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Um camelo nas ruas da cidade

Um camelo vai andar hoje nas ruas de S. Domingos de Benfica. Trata-se de uma fêmea de duas bossas cor castanho-acinzentada e de 13 anos de idade. Há oito anos que reside no Zoo de Lisboa, vindo do Zoo de Frankfurt.
Este camelo é muito elegante, pois só pesa 1500 quilos e tem 2,5 metros de altura. Chama-se “Zeide” e vai colaborar no início das sessões de animação cultural e espectáculos promovidos pela Associação de Amizade Internacional “A Criança”.

Jornal de Notícias, 9-3-1980

Digam lá: não me acham elegante com as minhas duas bossas castanho-acinzentadas? Acham que sou vaidosa? Talvez, mas sou senhora do meu focinho. E a propósito, caros primos e primas, vou contar-lhes uma história aborrecida.
Ontem, estava eu muito sossegada, a apanhar sol nas bossas, aqui junto à minha casa no zoo, quando dois homens de aspecto rude chegaram com umas cordas e disseram:
— Anda daí, Zeide, vais hoje dar um belo passeio pelas ruas da cidade.
— Não há como ser animal de jardim zoológico: sem preocupações, comidinha sempre a horas… — acrescentou o outro. — Quem me dera também poder ir passear.
— Isso é que era bom! — retorquiu o primeiro com ar fatigado. — Passa-se a vida a trabalhar. Quase não há tempo para um passeiozito e os transportes, ainda por cima, estão caros. Nem ao domingo, que é dia de consertar alguma coisa estragada lá por casa ou de fazer uns biscates aqui e ali.
Eu estava interessada em tudo menos naquelas lamentações ou em ir passear pela cidade num dia de sol tão bonito como o de ontem. Se ainda fosse para dar uma volta pelas areias quentinhas e macias dos desertos do meu país! Não acham, primos?
Mas não. Meteram-me num camião e lá fui aos solavancos para um lugar aqui perto, a que ouvi chamar S. Domingos de Benfica. Bem fica? Bem é que não fiquei!
Quando chegámos, havia um magote de gente à espera. Alguém puxou pela corda que me tinham amarrado ao pescoço e logo várias pessoas me rodearam, aos saltos e aos berros. Impossíveis, estes humanos! Todos a falar ao mesmo tempo, além de passarem a vida a empurrar-se uns aos outros. O que eu tive de aguentar! Ora ouçam:
Penduraram-me nas bossas uns grandes cartões com uns dize¬res de várias cores, mais umas fitas amarelas e encarnadas. E, para minha grande vergonha, puseram-me uma cartola presa com um elástico e obrigaram-me a ir para o meio da rua, feita macaco ou cavalo de circo — isto não desfazendo aqui no primo macaco e no primo cavalo… Lá fui fazer propaganda a uma associação qualquer, nem sei bem qual. Se ao menos fosse a Sociedade Protectora dos Animais… As crianças batiam palmas e riam à minha passagem.
— Aquele camelo com a cartola parece um palhaço! — gritava uma rapariguinha.
— O camelo é bom companheiro! O camelo é bom companheiro! — cantavam em coro dois miúdos.
— Pessoal, se a professora aqui estivesse, dizia logo, com ar de quem nos está a fazer um favor, que aproveitássemos bem, para depois contarmos tudo por escrito. — Isto proclamava um matulão, sem parar de dar palmadas nos costados dos colegas.
— E então? Aproveita. Pode ser que escrevas a melhor história da turma — comentou outro com ar de gozo.
Assim caminhei duas horas no meio de autocarros, automóveis e motorizadas, a aturar o chinfrim dos humanos, que riam, batiam palmas e me atazanavam os ouvidos. Enquanto isto, um carteirista aproveitava para palmar umas carteiras sem ninguém reparar. O que eu não daria para estar, naquele momento, deitada à sombra de uma palmeira, num oásis do meu país, sem ter de respirar o fumo de gasóleo e gasolina e de aguentar empurrões e barulheira!
Por fim, lá me levaram de volta para o camião, onde os dois homens me esperavam. E assim regressei, maldisposta e com dores de cabeça, a esta areia do zoo.
Fiquei mais exausta do que se tivesse feito uma caminhada de quilómetros pelo deserto — onde, ao menos, o ar é puro. Os fumos da cidade não se aguentam. Estou para entender como os homens conseguem. Antes este espacinho meu, aqui no zoo, entre árvores e palmeiras, do que as ruas irrespiráveis do centro da cidade.
Olhem, ao menos que o matulão tenha aproveitado o episódio para fazer o tal escrito.
Quanto a mim, espero nunca mais ter de lhes contar outra triste aventura como esta.
E agora, primos, vou beber uma aguinha fresca, desentorpecer as pernas e depois estender-me à sombra da minha palmeira favorita. Ainda me não recompus.

João Pedro Mésseder

José António Gomes (org.)
Um Bosque de Palavras
Porto, Porto Editora, 2006

Animais: com que direito lhes negamos direitos? – cont.

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

Anterior: Animais: com que direito lhes negamos direitos?

