou lá longe, na minha terra. Estava tão cansada e cheia de calor que nem conseguia voar e, por isso, caí em cima do chapéu de renda de uma velha senhora. Adormeci imediatamente.

— E depois? — insistiu Lúcia.

— Depois? Depois, quando acordei, ainda descansava no chapéu da tal senhora — continuou, agora muito preocupada — mas já não estava na minha terra. Encontrava-me dentro de uma casa muito comprida, que tinha janelinhas redondas e filas de cadeiras com pessoas comodamente sentadas. Ainda tentei sair, mas não consegui abrir nenhuma das janelas! Finalmente, quando uma porta se abriu, vi que já me encontrava aqui, na tua terra.

— Mas…tu vieste num avião! — exclamou Lúcia, ao perceber o que tinha acontecido. — Quer dizer que realmente és de muito longe!

Embora por razões diferentes, as duas amigas ficaram tristes quando a menina fez esta descoberta. A borboleta, por sentir que, se não regressasse à sua terra, morreria de frio e também de saudade. A Lúcia, por saber que era urgente devolver a amiga ao sítio de onde veio e, ao consegui-lo, nunca mais a veria.

Dos pequeninos olhos azuis da borboleta nasceram duas lágrimas às quais se seguiram outras e outras, até se transformarem num choro um bocadinho ruidoso. Só um bocadinho, pois, como era pequenina não podia chorar muito alto, não é verdade? Ao vê-la assim, o coração de Lúcia ficou apertado pela tristeza. Na esperança maior que conseguiu, animou a amiga com uma promessa:

— Não chores. Havemos de encontrar forma de regressares à tua terra.

Ainda a soluçar, mas, acreditando que isso era possível, a borboleta perguntou:

— Como? De avião?

— E porque não? — respondeu Lúcia a sorrir, porque aquela era uma boa sugestão. — Se vêm aviões de lá para cá, também vão de cá para lá. Só precisamos de descobrir onde é a tua terra.
Ficou a pensar nesse enigma. Bem grande, por sinal, pois a sua amiga apenas sabia que era de um país longínquo onde havia muito sol e raramente chovia.

Mas a Lúcia nunca foi menina para se atrapalhar pela falta de ideias e, por isso, logo teve uma que lhe pareceu extraordinária:

— Já sei! Vamos falar com o senhor João, que mora na casa em frente. Como ele sabe de tudo, decerto saberá onde fica a tua terra.

Sem esperar por mais nada pegou na amiga, encostou-a ao peito, de encontro à sua fofa camisola, e dirigiu-se a casa do senhor João.

É claro que a Lúcia tinha quase a certeza de que o vizinho havia de descobrir a origem da borboleta.

— Pois! — pensou a menina — para que lhe servia ter uma sala cheia de livros se não aprendesse o que eles ensinam?

E não é que tinha razão?! Quando o seu vizinho, senhor já idoso e com os cabelos todos brancos, olhou a amiga de Lúcia, disse:

— Vou confirmar ali numa enciclopédia, mas parece-me que esta borboleta é uma Marpesia Marcella, originaria da América do Sul, habitando principalmente no Amazonas.

Enquanto a borboleta se sentia orgulhosa por ter um nome tão complicado e a menina admirava a sabedoria do velho senhor, este dirigiu-se a uma estante, de onde tirou um grande livro de capa vermelha com inscrições a ouro. Num segundo encontrou o que procurava.

— Aqui está! — confirmou vitorioso. — É realmente uma Marpesia Marcella. Como a conseguiste? — perguntou, intrigado.

Lúcia contou ao senhor João a viagem da sua amiga e como as duas se conheceram.

— Vais emoldurá-la? — continuou ele.

— Emoldurá-la?!

— Sim. Colocá-la dentro de uma moldura que se pendura na parede! Como se faz com as pinturas e fotografias.

— E porque iria eu fazer uma coisa dessas? — interrogou a menina, muito admirada.

Aí, o senhor João fez um gesto largo de impaciência com os braços e respondeu:

— Ora, ora! É o que toda a gente faz com as borboletas raras e bonitas! Ou vais vendê-la a algum coleccionador de borboletas?

— Vender a minha amiga?! — gritou Lúcia, assustada. — Não quero que lhe aconteça mal algum. Apenas desejo que regresse à sua terra.

Nesse momento, o senhor João compreendeu que, para a menina, a borboleta era já uma grande amiga para quem só queria o melhor. Apesar da sua fama de rabugento, mostrou que era um homem bondoso, pois imediatamente se interessou pelo caso da Marcella.

