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No refúgio dos ursos bailarinos

 

Notícias Magazine
21.Out.2007

No refúgio dos ursos bailarinos

 

Na ilha grega de Arkturos há um santuário especial. Um centro de acolhimento onde vivem trinta ursos, resgatados a tristes destinos: refugiados de guerra, confiscados a circos e a ciganos que os passeavam pelas ruas para mostrarem, os seus dotes de dançarinos.

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O centro de informação sobre os Ursos Castanhos, na ilha grega de Arkturos, na Macedónia Ocidental, recebe mais de trinta mil visitantes por ano. O grande objectivo é contribuir para uma maior consciencialização dos problemas ambientais e para a necessidade de preservar os animais selvagens e os seus habitats.

 

Em Arkturos foi criado um centro para recolher os ursos bailarinos (confiscados aos seus donos que lhes queimavam as patas para dar a impressão de dançarem) e outros, como ursos “refugiados de guerra” vindos do zoo de Belgrado, ou um urso preto americano resgatado de um circo. Um staff de profissionais voluntários cuida deles e do seu habitat.

 

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Há mais de 35 milhões de anos que os muito adaptáveis ursos castanhos conseguiam encontrar boas condições de vida em quase todo o continente europeu. Mas calcula-se que só nos últimos dois séculos a distribuição e a população de ursos castanhos tenha decrescido 60 e 50 por cento, respectivamente, conduzindo a uma dramática fragmentação daquela que sempre foi uma zona de habitat para este animais. Actualmente, os ursos castanhos sobrevivem em pequenas populações isoladas no Sudeste Europeu e foram oficialmente considerados uma espécie ameaçada. O contínuo declínio da população de ursos castanhos e a destruição dos seus habitais devem-se sobretudo a factores humanos. Nos últimos anos, a ilha grega de Arkturos tem-se empenhado activamente em salvar esta espécie.

A triste história da «dança»

urso-1.jpgOs ursos castanhos são muito populares na Grécia. Era frequente vê-los passear nas ruas, pelas trelas dos donos, geralmente ciganos, que os faziam dançar ao som dos batuques dos seus tambores. Só que esta «habilidade» tinha por detrás uma triste história: em bebés, os donos queimavam-lhes as patas da frente para que as levantassem e abanassem enquanto tocavam, dando assim a impressão de estarem a dançar. Em jovens e adultos, traumatizados pela experiência, os ursos levantavam e abanavam as patas sempre que ouviam os batuques.
Em 1969, esta prática foi proibida por lei. Mas havia um problema: as autoridades não podiam confiscar os ursos aos donos porque não tinham onde os guardar. E estes animais nunca conseguiriam sobreviver em estado selvagem. Os donos partiam-lhes os dentes para que não os mordessem e estão psicologicamente perturbados pela experiência da vida em cativeiro.

Refugiados de guerra

Em 1992, a ilha de Arkturos fomentou a criação de uma organização não governamental e sem fins lucrativos para proteger os ursos castanhos. A iniciativa rapidamente conseguiu o apoio de fundos privados e da União Europeia. Foi criado o Centro de Informação sobre os Ursos Castanhos e concebido um abrigo para acolher os ursos «bailarinos» e outros, como refugiados do Zoo de Belgrado, evacuado durante a guerra, e um urso preto americano resgatado a um circo. Hoje vivem no centro trinta ursos. Uma equipa de 16 pessoas, coadjuvada por quarenta associados ao projecto e mais quarenta voluntários, tratam dos animais e da preservação do seu habitat. O centro recebe mais de trinta mil visita por ano e desempenha um papel fulcral na consciencialização das pessoas. Porque a sobrevivência destes ou de quaisquer outros animais depende só de uma verdade muito simples: para que a vida no planeta continue, os seres humanos e os animais selvagens têm de saber «coabitar».

 

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Estes ursos seriam incapazes de sobreviver no estado selvagem. Têm os dentes partidos pelos antigos donos (que o faziam para não serem mordidos) e estão perturbados pela sua experiência de vida em cativeiro. Os ursos castanhos existem no continente europeu há milhões de anos. Hoje, são uma espécie ameaçada.

 

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Animais: com que direito lhes negamos direitos?

