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Beleza e crueldade

Micheal Bright
Matar por luxo
colecção Natureza em perigo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

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Beleza e crueldade

A vida selvagem sempre proporcionou aos humanos os ingredientes para medicamentos, poções, perfumes e cosméticos. Milhões de animais morreram devido à crença de que partes dos seus corpos possuíam propriedades mágicas que possibilitavam a cura de doenças, a cicatrização de feridas ou melhoria da aparência. Ainda hoje se buscam essas propriedades. A tradição é difícil de mudar, especialmente quando estão envolvidos grandes lucros.

Os cosméticos de luxo constituem um grande negócio em todo o mundo. Porém, cada vez mais, há uma forte «pressão pública contra a exploração de animais com objectivos frívolos. Muita gente considera inaceitável tal utilização dos animais, particularmente agora que os produtos sintéticos podem substituir os de origem animal. Uma bem sucedida companhia de cosméticos criou toda uma gama sem utilizar produtos de origem animal e sem testar os seus produtos em animais.

Um animal apanhado pelo conflito entre conservação da vida selvagem e a indústria de cosméticos é o veado-almiscarado macho. Os caçadores furtivos matam este animal por causa da glândula de almíscar, que contém um dos mais valiosos produtos de origem animal. A glândula é retirada e seca. Algumas são utilizadas para perfumes, embora existam produtos substitutos. As restantes são para utilização medicinal — bebidas “energéticas”, tónicos para crianças, sedativos para o tratamento da asma e epilepsia, estimulantes para a bronquite e pneumonia e afrodisíaco. Na Índia, os médicos tradicionais utilizam-na como estimulante cardíaco e nervoso, eficaz e para tratamento de mordeduras de cobras. Os animais têm sido criados em cativeiro e as suas glândulas “mungidas”, mas as secreções obtidas deste modo são de qualidade inferior. O abate do veado-almiscarado, para alimentar o comércio de almíscar, ameaça a sobrevivência do animal.


Muitas são as pessoas que exigem que se ponha termo aos testes de cosméticos com utilização de animais e ao abate dos mesmos para obtenção de matérias-primas. Os veados-almiscarados têm sido particularmente afectados pela sua utilização na indústria de cosmética. Existentes na Sibéria, China e Tibete, os animais têm vindo a ser protegidos com mais rigor.

As lágrimas de crias de dugongos ou vacas-marinhas são vendido como elixir para atrair a sorte, e o sucesso no amor. As lágrimas das crias são recolhidas após o abate das mães.


Chifres e marfim

Em África e na Ásia, a caça furtiva já quase exterminou todas as cinco espécies de rinocerontes. Durante as duas últimas décadas, o seu número foi reduzido em 85%. O chifre, que é simplesmente cabelo emaranhado, é procurado pelos Yemeni para punhos de adagas e por fabricantes de remédios tradicionais do Extremo Oriente para fazer baixar a febre. Há quem o tome como afrodisíaco (uma poção que se diz aumentar o desejo sexual). Diz-se que vale o seu peso em ouro. Todavia, os testes mostraram que o chifre de rinoceronte não possui qualquer valor medicinal e não faz melhor do que roer unhas. Embora o corno do antílope saiga seja oferecido como substituto, a procura de corno de rinoceronte continua e o futuro da espécie apresenta-se sombrio.


Nalguns parques, os cornos dos rinocerontes mortos em lutas são retirados. O corno é armazenado pelo governo, para impedir que seja comerciado. Apesar destas precauções, alguns atingem o mercado. Um caçador furtivo recebe cerca de 100 dólares por quilo, enquanto que o mesmo corno, no lémen do Norte, poderá ser vendido a 600 dólares por quilo. Restam cerca de 11 000 rinocerontes em África e cerca de 3 000 na Ásia.


A extensão da carnificina e a natureza das atrocidades cometidas contra os animais são suficientemente assustadoras. Contudo, poucos parecem entender como este comércio degrada o próprio Homem.
É impossível não crer que o Homem é o mais repugnante, cruel e perigoso dos animais.

David Bellamy, Conservacionista


O marfim dos elefantes era tão valioso que, em alguns países, era usado como moeda corrente, em vez de dinheiro. Na procura de marfim, por exemplo, em África, grupos inteiros de elefantes são abatidos com armas automáticas muito aperfeiçoadas. Outros morrem lenta e dolorosamente, com setas envenenadas. Apenas os seus dentes têm valor — as carcaças, não desejadas, são deixadas a apodrecer.

Todos os anos, são comerciadas mais de 1 000 toneladas de dentes, o que representa 70 000 elefantes, muitos deles caçados ilegalmente na África Central. Grande parte do marfim é enviado para o Japão e Hong Kong onde é esculpido como curiosidade ou guardado como investimento. Se o elefante se extinguir, o preço elevado dos dentes subirá em flecha.


O Japão é o maior consumidor mundial de marfim. Nos últimos anos, muito do marfim importado tem sido de fraca qualidade. Como os elefantes selvagens diminuem, os caçadores furtivos matam qualquer animal que encontram, incluindo elefantes-bebés com dentes minúsculos. Em zonas de guerra, o marfim é oferecido em troca de armas.