— Então temos aqui um grande problema — disse. — Não queres que a tua amiga morra, mas ela não resistirá por muito tempo ao nosso clima.

— Por isso eu queria saber onde é a sua terra — justificou a Lúcia.

E contou-lhe a sua ideia em procurar no aeroporto um avião que devolvesse a borboleta ao seu país.

Pela primeira vez desde que o conhecia, a menina viu a senhor João sorrir, enquanto lhe dizia:

— Bom… Vamos já tratar da viagem desta doce criatura, antes que seja tarde.

Lúcia aconchegou mais a borboleta à camisola azul com a mão esquerda, enquanto o senhor João pegava na sua mão direita como se fosse o seu melhor amigo.

E se calhar já o era! Confiantes de que tão brilhante ideia tivesse bom resultado, dirigiram-se ao aeroporto.

Como sempre, àquela hora do dia, a sala de passageiros apresentava grande movimento, pois era a altura em que chegavam e partiam muitas pessoas nos enormes aviões. Os nossos amigos, muito juntos, encaminharam-se para um balcão onde estava escrito “Informações”.

— Faça o favor de me informar: quando segue um avião para o Amazonas? — perguntou o senhor João à senhora que ali se encontrava. Esta logo lhe respondeu:

— Mais ou menos daqui a uma hora segue um para o Brasil, com escala em Manaus, que, como deve saber, fica no Amazonas.

— É que — continuou o senhor João — a nossa amiga tem de seguir para lá, urgentemente.

A senhora olhou para Lúcia e perguntou:

— E vai acompanhada por quem?

— Por ninguém — respondeu o velho senhor com o mau humor por que era conhecido. — Exactamente como veio para cá: num chapéu!

— Num chapéu?! — quase gritou a senhora com cara de quem não estava a gostar nada daquela conversa.

Foi então que o senhor João percebeu a confusão dela e, numa grande risada explicou:

— Quem tem de ir para a Amazonas não é a menina! — Pegou na borboleta das mãos da Lúcia e mostrou-a à senhora das Informações, continuando a explicar: — É ela quem precisa de viajar!

— A borboleta?!

— Exactamente — informou ele.

Depois, contou-lhe a história da pequenina criatura. Tal e qual como a Lúcia lhe tinha contado.

A senhora, compreendendo a situação, mostrou logo vontade de colaborar.

— Vamos arranjar alguém que leve a borboletinha de volta — disse. Pegou depois no telefone que estava mesmo a seu lado e marcou um número.

— Álvaro? Podes chegar aqui, às Informações, por favor?

Poisando de seguida o auscultador no seu lugar, disse aos três amigos que a olhavam com muita ansiedade:

— Vem aí um colega meu. É o piloto do avião que vai para o Brasil. Com certeza não se importará de levar a borboleta de regresso ao Amazonas.

Realmente, daí a instantes chegou o piloto Álvaro, a quem a senhora do balcão contou o problema da Marpesia Marcella.

— Com que então queres regressar à tua terra! Terei muito gosto em levar-te — disse o piloto à borboleta, quando ficou ao corrente da sua história.

Agora que a grande problema parecia resolvido, o olhar de Lúcia mergulhou no rio da tristeza.

O senhor João, que se apercebeu disso, pegou-lhe no queixo. Olhando-a nos olhos, perguntou:

— Não queres mesmo ficar com ela?

— Como? Morta?! — exclamou a menina horrorizada. — Nunca!

De repente teve uma dúvida que a levou a perguntar ao piloto do avião:

— Não vai emoldurá-la, pois não? Nem vendê-la a algum coleccionador de borboletas?

Ele deu uma risada simpática e respondeu:

— Claro que não. Achas que sou capaz disso?

Lúcia olhou-o mais atentamente e compreendeu que, na verdade, uma pessoa que sorria assim não podia fazer uma coisa dessas. Pediu-lhe desculpa.

— Entendo a tua preocupação – continuou o piloto. — Ninguém gostaria que lhe maltratassem ou vendessem uma amiga de quem se gosta. Descansa, pois olharei por ela até estar a salvo, na sua terra.

Pegou com muito cuidado na borboleta, colocou-a na pala da boné do seu uniforme e disse, sorrindo:

— Vieste num chapéu, vais num boné.

Olhando o relógio na parede continuou:

— Já? — perguntou Lúcia, como se tivesse recebido uma má notícia.

— Tem de ser — respondeu o piloto. — Antes de partir, temos que experimentar os motores do aparelho, o que leva algum tempo. Por isso, tens de te despedir da tua borboleta.