É preciso não esquecer, lembram os gratos cientistas, que é pelo holocausto destes animais e de todos os que os antecederam que tantos medicamentos foram lançados no mercado, tantas doenças incuráveis deixaram de o ser. É graças à morte atroz de milhares de cães, por exemplo, e é só um dos muitos exemplos possíveis, que os diabéticos dispõem hoje da insulina. Se não fossem os animais de laboratório, onde treinariam os cirurgiões as novas técnicas de cirurgia? Que seria dos transplantes? E, já agora, que seria da segurança automóvel não fora a insistência nos “crash-tests” com animais vivos?

Que seria do conhecimento dos danos cerebrais humanos se não fosse possível infligir, em circunstâncias rigorosamente controladas, pancadas brutais, com máquinas, martelos ou outros instrumentos menos sofisticados, na cabeça de babuínos supostamente anestesiados que, entre cada golpe, procuram fugir das amarras que os prendem?

Como se avançaria na psicologia humana e no estudo do autismo e outros fenómenos misteriosos da psique caso não fosse possível manter chimpanzés (animais muito inteligentes e sensíveis, tão parecidos connosco) em absoluta solidão, do nascimento à morte, para ver que tipo de loucura desenvolvem?

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No fim da experiência, terminada a utilidade do sofrimento, este gato deverá ser morto. De forma humana, claro.

Depois, há outras necessidades, talvez menos vitais mas nem por isso menos evidentes. A utilização de produtos de origem animal no vestuário, quer implicando a morte dos animais quer não – é o caso da lã –, é tão antiga como o Homem. Como é antigo o uso de armadilhas, cada vez mais sofisticadas à medida que a tecnologia progride, cada vez mais perfeitas no seu cuidado de não danificar nenhuma parte relevante do animal.

Fotografias e filmes, mais uma vez, atestam a forma como as mandíbulas de aço das armadilhas modernas aprisionam os animais – raposas, arminhos, texugos – sem os matar, numa agonia de horas, dias, até que o caçador apareça para o golpe de misericórdia. Ou como nas quintas de criação de animais para aproveitamento de peles se electrocutam, gaseiam ou asfixiam os visons, chinchilas, etc, de modo a não arruinar nem um pêlo da preciosa mercadoria, a mesmíssima preocupação que obriga os caçadores de focas bebés a espancá-las até à morte. Podia pensar-se que o fazem por prazer; pois não, é mesmo necessário.

Mas, é claro, há também o divertimento. Os espectáculos com animais, da tradicional tourada ao tradicional circo, passando pelas tradicionais corridas de cavalos, cães, etc. Para não falar da luta de galos, dos duelos de cães, ou de certos costumes pouco compreendidos no Ocidente que consistem em torneios de cavaleiros a disputar um cabra, por exemplo, ou a ver qual é que consegue, passando a galope, arrancar a cabeça a um galo pendurado pelos pés. O espantoso arquivo das organizações internacionais de defesa dos animais não deixa nada em claro.

Eis a incursão nos bastidores do circo, por exemplo, para descobrir, do outro lado das habilidades demonstradas em palco, os imprescindíveis treinos à base de chicote, paulada e aguilhões. Mas como será que, a bem, se ensina um elefante a caminhar nas patas traseiras? Ou um tigre a saltar um arco em chamas? Com muito amor? Decerto. O mesmo amor aos animais que leva toda a gente a adorar uma ida ao Zoo, onde animais habituados a percorrer dezenas de quilómetros num dia se vêem confinados a algumas dezenas de metros (se tiverem sorte) ou a uma jaula de três por quatro, chão de cimento, paredes de azulejo, talvez mesmo sem luz natural.

Segue: E não há leis?

Matar por luxo

Micheal Bright
Natureza em perigo – Matar por luxo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

Introdução

O Homem sempre matou animais. Tradicionalmente, matava por necessidade alimentar e de vestuário, mas o esqueleto do animal também proporcionava utensílios domésticos, joalharia e outros ornamentos. Nada era desperdiçado. Hoje em dia, vários milhões de animais são mortos, todos os anos, não para fornecer a comida necessária à sobrevivência, mas para abastecer o lucrativo mercado do luxo. Alguns animais são abatidos para serem usados em símbolos de uma posição social abastada ou para favorecer uma imagem de virilidade; mas que preço pagam os animais, para satisfazer esta vaidade humana? Alguns animais são retirados do seu habitat e criados em cativeiro, exclusivamente por causa da sua pele, do seu pêlo ou do aroma que produzem. Será uma maneira aceitável de obter um produto animal? Em certos casos, é o próprio acto de matar que se torna um luxo.

Muitos dos animais comerciados no mercado dos artigos de luxo foram de tal modo reduzidos em número que estão ameaçados de extinção. Manifestamente, têm de ser protegidos. Mas, por vezes, surge um dilema: quem deverá ter prioridade? Os povos nativos que precisam de matar para sobreviver, ou as espécies raras? Para controlar o comércio mundial de produtos animais, foi assinada em Washington, em 1973, a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies de Fauna e Flora Ameaçadas. Todavia, apesar disso, muitas espécies são abatidas e comerciadas ilegalmente. Algumas, tais como elefantes e rinocerontes, correm perigo de desaparecer totalmente. A marta marinha, caçada por causa da pele, extinguiu-se. Quantas mais espécies desaparecerão antes de nos convencermos de que a matança tem de parar?