Troféus e curiosidades

Na maior parte do mundo, incluindo a Europa e os EUA, os produtos provenientes de animais selvagens ainda são adquiridos como símbolos de posição social e exibidos nos lares para impressionar os amigos e vizinhos. Algumas pessoas procuram deliberadamente possuir partes de animais raros ou perigosos para satisfazer uma imagem de “homem-da-selva” ou de “Rambo”. Outras compram curiosidades inocentemente, sem se darem conta do sofrimento envolvido. As cabeças de gorilas, por exemplo, são cortadas, empalhadas e montadas. Frequentemente, é morto o macho dominante. Sem a sua influência, a estrutura do grupo quebra-se e o resto da família corre o risco de morrer também.

A gama destas curiosidades é bizarra e variada. Uma mão de gorila vira cinzeiro, uma pata de elefante transforma-se em assento, uma pele de tigre serve de tapete e um gato-selvagem empalhado ornamenta a mesa do café. Ornamentos mais pequenos são frequentemente vendidos como recordações, tais como uma argola para guardanapos revestida de pele de lagarto ou um colar de dentes de tubarão.

Por vezes, a necessidade de um produto proveniente de animais selvagens é justificada. A França reivindica a necessidade de importar grandes quantidades de carapaças de tartarugas para fabricação de óculos para as pessoas que são alérgicas aos produtos sintéticos. Porém, não será um disfarce para um mercado de luxo?

O comércio destes objectos é enorme. Só os EUA importam, legalmente, 130 milhões de artigos, por ano. Os oficiais das alfândegas dos EUA apreendem importações ilegais avaliadas em mais de 7 milhões de dólares. São os animais empalhados e as peles por curtir, os artigos de marfim, as conchas e os corais provenientes do Sudoeste asiático, Havai e Seychelles; são as borboletas de Taiwan, as esponjas do Mediterrâneo e das Caraíbas e as bolsas de pele de avestruz, criada em cativeiro, do Japão.


“Temos provas de que o contrabando de drogas e o comércio ilegal de vida selvagem são controlados pela mesma Mafia latino-americana”.

Manfred Niekisch, TRAFFIC (unidades de inspecção do comércio de vida selvagem) Alemanha Ocidental


Comida de luxo

Os Inuit, que têm uma grande possibilidade de escolha de alimentos para comer, arpoam as muito raras baleias-da-Gronelândia, armazenam a carne e comem-na no Dia de Acção de Graças e no Natal. Será que esta caça “tradicional” (utilizando armas de fogo modernas) é necessária à sua sobrevivência ou ter-se-á tornado um luxo? Os animais selvagens tornaram-se um dos principais ingredientes no comércio de comida exótica para gastrónomos enfastiados. A carne de baleia excita os palatos no Japão, Noruega e Islândia. Na Alemanha Ocidental, podem comprar-se vários animais exóticos nos talhos — elefante, tigre, puma, urso, pitão, crocodilo, tapir, leão, leopardo e palanca. Mais de 100.000 animais exóticos e frequentemente raros, destinados a especialidades gastronómicas, são contrabandeados da China para Hong Kong, todos os anos. Esta grande procura de comida invulgar custa caro à vida selvagem.

Em determinados restaurantes de luxo, em Macau e Hong Kong, os ricos podem impressionar os seus amigos com um banquete cruel e ilegal. Um macaco jovem é trazido para a mesa, forçado a ingerir álcool e encerrado numa jaula, com a cabeça saliente no cimo da jaula, que é colocada por baixo de uma mesa de jantar com um buraco no centro, por onde sai a cabeça do macaco. Então, são comidos os miolos com o animal ainda vivo.

Os Europeus e os Americanos consideram este ritual cruel, mas a sua concepção de crueldade não é universal. Culturas diferentes têm pontos de vista diferentes quanto ao modo de tratamento dos animais. As pessoas de culturas diversas da europeia e norte-americana poderão achar que cozer lagostas vivas ou comer patas de rã são coisas desnecessariamente cruéis ou podem alarmar-se com a pesca excessiva que pode conduzir à extinção de espécies inteiras.


As rãs actuam como agentes controladores da população de insectos nocivos. O país gasta largas somas na importação de insecticidas enquanto que, por outro lado, permite a matança ilimitada de rãs para exportação.

Professor Zakir Hossain, Universidade de Dacca


O “patê de foie gras” é feito com fígados de ganso anormalmente inchados. Os gansos são forçados a ingerir comida, para assegurar que os seus fígados adquiram o tamanho e a contextura adequadas. As pessoas discordam desta prática cruel, mas não argumentam contra uma outra especialidade francesa: as patas de rã, que são cortadas com o animal ainda vivo.


As tartarugas são criadas em viveiros por causa da sua carne. Para as manter frescas, são postas de patas para o ar durante várias horas. A maioria das espécies selvagens está ameaçada e argumenta-se que a criação em viveiros só serve para encorajar a caça furtiva de tartarugas selvagens.

Segue: Matar por luxo – Aves


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