Apesar de haver muito movimento no interior do aeroporto, à volta dos nossos amigos fez-se um grande silêncio. A borboleta Marcella mantinha-se em cima da pala do boné que o piloto segurava nas mãos. Ao olhar a amiga, agradeceu-lhe, reconhecida:

— Obrigada por tudo, Lúcia. Nunca te esquecerei.

E, para se mostrar forte pois a despedida também a deixava triste, pediu ao piloto:

— Vamos embora, que se faz tarde.

A menina tremia, mas não era de frio. Par isso, e para se sentir amparada, apertou com força a mão do seu vizinho.

— Não estejas triste. Hás-de arranjar outra amiga. Uma que não tenha de partir — disse ele, tentando confortá-la.

Mas Lúcia sentia que, quando sabemos gostar de alguém, ninguém o pode substituir no nosso coração.

Depois de o piloto se afastar, os dois amigos da borboleta Marcella encaminharam-se lentamente para o exterior do aeroporto. Lá fora fazia um sol gostoso, quentinho.
— Nem está muito frio! — murmurou a menina.
— Agora — respondeu o senhor João, que percebeu muito bem onde ela queria chegar. — Mas logo, ou amanhã… a borboleta não ia resistir ao nosso clima!
Ficaram, durante algum tempo na varanda do aeroporto a ver os aviões desaparecerem lá longe, até ficarem do tamanho de um pontinho como este (.).
A todos que levantavam voo dirigiam um olhar de despedida, por saberem que em algum deles ia a sua amiga. Estiveram ali muito tempo. Até terem partido todos os aviões que havia na pista.
— Já foi! — suspirou Lucia.
— Já! — concordou o amigo.
— Mas continua viva, não é? — perguntou a menina, resignada.
O senhor João percebeu que, apesar de lhe ter custado muito o adeus, a Lúcia sabia que tinham feito aquilo que estava certo.
Seguiram para casa. De mãos dadas, na certeza de uma nova e grande amizade. Levavam no coração a tristeza da despedida de uma amiga, mas, ao mesmo tempo, a alegria de saberem que ela já não morreria de frio. Nem de saudade.

Daniel Marques Ferreira
Marcella, uma amiga que veio de longe
V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2002

Um urso à caça

Um urso à caça

Esta história não é nenhum conto de fadas.

Era uma vez um ursinho a quem faltavam pêlos na cabeça.

A sério! Quando o urso veio ao mundo, tinha um pêlo maravilhoso no corpo todo. Só em cima, no cocuruto da cabeça, havia uma mancha redonda e despida.

— Oh, uma careca! — disse o pai. — De certeza que o pêlo ainda vai nascer. Tem tempo.

Mas não cresceu. Nem com o tempo.

Então, a mãe pôs-lhe umas raízes na careca: rábano, raízes de árvores, raízes de dente-de-leão, raízes de acanto.

— É das raízes que tudo nasce — dizia a mãe — portanto, isto há-de ajudar!

Mas não ajudou. A mãe esfregou com água da chuva.

— A água da chuva faz nascer tudo.

Nada.

Esfregou estrume de galinha.

— Os homens também o usam para as plantas crescerem.

Nada.

Então o irmão do urso cuspiu-lhe na pelada.

— Desculpa, mas teve de ser! — disse o irmão. — Onde eu cuspo, medra sempre alguma coisa.

Na cabeça do urso, contudo, não cresceu nada.

— Não é assim tão mau — disse a mãe. — Põe um gorro.

Mas o urso só usava o gorro quando estava frio. No Verão tirava-o, primeiro, porque tinha muito calor, e segundo, porque todos os outros ursos olhavam para ele com um olhar tão esquisito como quando lhe viam a careca.

— Faz tu alguma coisa! Um bom urso sabe sempre tirar-se de apuros — dizia o pai. — Caça um animal, arranca-lhe o pêlo e depois colamos-to na cabeça.

— Com cuspo — disse o irmão.

O urso saiu para o bosque e encontrou um tigre que bufava ferozmente e se preparava para lhe saltar. Zás! O urso saiu dali e foi a correr para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não. No bosque só estava um tigre e eu não quis caçá-lo. Não quero ficar com riscas na cabeça.

No dia seguinte, o urso voltou ao bosque para ir caçar e viu vir ao longe um lobo a lamber os beiços.

O urso fugiu o mais depressa que pôde e correu para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não, só encontrei um lobo e não quis caçá-lo. Tinha pêlo cinzento e branco e eu não quero parecer assim tão velho.

Na caçada seguinte, apareceu-lhe, de repente, uma raposa, de boca aberta. O urso foi mais rápido e conseguiu chegar inteiro a casa.