Durante as primeiras seis semanas de vida, a cria da foca-da-Gronelândia apresenta uma pelagem extremamente apreciada. Todos os anos, dezenas de milhares de crias eram espancadas até à morte por caçadores comerciais da Terra Nova e da Noruega. Em 1968, uma manifestação pública de repúdio conduziu, eventualmente, à proibição de importação de peles de foca, por parte dos países da CEE. Essa proibição praticamente eliminou o mercado.


Os Esquimós (Inuit) também matam focas por causa da pele. Parte da sua subsistência depende dessa caça tradicional. Porém, como a caça é considerada cruel, têm sido feitos apelos para que lhe seja posto fim.


A caça às peles

Por trás da fachada elegante da indústria de peles, que movimenta rios de dinheiro, está a triste realidade da matança. Todos os anos, milhões de animais, apanhados em armadilhas, sofrem uma morte lenta e dolorosa. Ficam presos pelas patas, pescoço ou tronco, em armadilhas de metal ou nós corredios. Os animais permanecem na ratoeira cerca de 15 horas, antes de serem estrangulados ou mortos à paulada. Um lince-do-Alasca esteve com a pata presa numa armadilha durante seis semanas. Conseguiu manter-se vivo tanto tempo porque outros animais do seu grupo familiar lhe levavam comida. As armadilhas são cegas. Muitos outros animais, tais como águias, corujas, cisnes e animais domésticos, são apanhados, mortos e rejeitados. Na gíria do comércio, estes animais são “lixo”.

Nas terras confinantes com o Árctico, as pessoas dependem da caça às peles como meio de subsistência. Muitas temem que uma proibição do uso de armadilhas possa afectar gravemente os índios canadianos isolados e as comunidades Inuit desta área. Outras acham que a utilização de armadilhas se justifica porque mantém sob controlo a população de animais produtores de peles.

Alguns países condenam o uso de armadilhas e, contudo, importam peles. Por exemplo, dos milhões de peles importadas pela Grã-Bretanha todos os anos, muitas delas são de animais selvagens apanhados por armadilhas de guindaste, mecanismos que foram banidos na Grã-Bretanha, em 1965, depois de um relatório do governo as ter descrito como “instrumentos diabólicos que causam um sofrimento incalculável”.

A moda das peles

Nos Estados Unidos, apesar das campanhas contra a caça às peles, o comércio retalhista triplicou durante a última década, envolvendo dois biliões de dólares. A moda masculina é responsável por grande percentagem desse aumento. Cada vez mais pessoas têm possibilidades de comprar peles verdadeiras e caras e não têm problemas morais em fazê-lo.

A armadilha mais utilizada nos E.U.A. é o guindaste para aprisionar os animais pelas patas. As mandíbulas de metal soltam-se e cerram-se quando o animal pisa o mecanismo de disparo. É como se a porta de um carro se fechasse sobre a nossa mão. Frequentemente, a carne da pata do animal é cortada e o osso partido. Às vezes, o animal, rói a própria pata, numa tentativa para se libertar.


Milhares de raposas são mortas, em toda a Europa. Muitas são apanhadas em armadilhas e envenenadas ilegalmente pelos chamados “bicheiros”. Por engano, são apanhados muitos texugos, que são animais protegidos.


Criação de animais de pêlo

A maioria das peles não provém de animais selvagens, mas sim de “fazendas” de criação de peles onde grandes quantidades de animais, como a marta, a zibelinha e a raposa, são criadas em pequenas jaulas. A criação de animais de pêlo é um grande negócio. Na Finlândia, por exemplo, existem 6.500 “fazendas” destas. As maiores produzem mais de 46.000 peles de raposa e 500.000 de marta, anualmente.

Na última década, a produção quadruplicou, apesar das pressões exercidas pelos apoiantes das campanhas contra o uso de peles. O facto é que, na maior parte do mundo, um verdadeiro casaco de peles ainda é considerado um símbolo de posição social. No Texas, vêem-se pessoas a usar peles caríssimas, mesmo em dias quentes de Verão. Nas regiões do Norte, contudo, as peles ainda são consideradas a melhor protecção contra o frio.

Os criadores de animais de pêlo acham que a sua actividade constitui o aspecto aceitável da indústria de peles. Advogam que os seus animais gozam de excelente saúde e vivem em boas condições. Se assim não fosse — dizem — as peles adquiririam mau aspecto e perderiam valor.

Os animais são mantidos em jaulas pequenas com fundo de arame e não lhes é permitido saírem delas, pois os criadores temem que os animais sujem ou danifiquem as peles, caso os deixassem à solta. Não obstante, as peles acabam por ser danificadas devido a lutas, contaminação pela urina ou má nutrição, o que origina enormes perdas financeiras para as “fazendas”. Nem sequer os animais confinados a jaulas permanecem intactos. As martas são agressivas e mordem-se umas às outras. Por vezes, são vítimas de canibalismo.


Nunca consegui realmente entender a ideia de que vestir a pele de um animal morto seja atraente. Não tenho absolutamente vontade nenhuma de usar peles e nunca possuí alguma. Gostaria sempre mais de ver a pele no próprio animal.


Marie Helvin, Modelo


Por exemplo, as marta das “fazenda” são mortas por gaseamento, injecções letais ou electrocussão. Afirma-se que a morte é imediata, mas isso não foi ainda provado.