— Voltaste a não caçar nada? — perguntou o irmão.

— Não, só vi uma raposa e não quis apanhá-la. Cheirava a carne podre e eu não quero ter maus cheiros na cabeça.

— Esta é a minha última tentativa — disse o urso, no dia seguinte, ao partir para o bosque.

Não encontrou ninguém e foi-se embrenhando nele cada vez mais. Procurava nos matagais, rastejou para dentro dos arbustos, subiu a uma árvore. Aí, na segunda ramificação, estava um esquilinho a dormir, e o seu pêlo era da mesma cor do pêlo do urso.

— Ora aqui está! — disse o urso, esfregando as patas de contente. Levantou-se para fulminar o esquilo com um golpe. O esquilinho abriu um olho e piscou-lho amigavelmente e sem medo.

— Desculpa! — disse o urso. — Não quero que seja assim. Não quero ficar com remorsos.

Baixou a pata, estendeu-a ao esquilinho e desceu do ramo. Sentou-se no musgo, encostou-se à árvore e, como estava cansado, adormeceu também.

Chegou depois junto dele um arganaz, ou melhor, uma mãe arganaz com uma barriga muito gorda. Passou furtivamente pelo urso, rastejou-lhe pelo braço e pelo ombro até que chegou à cabeça.

— Olá! — exclamou ela. — Este lugarzinho parece ter sido feito para mim. Não é lá muito macio, mas à volta é quentinho.

Arrancou algum pêlo seu, com o qual almofadou a pelada, instalou-se e deu à luz os filhotes.

Quando o urso acordou, sentiu uma comichão esquisita na cabeça. Levou a pata à mancha branca – como ele lhe chamava – e viu que se encontravam lá um rato grande e quatro ratinhos que sentiu não terem pêlo. Levantou-se com muito, muito cuidado, e foi para casa pé ante pé.

A mãe, o pai e o irmão ficaram assombrados.

— Agora já tens pêlos na cabeça — disseram.

O urso passou a dormir de costas direitas, sentado numa cadeira, até os pequenos arganazes saírem da pelada, rastejarem atrás da mãe pelos ombros e pelo braço do urso e, passando pela perna dele, seguirem na direcção do bosque.

Aos poucos, o vento fio soprando da cabeça do urso o pelo do arganaz.

— Afinal, estou muito satisfeito com a minha careca — disse o urso. — Talvez alguém mais possa vir a precisar dela.

Hans Manz

Reinhard Michl (org.)
Wo Fuchs und Hase sich Gute Nacht sagen
Hildesheim, Gerstenber Verlag, 2002
Tradução e adaptação

O pai de Andi

O pai de Andi

Não era normal! Os três amigos de Andi tinham pais famosos.

O pai de Alexandre era cirurgião. Um daqueles médicos a quem as pessoas ricas e importantes recorrem para tirar o apêndice.

O pai de Rafael tocava violino. Não apenas por prazer. Dava concertos pelo mundo inteiro e era sobejamente conhecido.

O pai de Gino era um realizador de cinema. Diz aos actores o que eles têm de fazer, foi como Gino, com certo orgulho, explicou a profissão do pai.

O pai de Andi era vendedor numa loja de roupa para homem. Um pouco baixo, usava óculos dourados e não era nada conhecido.

Andi só o via ao fim-de-semana, porque os pais tinham-se separado. Quando os colegas falavam dos pais, Andi ficava calado. O que é que ele havia de dizer? Na passada terça-feira, o meu pai vendeu um fato de flanela cinzenta?

Nas férias grandes, Alexandre foi para África, porque o pai queria fotografar leões. Rafael foi para Nova Iorque, onde o pai ia dar um concerto. E Gino foi para a Jugoslávia onde o pai estava a rodar um filme de cowboys.

O pai de Andi queria ir para a Toscânia. Pela sua bela paisagem e porque gostava de visitar igrejas antigas. Andi não tinha bem a certeza se queria ir, mas estava combinado passarem juntos umas férias por ano. Por isso, Andi foi com o pai para Itália. Para dizer a verdade, até gostou bastante. Ficaram numa terrinha entre vinhas, davam passeios e visitavam igrejas antigas, mas não em demasia.

Certo dia, que seria diferente dos outros, passeavam pelo mercado de uma pequena aldeia. Compraram tomates e alhos para o molho do esparguete, e ainda pêssegos e uvas para a sobremesa. Num pequeno bar, o pai de Andi tomou café e

Andi bebeu um sumo de laranja, que em Itália se diz “aranciata”. Dirigiram-se depois, devagar, para o local onde o carro ficara estacionado.

Andi foi o primeiro a ver os pássaros. Parou, horrorizado. Numa parede batida pelo sol estavam dependuradas cerca de vinte minúsculas gaiolas, cada uma com um pássaro fechado dentro. Pardais, tentilhões, um melro. Num desespero evidente, arremessavam-se para cima e para baixo contra as grades das pequenas gaiolas.

— Que maldade! — disse Andi.

O pai de Andi olhou pensativamente e não proferiu palavra.

De resto, mais ninguém parecia incomodar-se com os pássaros encarcerados. As pessoas passavam, falavam, riam, e não prestavam a mínima atenção àquele arremeter e piar de desespero.

O pai de Andi aproximou-se de uma gaiola. O pardal, prisioneiro e em pânico, tentava bater as asas, mas a gaiola era tão pequena que as asas embatiam contra as grades de madeira. Num gesto rápido e resoluto, o pai de Andi abriu a porta da gaiola. Teve de retirar primeiro o recipiente da água e só depois é que pôde abrir a porta de arame. O pardal mais parecia dar cambalhotas do que voar. Pousou por um instante na rua, atordoado, mas depois voou e desapareceu. O pai de Andi abriu todas as gaiolas uma por uma.

— Estão a olhar para nós — disse Andi. — Despacha-te!

Mas só quando abriu a última gaiola, é que o pai pegou no saco de papel que tinha pousado no chão e deu a mão a Andi.

— Não vão deixar-nos passar — disse Andi com medo.

Um pouco mais à frente, havia pessoas paradas na rua, que falavam em voz baixa umas com as outras e olhavam para eles com um ar severo.

Agora bem que precisariamos de Renzo Romano, pensou Andi, deitando um olhar de soslaio ao pai. Que esquisito! Teria crescido em pouco tempo? Parecia muito maior do que de costume, muito decidido e fazia uma cara – Isso, exactamente como Renzo Romano antes de um duelo de vida ou de morte.

Contrariadas, mas sem nada fazerem, as pessoas da rua afastaram-se, deixando o caminho livre a Andi e ao pai.

Quando dobraram a esquina, estugaram o passo e, em poucas passadas, chegaram ao carro. Andi voltou a olhar para o pai para se certificar. Será que alguém na idade dele podia ainda crescer? E tão de repente? Devia ter sido uma ilusão.

Deixaram a pequena aldeia para trás, mas nenhum dos dois falava. Andi olhou mais do que uma vez discretamente pelo espelho. Nenhum perseguidor. À sua frente, estendiam-se montes raiados de cor-de-rosa, violeta e azul-claro. Ciprestes escuros erguiam-se contra o azul leitoso de um céu de Verão. Os dois continuavam ainda em silêncio.

Mais tarde, sentaram-se então debaixo de uma oliveira, a comer pêssegos sumarentos. Sobre as suas cabeças, pousado num ramo coberto de folhas prateadas, cantava um pássaro.

— Este é um dos do teu grupo de admiradores! — disse Andi.

Está ansioso por saber o que Alexandre, Rafael e Gino irão dizer desta acção de salvamento.

Edith Schreiber-Wicker

Brigitte e Wilhelm Meissel (org.)
Fernweh
Wien, Herder Verlag, 1980

tradução e adaptação

O patinho de Sam

O patinho de Sam

— Vais gostar do lugar quando lá chegares — disse o avô de Sam.

— Não vou, não — replicou Sam.

Mas Sam sabia que tinha de ir para a quinta de qualquer forma. Todos os alunos de Mrs Southerden iam. Além do mais, o avô tinha dito que ia ser bom para ele.

— Um rapaz da cidade como tu pode aprender muito numa quinta. Há sempre ar fresco e ovos frescos. Quem me dera ir eu mesmo. Não te esqueças de que voltas na sexta para os meus anos. Vamos fazer uma festa.

O avô disse-lhe adeus com a mão e Sam ficou a olhá-lo do seu assento no fundo da camioneta até deixar de o ver. Ia estar fora uma semana inteira. Esforçou-se por não chorar.

A viagem até ao Devon era longa. As auto-estradas deram lugar às estradas, as estradas aos caminhos. Eram caminhos estreitos com relva pelo meio. De repente, surgiu uma casa enorme, como se fosse um palácio, rodeada de campos verdes e árvores por todo o lado.

— Chegámos a Nethercott — anunciou Mrs Southerden, que ia na parte da frente da camioneta. — O que é que vocês são a partir de agora?

— Lavradores! — gritaram os alunos em coro.