A Vicunhas são uma espécie de lama e encontram-se no Chile e no Peru. Em tempos eram abundantes, mas o seu número foi consideravelmente reduzido depois de os invasores espanhóis as terem começado a matar por causa da sua lã, extremamente apreciada. Os Incas (o povo que habitava o Peru, antes da chegada dos Espanhóis) tosquiavam as vicunhas sem as matar. Actualmente, a caça e abate de vicunhas para extracção de lã está proibida. Pelo contrário, as manadas são levadas para ranchos protegidos, nas montanhas.


Na linha de fogo

Muitos dos grandes predadores da natureza transformaram-se em vítimas. Os caçadores furtivos abatem a tiro, capturam com armadilhas e envenenam alguns dos animais mais raros do mundo, apenas para fornecer casacos de peles exclusivos para o mercado do luxo. As peles dos felinos malhados, por exemplo, atingem altos preços e isso encoraja a caça ilegal. Por vezes, o comércio legal ainda piora as coisas. É permitida a venda de peles de espécies protegidas, declaradas antes da introdução de restrições. Este comércio legal muitas vezes esconde a caça furtiva e transacções ilegais. Por exemplo, vários felinos malhados da Índia, tais como o leopardo das neves — “Uncia uncia”, são ilegalmente abatidos por membros de tribos nómadas. Os animais são abatidos nos Himalaias e as suas peles são contrabandeadas em Kashmir, ou vendidas com peles legalmente adquiridas. Posteriormente são traficadas na Europa e no Japão.

Noutras partes do mundo, os ursos polares, lobos, cangurus, tigres, focas e zebras, perdem as suas peles em favor dos caçadores. Até as peles do extremamente raro panda gigante, o próprio símbolo da conservação, têm sido descobertas no comércio ilegal que se efectua desde a China até Taiwan.

Todos os anos, os mercados legais de peles da Europa transaccionam 700.000 peles de animais selvagens, sendo dois terços constituídos por peles de pequenos felinos malhados. O mercado ilegal poderá ter dimensões maiores. Os comerciantes descobriram mil e uma maneiras de dissimular a fonte e o destino das peles ilegais, canalizando-as para terceiros países onde lhes são facultados documentos de comércio internacional legalizado. Este processo é chamado “lavagem”.

Outros modos de enganar o sistema incluem declarações falsas dos nomes das espécies, do país de origem e do fim a que se destina a importação. Há alguns anos, um grande carregamento de peles de chita foi interceptado no aeroporto Kai Tak, de Hong Kong, num voo vindo da Suíça. A remessa estava etiquetada como “marca italiana”.

Já não comemos os miolos de outras pessoas para adquirir sabedoria; seremos ainda tão primitivos que tenhamos de usar peles de animais para alcançar a beleza?

Joanna Lumley, actriz e escritora

A chita é ainda é um alvo da caça ilegal. Restam cerca de 25.000; contudo, todos os anos são comerciadas 5.000 peles.

Muitos dos felinos malhados estão inteiramente protegidos, o que não impede que casacos sejam feitos com as suas peles. Estão à venda peles de leopardo da África e da China, de pantera nebulosa da Ásia, de ocelote, jaguar, gato marsupial e margaí da América do Sul. Todas elas se podem encontrar nas lojas elegantes de Munique e Tóquio. Um ano após a proibição de peles de felinos malhados do Paraguai para a Alemanha Ocidental, foram transaccionadas 95.000 peles.

PERFIL…

Os grandes felinos

Os grandes felinos (leão, tigre, leopardo, jaguar, leopardo das neves, pantera nebulosa e chita) e os pequenos felinos (lince, gato-selvagem, puma, ocelote e várias espécies, tais como o serval e o caracal) são todos carnívoros. São predadores famosos, no topo das suas cadeias alimentares, e quase só o homem é que os abate. Contudo, a matança em larga escala de tigres e ocelotes e o comércio das suas peles malhadas quase os levaram à extinção. Como resultado disso, o tigre tornou-se uma espécie protegida, em 1972. Desde então, o seu número voltou a aumentar.

O leopardo

Os leopardos machos podem atingir 1,90 m de comprimento, têm uma cauda de 1 m e pesam cerca de 90 kg. As fêmeas atingem cerca de metade do tamanho. Vivem cerca de 12 anos em liberdade e até 20 anos em cativeiro.

O leopardo espalha-se pelo Sul da Ásia e em África, o que o torna no membro mais vastamente distribuído da família dos Felídeos. Os leopardos caçam durante a noite, atacando a presa de emboscada ou seguindo-a silenciosamente, de muito perto. A presa é levada para uma árvore, onde fica fora do alcance de leões e hienas.

A cor e o padrão da pele dos leopardos varia conforme o habitat. A base da cor de fundo é o castanho, o cinzento ou o amarelo-dourado, com círculos mais escuros ou laçadas.

O lince

O lince adulto pode atingir mais de 1 m e pesar cerca de 38 kg. Vivem 12 a 15 anos. Os gatos-selvagens da América do Norte diferem do lince por terem malhas escuras, patas nuas e não possuírem tufos de pêlos nas orelhas.