E assim foi. Levantavam-se de madrugada para mungir vacas, alimentar cavalos, porcos e vitelos. E os carneiros também tinham de ser alimentados. Isto tudo antes do pequeno-almoço, que consistia em papas de aveia quentes, ovos mexidos e tantas torradas quantas quisessem.

Havia estábulos para limpar, galinhas, patos e gansos para soltar, ovos para ir buscar. Havia também um touro, mas não era permitido ir até junto dele, não fosse acontecer alguma coisa.

Sam nem tinha tempo para ter saudades do avô. Trabalhavam durante a tarde toda e nunca conseguiam acabar as tarefas. As vacas tinham de ser mungidas ao fim do dia outra vez, o que dava uma enorme trabalheira!

Os cordeirinhos eram levados para os celeiros à noite, os porcos eram alimentados, os cavalos tratados, e as galinhas, os patos e os gansos recolhidos, para o caso de a raposa vir por ali, feita matreira.

Sam trabalhava arduamente, comia como um rei, e dormia a sono solto. Os lavradores eram amáveis e sorridentes, sobretudo o velho jardineiro, que levava os legumes à cozinha. Tinha cabelo prateado como o avô de Sam.

O rapaz estava a adorar aqueles dias. Mesmo quando tinha de limpar estábulos fedorentos ou tirar as pedras dos campos para que o milho pudesse crescer na Primavera.

Mas o melhor de tudo era quando ajudava um cordeirinho a nascer. Quando o trazia, quente e húmido, de dentro da mãe, para o ar gelado do dia. Via-o respirar pela primeira vez, dar os primeiros passos, beber o primeiro leite. Tinha tantas coisas para contar ao avô.

Só a Lisa não gostava do que estavam a fazer. Mrs Southerden chamava-lhe “Mona Lisa”. Tinha-se queixado durante a semana toda: “Doem-me os pés”. “Doem-me as costas”. “Está frio”.

Às terças, era dia de mercado. Foi a primeira coisa de que Sam não gostou. No lugar dos leilões, estava um homem de cara vermelha, que torcia as caudas dos vitelos para os fazer mexer. Chegava mesmo a dar-lhes pontapés e ria sem parar.

O rapaz nem conseguia olhar para ele e decidiu ir para junto dos patos e das galinhas, que se amontoavam no fundo das gaiolas. Havia uma pato, branquinho como a neve, que estava mesmo junto ao arame da gaiola e que grasnou para ele. Sam tocou as suas penas suaves com o dedo.

— Fora daqui! — gritou o homem de cara vermelha. — Estás a olhar para o meu jantar!

E pegou no animal pelas patas.

— Não vai comê-lo! Não pode! — gritou Sam, aflito.

— Tens uma ideia melhor? — perguntou o homem a rir.

Sam nem pensou duas vezes.

— Posso comprá-lo. Tenho duas libras — disse, tirando o dinheiro todo do bolso.

— Negócio fechado! — concordou o homem.

Pegou no dinheiro e deixou o patinho nos braços de Sam. O que iria fazer com ele? O que diria Mrs Southerden? Meteu-o depressa no seu saco de desporto.

— Não grasnes, por favor! — sussurrou.

Enquanto se dirigia para Nethercott, ia pensando no que havia de fazer. Caminhava afastado dos outros, por precaução. Só havia um lugar para o esconder. Na cabana da horta. Com um pouco de sorte e cautela, ninguém daria por nada.

O pato olhou em volta e pareceu gostar do lugar.

— Vais precisar de palha para a tua cama e de comida — disse-lhe o rapaz.

— E de água — disse uma voz atrás dele.

Era o velho jardineiro.

— Os patos precisam de água. Onde o arranjaste?

— No mercado. O dono ia matá-lo.

— Eis algo que não está certo, pois não? Tenho sandes e leite. Achas que chega?

Alimentaram-no juntos.

— É um macho — disse o jardineiro. — Vamos chamar-lhe Francis, como o famoso navegador, Francis Drake ?

— Ninguém sabe que o tenho — disse Sam.

— Podes contar comigo — prometeu o velho jardineiro.

Durante o resto da semana, as crianças trabalharam arduamente na quinta e nenhuma suspeitava de que Sam tinha um segredo.

Na última noite, fizeram uma fogueira crepitante e todos cantaram canções e comeram muitas salsichas. O rapaz esgueirou-se para estar com o pato e com o velho jardineiro.

— O que vais fazer com ele?

Sam tinha pensado nisso o dia todo.

— Vou dá-lo ao meu avô como prenda de anos. Faz setenta anos amanhã.