A cor castanho-acinzentada do lince permite-lhe confundir-se com a cor de fundo de uma densa floresta de coníferas.

Vive nas latitudes setentrionais da Escandinávia, no Norte da Ásia e na América do Norte. Com as patas compridas, consegue caminhar na neve alta. As patas são protegidas por pele espessa. Possui tufos de pêlos nas orelhas.

O leopardo das neves

O leopardo das neves vive nas montanhas do Sul da Ásia. Tem pêlo espesso e comprido. Sabe-se pouco sobre os seus hábitos. É noctívago, solitário e tímido.

Os exemplares grandes atingem 1,30 m de comprimento e a cauda mede 1 m. Pesa cerca de 75 kg. Vivem cerca de 15 anos em cativeiro. Também é conhecido por pantera da montanha.

Segue: Despojados da pele

Despojados da pele

Micheal Bright
Natureza em perigo – Matar por luxo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

Anterior: Matar por luxo

Despojados da pele

As vacas e os porcos não são os únicos animais utilizados para fornecer couro. As cobras, crocodilos, cangurus, caimões, lagartos e tubarões são chacinados e as suas peles são transformadas em vestuário e calçado de moda. Parte desse comércio é ilegal; mas grande parte dele não o é. Em 1986, El Salvador exportou 134.000 peles de caimão, apesar de ter uma população de caimões de apenas 10.000 animais. As peles “extra” foram de países onde existem restrições ao comércio, tais como o Panamá e a Colômbia.

O abate de caimões tornou-se semelhante a uma operação militar. Helicópteros-canhoneiras sobrevoam lagos e rios remotos, à noite. Holofotes localizam os animais, que são atingidos entre os olhos para não marcar as peles. No dia seguinte, os corpos são recolhidos. Estas actividades são ilegais, mas, infelizmente, os caçadores furtivos estão mais bem organizados do que os serviços de fiscalização do governo.

Um problema que surge com a tentativa de restringir o comércio de peles de répteis é que os países consumidores pactuam para ignorar os controlos internacionais. Os principais importadores de peles de répteis (França, Japão, Itália e Alemanha Ocidental) recebem milhões de peles, por ano, principalmente oriundas da Ásia e da América do Sul.

Alguns países iniciaram a criação de crocodilos, para satisfazer a procura de artigos de couro de crocodilo. Porém, os conservacionistas argumentam que o comércio encoraja o abate ilegal de animais selvagens. Quando se trata de fiscalizar o comércio, como é que as autoridades alfandegárias distinguem uma pele de animal criado em cativeiro da pele de um animal ilegalmente caçado sabe-se lá onde? A solução dada pela Nova Guiné é a etiquetagem das peles “de cultivo”.

Os tubarões fornecem o couro mais resistente que se conhece. Muitos são apanhados por pescadores mexicanos que enviam as peles secas para os Estados Unidos, para serem curtidas. No passado, o couro era usado por fabricantes de mobiliário para esfregar a madeira, e pelos esgrimistas no punho das espadas, para que as mãos não escorregassem com o sangue. Hoje utiliza-se para fabricar sapatos de qualidade e botas de vaqueiro. O comércio não tem restrições e ainda existem muitos tubarões no mar. A pesca intensiva poderia dizimar toda uma estirpe.

É moralmente inaceitável o abate deliberado de qualquer criatura viva — do crustáceo ao elefante — não sendo motivado pela fome, frio ou necessidades de saúde, mas tão-somente pelo luxo.

Richard Adams, autor de “Watership Down”

A pele de varano-malaio é passada clandestinamente do Bangladesh, Indonésia e Paquistão para o Japão. As peles de cobra também são populares, embora o padrão distinto da pitão seja facilmente descoberto pelos funcionários das alfândegas. Numa encomenda de 400 latas de caju, destinada a Singapura e originária da Índia, apenas 140 latas continham caju. As restantes continham peles de cobras, no valor de um milhão e seiscentos mil dólares.

PERFIL…

Crocodilos

Os crocodilos, aligátores, caimões e gaviais passaram pelas grandes extinções que fizeram desaparecer os dinossauros, há cerca de 65 milhões de anos. Sobreviveram, praticamente inalterados. Todavia, em apenas 100 anos, o homem quase conseguiu dizimá-los. Os crocodílidas possuem cérebros grandes. Além de mostrarem um comportamento instintivo, também são capazes de aprender. São predadores aquáticos bem adaptados, com os olhos e as narinas colocados no cimo da cabeça, o que lhes possibilita ver e respirar à superfície, com o corpo submerso.

O caimão-de-lunetas

O caimão sul-americano pode atinge mais de dois metros, desde o focinho até à extremidade da cauda. Vive nas bacias hidrográficas do Amazonas e do Orenoco. Cresce cerca de 30 cm por ano e pode viver de 75 a 100 anos, se o homem deixar.

O caimão-de-lunetas é assim denominado por causa da saliência córnea que une as órbitas oculares e que se assemelha à trave de um par de óculos. Um caimão adulto alimenta-se de gigantescos caracóis aquáticos, piranhas e qualquer outro animal que lhe surja no caminho. O caimão passa o dia escondido nos juncais ou estendido ao sol, nas margens dos rios. À noite, caça. Os exploradores contam os caimões, à noite, com uma lanterna, localizando os reflexos dos olhos do animal. Dos dois milhões de peles de crocodilos legalmente comerciadas todos os anos, três quartos são de caimão-de-lunetas. Outro milhão de peles sai ilegalmente do Paraguai, Bolívia e Brasil. A maior parte das peles é enviada para Itália, onde são transformadas em bolsas e carteiras dispendiosas.

O crocodilo-do-Nilo

Atinge cerca de 6,5 m de comprimento e pesa cerca de 1080 kg. Em liberdade, vive mais de 50 anos. Sabe-se de crocodilos que vivem mais de 100 anos. Os crocodilos-do-Nilo são responsáveis por muitas mortes.

O crocodilo-do-Nilo vive nas margens dos rios, em toda a parte de África. A fêmea do crocodilo enterra os ovos na areia e vigia o ninho enquanto os ovos incubam. Os crocodilos-bebés saem do ovo e apelam para a mãe, para os desenterrar. Depois, ela transporta-os, na boca, para a água. Durante os primeiros três meses, vivem em “infantários” em águas estagnadas. Se ameaçados, a mãe solta um grunhido e, todos ao mesmo tempo, mergulham na água.

Segue: Beleza e crueldade

Beleza e crueldade

Micheal Bright
Matar por luxo
colecção Natureza em perigo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

Anterior: Despojados da pele

Beleza e crueldade

A vida selvagem sempre proporcionou aos humanos os ingredientes para medicamentos, poções, perfumes e cosméticos. Milhões de animais morreram devido à crença de que partes dos seus corpos possuíam propriedades mágicas que possibilitavam a cura de doenças, a cicatrização de feridas ou melhoria da aparência. Ainda hoje se buscam essas propriedades. A tradição é difícil de mudar, especialmente quando estão envolvidos grandes lucros.

Os cosméticos de luxo constituem um grande negócio em todo o mundo. Porém, cada vez mais, há uma forte «pressão pública contra a exploração de animais com objectivos frívolos. Muita gente considera inaceitável tal utilização dos animais, particularmente agora que os produtos sintéticos podem substituir os de origem animal. Uma bem sucedida companhia de cosméticos criou toda uma gama sem utilizar produtos de origem animal e sem testar os seus produtos em animais.

Um animal apanhado pelo conflito entre conservação da vida selvagem e a indústria de cosméticos é o veado-almiscarado macho. Os caçadores furtivos matam este animal por causa da glândula de almíscar, que contém um dos mais valiosos produtos de origem animal. A glândula é retirada e seca. Algumas são utilizadas para perfumes, embora existam produtos substitutos. As restantes são para utilização medicinal — bebidas “energéticas”, tónicos para crianças, sedativos para o tratamento da asma e epilepsia, estimulantes para a bronquite e pneumonia e afrodisíaco. Na Índia, os médicos tradicionais utilizam-na como estimulante cardíaco e nervoso, eficaz e para tratamento de mordeduras de cobras. Os animais têm sido criados em cativeiro e as suas glândulas “mungidas”, mas as secreções obtidas deste modo são de qualidade inferior. O abate do veado-almiscarado, para alimentar o comércio de almíscar, ameaça a sobrevivência do animal.


Muitas são as pessoas que exigem que se ponha termo aos testes de cosméticos com utilização de animais e ao abate dos mesmos para obtenção de matérias-primas. Os veados-almiscarados têm sido particularmente afectados pela sua utilização na indústria de cosmética. Existentes na Sibéria, China e Tibete, os animais têm vindo a ser protegidos com mais rigor.

As lágrimas de crias de dugongos ou vacas-marinhas são vendido como elixir para atrair a sorte, e o sucesso no amor. As lágrimas das crias são recolhidas após o abate das mães.


Chifres e marfim

Em África e na Ásia, a caça furtiva já quase exterminou todas as cinco espécies de rinocerontes. Durante as duas últimas décadas, o seu número foi reduzido em 85%. O chifre, que é simplesmente cabelo emaranhado, é procurado pelos Yemeni para punhos de adagas e por fabricantes de remédios tradicionais do Extremo Oriente para fazer baixar a febre. Há quem o tome como afrodisíaco (uma poção que se diz aumentar o desejo sexual). Diz-se que vale o seu peso em ouro. Todavia, os testes mostraram que o chifre de rinoceronte não possui qualquer valor medicinal e não faz melhor do que roer unhas. Embora o corno do antílope saiga seja oferecido como substituto, a procura de corno de rinoceronte continua e o futuro da espécie apresenta-se sombrio.


Nalguns parques, os cornos dos rinocerontes mortos em lutas são retirados. O corno é armazenado pelo governo, para impedir que seja comerciado. Apesar destas precauções, alguns atingem o mercado. Um caçador furtivo recebe cerca de 100 dólares por quilo, enquanto que o mesmo corno, no lémen do Norte, poderá ser vendido a 600 dólares por quilo. Restam cerca de 11 000 rinocerontes em África e cerca de 3 000 na Ásia.


A extensão da carnificina e a natureza das atrocidades cometidas contra os animais são suficientemente assustadoras. Contudo, poucos parecem entender como este comércio degrada o próprio Homem.
É impossível não crer que o Homem é o mais repugnante, cruel e perigoso dos animais.