— Então é da minha idade. É um homem de sorte por ter um neto como tu.

Na manhã seguinte, o velho jardineiro estava à espera na cabana. Juntos, colocaram o pato no fundo do saco de desporto de Sam.

— Boa sorte! — desejou-lhe o jardineiro.

Sam correu para a camioneta porque queria apanhar o lugar de trás, mesmo ao canto. Era o lugar mais seguro. Se Francis grasnasse uma vez que fosse, estava feito. Acenou para o jardineiro até deixar de o ver.

Pararam apenas uma vez, para almoçar.

— Toda a gente para fora da camioneta — ordenou Mrs Southerden.

Sam não queria deixar o saco dentro da camioneta, mas Mrs Southerden obrigou-o. Quando acabou de almoçar, correu até ao lugar. Mas a “Mona Lisa” já lá estava.

— Ouvi grasnar — disse. — Tens um pato. Vou contar a toda a gente.

Foi a correr até junto da professora.

— Miss, Miss, Sam tem um pato no saco!

Num ápice, Sam pegou em Francis e pô-lo dentro do casaco.

— Não sejas pateta — pediu Mrs Southerden. — Toda a semana tens-te portado mal. E agora até inventas histórias. Vem sentar-te à frente, junto dos que enjoam.

— Mas, Miss — continuou Lisa — é verdade. Ele tem mesmo um pato.

Todos olharam para Sam, que encolheu os ombros e virou o saco do avesso para que todos pudessem ver. Lisa abriu e fechou a boca, repetidas vezes, como um peixe de aquário. Sam sorriu com doçura, mas o caminho até casa custou a passar.

Estava morto por ver o avô. Quando chegaram, correu logo para os degraus do apartamento. Obrigou o avô a sentar-se, com os olhos fechados, enquanto punha um banho a correr para Francis. Depois chamou o avô.

— É para ti, avô. Feliz aniversário.

E contou-lhe tudo o que acontecera com o homem de cara vermelha no mercado e com o velho jardineiro em Nethercott.

— É um pato amoroso — disse o avô, abanando a cabeça. — Mas não podemos mantê-lo num andar. Não é justo.

— Porque não?

— Escuta, Sam, um pato precisa de um lago. Também precisa de amigos, como tu e eu precisamos. E precisa de liberdade.

O neto tentou persuadir o avô toda a noite. Em vão.

— Falaremos outra vez amanhã de manhã. Agora vai dormir.

Na manhã seguinte, o avô acordou-o cedo.

— O que se passa? — perguntou Sam.

— Logo verás — disse o avô.

Levaram Francis no saco de desporto. O pato tinha a cabeça de fora, mas não havia ninguém na rua.

— Onde vamos? — perguntou Sam.

— Já vais ver — respondeu o avô, com um brilho no olhar.

Caminhavam pelo parque, por entre a neblina da manhã, quando, de repente, Francis grasnou. E logo muitos outros patos puseram-se a grasnar também. Diante de si, Sam podia ver um grande lago cheio de patos a nadar em direcção a eles. Também havia gansos, galinholas e cisnes.

Baixaram-se junto ao lago e puseram Francis na água. Este acomodou-se, bateu as asas, abanou a cabeça e dirigiu-se para junto dos seus novos amigos.

— Bem, o que me dizes? — perguntou o avô a Sam.

— Penso que podemos vir dar-lhe de comer, não podemos? — retorquiu Sam.

— Sempre que quiseres — respondeu o avô. — Olha para ele, Sam. É um pato muito feliz e eu também sou um homem muito feliz.

Michael Morpurgo
Sam’s Duck
London, Harper Collins, 1997

O Milhafre

O Milhafre

Quando abro os olhos, o céu é a primeira coisa que vejo, e o vento a primeira coisa que sinto. O céu azul afaga-me com os seus dedos de vento e o sol quente seca as minhas penas molhadas.

Do ovo que está junto da minha casca partida vem um barulho e um bico curvo emerge em busca de ar. Ouço mais um ruído e consigo ver uma cabecinha húmida e pegajosa. São dois passarinhos que lutam para se desembaraçarem da casca. São os meus irmãos.

De repente, ouve-se um batido de asas. É a nossa mãe que regressa ao ninho com comida no bico. Cheira tão bem que piamos logo “Ki! Ki!”. Temos todos fome, mas como sou a cria mais velha, sou alimentada primeiro.

Os nossos pais trazem-nos ratos e musaranhos mal os apanham, e cortam-nos em pedacinhos para podermos comê-los. Todos crescemos depressa, mas sou eu quem cresce mais.