David Bellamy, Conservacionista


O marfim dos elefantes era tão valioso que, em alguns países, era usado como moeda corrente, em vez de dinheiro. Na procura de marfim, por exemplo, em África, grupos inteiros de elefantes são abatidos com armas automáticas muito aperfeiçoadas. Outros morrem lenta e dolorosamente, com setas envenenadas. Apenas os seus dentes têm valor — as carcaças, não desejadas, são deixadas a apodrecer.

Todos os anos, são comerciadas mais de 1 000 toneladas de dentes, o que representa 70 000 elefantes, muitos deles caçados ilegalmente na África Central. Grande parte do marfim é enviado para o Japão e Hong Kong onde é esculpido como curiosidade ou guardado como investimento. Se o elefante se extinguir, o preço elevado dos dentes subirá em flecha.


O Japão é o maior consumidor mundial de marfim. Nos últimos anos, muito do marfim importado tem sido de fraca qualidade. Como os elefantes selvagens diminuem, os caçadores furtivos matam qualquer animal que encontram, incluindo elefantes-bebés com dentes minúsculos. Em zonas de guerra, o marfim é oferecido em troca de armas.


Troféus e curiosidades

Na maior parte do mundo, incluindo a Europa e os EUA, os produtos provenientes de animais selvagens ainda são adquiridos como símbolos de posição social e exibidos nos lares para impressionar os amigos e vizinhos. Algumas pessoas procuram deliberadamente possuir partes de animais raros ou perigosos para satisfazer uma imagem de “homem-da-selva” ou de “Rambo”. Outras compram curiosidades inocentemente, sem se darem conta do sofrimento envolvido. As cabeças de gorilas, por exemplo, são cortadas, empalhadas e montadas. Frequentemente, é morto o macho dominante. Sem a sua influência, a estrutura do grupo quebra-se e o resto da família corre o risco de morrer também.

A gama destas curiosidades é bizarra e variada. Uma mão de gorila vira cinzeiro, uma pata de elefante transforma-se em assento, uma pele de tigre serve de tapete e um gato-selvagem empalhado ornamenta a mesa do café. Ornamentos mais pequenos são frequentemente vendidos como recordações, tais como uma argola para guardanapos revestida de pele de lagarto ou um colar de dentes de tubarão.

Por vezes, a necessidade de um produto proveniente de animais selvagens é justificada. A França reivindica a necessidade de importar grandes quantidades de carapaças de tartarugas para fabricação de óculos para as pessoas que são alérgicas aos produtos sintéticos. Porém, não será um disfarce para um mercado de luxo?

O comércio destes objectos é enorme. Só os EUA importam, legalmente, 130 milhões de artigos, por ano. Os oficiais das alfândegas dos EUA apreendem importações ilegais avaliadas em mais de 7 milhões de dólares. São os animais empalhados e as peles por curtir, os artigos de marfim, as conchas e os corais provenientes do Sudoeste asiático, Havai e Seychelles; são as borboletas de Taiwan, as esponjas do Mediterrâneo e das Caraíbas e as bolsas de pele de avestruz, criada em cativeiro, do Japão.


“Temos provas de que o contrabando de drogas e o comércio ilegal de vida selvagem são controlados pela mesma Mafia latino-americana”.

Manfred Niekisch, TRAFFIC (unidades de inspecção do comércio de vida selvagem) Alemanha Ocidental


Comida de luxo

Os Inuit, que têm uma grande possibilidade de escolha de alimentos para comer, arpoam as muito raras baleias-da-Gronelândia, armazenam a carne e comem-na no Dia de Acção de Graças e no Natal. Será que esta caça “tradicional” (utilizando armas de fogo modernas) é necessária à sua sobrevivência ou ter-se-á tornado um luxo? Os animais selvagens tornaram-se um dos principais ingredientes no comércio de comida exótica para gastrónomos enfastiados. A carne de baleia excita os palatos no Japão, Noruega e Islândia. Na Alemanha Ocidental, podem comprar-se vários animais exóticos nos talhos — elefante, tigre, puma, urso, pitão, crocodilo, tapir, leão, leopardo e palanca. Mais de 100.000 animais exóticos e frequentemente raros, destinados a especialidades gastronómicas, são contrabandeados da China para Hong Kong, todos os anos. Esta grande procura de comida invulgar custa caro à vida selvagem.

Em determinados restaurantes de luxo, em Macau e Hong Kong, os ricos podem impressionar os seus amigos com um banquete cruel e ilegal. Um macaco jovem é trazido para a mesa, forçado a ingerir álcool e encerrado numa jaula, com a cabeça saliente no cimo da jaula, que é colocada por baixo de uma mesa de jantar com um buraco no centro, por onde sai a cabeça do macaco. Então, são comidos os miolos com o animal ainda vivo.

Os Europeus e os Americanos consideram este ritual cruel, mas a sua concepção de crueldade não é universal. Culturas diferentes têm pontos de vista diferentes quanto ao modo de tratamento dos animais. As pessoas de culturas diversas da europeia e norte-americana poderão achar que cozer lagostas vivas ou comer patas de rã são coisas desnecessariamente cruéis ou podem alarmar-se com a pesca excessiva que pode conduzir à extinção de espécies inteiras.


As rãs actuam como agentes controladores da população de insectos nocivos. O país gasta largas somas na importação de insecticidas enquanto que, por outro lado, permite a matança ilimitada de rãs para exportação.

Professor Zakir Hossain, Universidade de Dacca


O “patê de foie gras” é feito com fígados de ganso anormalmente inchados. Os gansos são forçados a ingerir comida, para assegurar que os seus fígados adquiram o tamanho e a contextura adequadas. As pessoas discordam desta prática cruel, mas não argumentam contra uma outra especialidade francesa: as patas de rã, que são cortadas com o animal ainda vivo.


As tartarugas são criadas em viveiros por causa da sua carne. Para as manter frescas, são postas de patas para o ar durante várias horas. A maioria das espécies selvagens está ameaçada e argumenta-se que a criação em viveiros só serve para encorajar a caça furtiva de tartarugas selvagens.

Segue: Matar por luxo – Aves


Matar por luxo – Aves

Micheal Bright
Matar por luxo
Colecção “Natureza em perigo”
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

 

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Todas as aves do céu

As aves sempre foram exploradas como fonte de alimento. Na Europa, a caça de aves canoras era uma maneira tradicional de completar a dieta dos camponeses. O impacto exercido nas populações de aves não era grande. Actualmente, porém, muitas aves acabam por ir parar a restaurantes onde especialidades como “laverca em pickles” e “patê de tordo” têm grande procura, e a caça transformou-se em massacre. Todas as Primaveras são abatidas centenas de milhares de aves em migração de África para a Europa. São mortas a tiro, aprisionadas em armadilhas e apanhadas em poleiros untados com visco. A matança é indiscriminada, algumas vezes para alimento, outras apenas por diversão. A Espanha dá conta de 30 milhões de mortes por ano; a França e a Itália, 40 milhões cada. Malta, Chipre, Líbano, Portugal e Grécia também participam na matança.

No Sudoeste da França, a caça à rola mobiliza dezenas de milhares de caçadores. Colocam-se em plataformas elevadas e abatem uma por uma as rolas migradoras, desprezando as leis de proibição de selecção. Uma directiva da CEE sobre conservação de aves selvagens exige que os estados membros protejam todas as aves migratórias, mas um forte grupo de influência assegura que as proibições de caça ao longo do Mediterrâneo sejam ignoradas.

No passado recente, existem vários exemplos da matança de aves, em larga escala, ter conduzido à destruição das espécies. O pombo-selvagem norte-americano foi, provavelmente, a ave mais numerosa do globo. Centenas de milhões de aves prosperavam em bandos enormes que enchiam os céus. Foram implacavelmente caçados como fonte de alimento e por desporto, até que o último morreu, em 1914. Hoje em dia, a destruição dos habitais está a reduzir o número de muitas espécies. O abate indiscriminado pode conduzi-las à extinção.

Na minha opinião, a destruição intencional e descuidada da vida selvagem é uma ofensa não só contra a Natureza, mas também contra a civilização.

Bil Oddier, observador de aves

Os andorinhões da Malásia crescem em ninhos parcialmente construído com a saliva seca dos pais, ingrediente essencial de uma cara especialidade gastronómica: a sopa de ninhos de andorinha. É bastante frequente as crias serem desalojadas para se ficar com os ninhos. Então, são dilaceradas por insectos vorazes.

 

O caçador e as vítimas

Culturas diferentes têm atitudes variadas em relação ao abate da vida selvagem. Para algumas, é simplesmente uma fonte de alimento; para outras é um meio de enriquecer rapidamente ou de manter tradições importantes. Na América do Norte e no Norte da Europa, é pela pura excitação de matar, nos Estados Unidos o abate de ursos, lobos, veados e alces é um grande negócio. Na Escócia, os caçadores perseguem os veados machos por causa das suas armações — um desporto muito lucrativo. Não estão interessados na perseguição, muito menos sedutora, do veado fêmea. Em consequência disso, as manadas ficam desequilibradas, com demasiados veados em busca de comida. Mas os atiradores também criam animais de caça para os soltarem e abaterem. Este tipo de caça acontece, frequentemente, em grandes propriedades que preservam a área selvagem.

Nas opulentas Europa e América do Norte as espécies caçadas não estão, geralmente, ameaçadas; mas noutras partes do mundo, a caça de vida selvagem é um modo de vida necessário. Por que haveriam os pobres de se preocupar com a extinção de uma espécie, quando têm que se preocupar com a sua própria sobrevivência? Comerciantes sem escrúpulos, atraídos pelo dinheiro do Ocidente, tiram partido dessa situação difícil e encorajam o saque da vida selvagem. Até que os destinatários do saque compreendam o prejuízo causado para lhes satisfazer os caprichos e desejos, o mundo selvagem continuará a ser devastado.

Seguir o rasto de um veado, na floresta, e abatê-lo com arco e flecha exige perícia. Para algumas pessoas, a caça parece satisfazer uma necessidade primitiva de perseguir e matar. No Canadá, a época de caça às aves aquáticas migratórias é esperada por mais de 385.000 caçadores que pagam uma licença de 10 dólares. Assim, ajudam à conservação do ambiente, pois parte da cota vai para o “Habitat Selvagem do Canadá”.