O nosso ninho está numa pontinha do céu. Os dedos suaves do vento agitam as nossas penas e o sol aquece os nossos dorsos. Sentamo-nos bem juntinhos dentro de um buraco em forma de folha de trevo, colocado bem alto na parede de uma escola. Dali conseguimos ver o recreio, os campos da aldeia e a estrada.

Esticamos as asas e abanamo-las como fazem os nossos pais. As crianças que estão no recreio olham para cima e apontam:

— Olhem os milhafres bebés! Vejam só as suas peninhas fofas!

Certa noite, depois de as aulas acabarem, ouvimos um som de passos que se dirigem para nós. Arrastamo-nos até ao fundo do ninho. Vemos uma sombra negra a pairar e piamos “Ki! Ki!”. Não é o nosso pai nem a nossa mãe. É uma criatura sem cheiro a pássaro. Dou-lhe algumas bicadas e arranho-a com as minhas garras. A silhueta faz um barulho estranho e sou agarrado por duas mãos. Levam-me de casa, envolto na escuridão

Quando abrem o saco, a luz ofusca-me. Tento voar, mas vou de encontro a umas grades fortes e caio no chão, numa nuvem de penas. Onde está a minha casa, onde estão os meus pais e irmãos? Onde estão o vento e o sol? De novo me atiro contra as grades e de novo caio no chão. Uma voz diz, então:

— Quero que sejas meu amigo e de mais ninguém.

Mas eu não compreendo. Lembro-me de ver este rapaz no recreio. É maior do que os outros e empurra-os com frequência. Nunca se ri ou brinca com os colegas.

Quando me traz comida não a parte em bocados e, por isso, não posso comê-la. Tenta que eu salte para a sua mão enluvada, mas fico aninhado a um canto da gaiola. Começo a ficar mais magro e mais fraco, e tenho saudades de casa. Chamo pelos meus pais “Ki! Ki!”.

O rapaz cobre-me a cabeça e sinto os dedos do vento nas minhas penas. Quando me tira a cobertura, bato as asas e tento voar. Ouço, então, uma rapariga exclamar:

— Daniel! Roubaste o nosso milhafre!

— Deixa-me em paz! — grita o rapaz.

A rapariga é corajosa e não desiste:

— O que lhe aconteceu? Está tão magrinho!

O rapaz insiste:

— Quero ficar com ele. Quero ter algo que seja meu!

A rapariga replica:

— Um animal selvagem não pode ser teu amigo. Ou o levas de volta ou ele morre.

— Não quero que ele morra — diz o rapaz, num tom de voz suave e meigo.

— Se o levares de volta, prometo que não conto a ninguém ─ insiste a menina.

Consigo ouvir o barulho do recreio. Estou perto de casa. As crianças rodeiam-nos e gritam:

— É o nosso milhafre! O Daniel encontrou o nosso milhafre!

Estou em casa. Os meus irmãos sibilam. Estão mais crescidos do que eu e não parecem conhecer-me. Mas assim que pio “Ki! Ki!”, lembram-se do som que eu fazia e deixam-me entrar no ninho. Vão até à borda, batem as asas e voam por cima do recreio.

O céu afaga-me com os seus dedos de vento e agita as minhas penas. Estou sozinho em casa.

Ouço um bater poderoso de asas: é a minha mãe que vem alimentar-me. Lembra-se da sua primeira cria. Agora sei que estou a salvo.

Em breve as minhas asas ficam outra vez suaves e fortes. Mas continuo na borda do ninho. Não quero deixar a minha casa. As crianças que estão no recreio olham para cima e dizem umas às outras:

— O milhafre tem medo de voar.

O meu pai está no topo de um mastro do recreio. Tem um musaranho no bico para mim. Tenho fome e chamo por ele:

— Ki! Ki!

Mas o meu pai nem se mexe.

O meu irmão aterra numa árvore e pede comida. Bato as asas, numa tentativa desesperada. Tenho de voar!

De repente, sinto a espessura do ar e sinto os dedos do vento a segurarem-me. Atiro-me da borda e voo em direcção ao mastro. Arranco o musaranho do bico do meu pai e oiço as crianças a rir e a aplaudir.

O céu e o vento são meus amigos. Abano as asas para poder voar bem alto sobre a escola. Os meus olhos penetrantes procuram ratos, enquanto pairo sobre os dedos do vento.

Vejo o rapaz com o seu novo amigo. Olham para cima e exclamam, excitados:

— Olha o milhafre! O nosso milhafre!

Alan Brown; Christian Birmingham
Windhover
London, Picture Lions, 1998

tradução e adaptação