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

Animais: com que direito lhes negamos direitos?

 

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Isto de ser humano

Sabia que existe uma declaração universal dos direitos dos animais? Sabia que há leis para definir as fórmulas correctas, éticas e “humanas” para criar, transportar e matar vitelos, porcos, galinhas e todos os outros animais usados na alimentação? Sabe distinguir a crueldade “necessária” da “desnecessária”? E o sofrimento “útil” do “inútil”? Já ouviu falar do “bem-estar animal”? Não? Então é provável que não faça a mais pequena ideia do que é o veganismo e que nunca tenha colocado em questão o supremo direito do Homem sobre os outros seres da Terra ou o seu lugar como centro do mundo, rei incontestado de tudo o que existe. É possível que nada o faça desistir de comer carne ou peixe, que ache perfeitamente admissíveis as experiências em animais, que não se incomode com o uso de peles ou com a caça, aplauda as touradas, não pestaneje com o tiro aos pombos, se entusiasme com as lutas de galos, adore levar as crianças ao Zoo e considere as feras o melhor do circo. É possível que encare algumas destas coisas como normais e necessárias e outras não e ache mal misturar tudo. É até possível que determine toda esta conversa como absolutamente ridícula. Em todo o caso, não tem nada a perder: pense nisso.

É difícil escolher por onde começar. Mas podia ser em números. Por exemplo, quantos animais morreram, morrem e morrerão, em média, para que um de nós, carnívoro, omnívoro, apreciador de calçado de pele genuína, cintos de couro, casacos de cabedal e abafos de pêlo, utilizador de cremes, perfumes e desodorizantes, antibióticos, antiesta-mínicos, anti-alérgicos e outras drogas corriqueiras, sujeito a uma ou outra cirurgia, transportado em automóveis, motos e demais veículos, alérgico a ratos, baratas, moscas e outras pragas, viva a sua vida normal? Milhões? Biliões? Triliões?

Entre vacas, ovelhas, cabras, porcos, galinhas, patos, perus, coelhos, perdizes, lebres, javalis, veados, peixes de todas as descrições, moluscos de variados calibres, crustáceos, crocodilos, avestruzes e tudo o que ocorra degustar, incluindo, se calhar em viagem ou em proveniência, macacos, cobras, cães, gatos, antílopes, tartarugas, golfinhos, gafanhotos, toupeiras e o que mais se use comer por esse mundo fora, uma hecatombe.

Só nos Estados Unidos, em cada ano, são 100 milhões de mamíferos e cinco biliões de aves. No mesmo espaço de tempo, a Grã-Bretanha consome 850 milhões de animais. Em média, um milhão e meio por pessoa.

Um oceano de cadáveres a perder de vista, esfaqueados, decapitados, electrocutados, asfixiados, baleados, armadilhados, arpoados, esmagados, espancados, sangrados, cozinhados vivos. Em agonia óbvia ou incerta, rápida ou lenta, necessária ou desnecessária. Quase sempre secreta, invisível na assepsia das prateleiras do supermercado, indeterminável no prato, mastigada com deleite, digerida com negligência. Quem é que já somou as vidas todas que vale, as vidas de que é feito? Quem é que já mediu as agonias, as dores, os sacrifícios que reclama? Quem é que vive com isso? E, deve também perguntar-se, quem é que pode viver sem isso?

É muito diferente quando se vê. Talvez, com o tempo, o hábito apague a náusea das imagens e dos sons e dos cheiros. É possível acreditar que é esta distância entre a vida nas cidades, longe dos ritmos essenciais do nascimento, do crescimento e da morte, longe do que se apelida de natural, que impede a convivência descontraída com o sangue e a carne e os ossos, com aquilo que se chama a inevitabilidade das coisas.

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Marcar animais com um ferro em brasa configura um sofrimento útil ou inútil?

Mas essa ligação tão óbvia entre o lombo, a costeleta e o bife e a carnificina industrial que estremece os matadouros, essa relação de causa e efeito que conduz dos estábulos e das pocilgas e dos aviários estes cortejos de animais comprimidos em gaiolas, em camionetas e vagões, quilómetros de animais em quilómetros de estrada, o espaço útil preenchido ao limite, a utilidade como critério, o sacrifício como razão, essa imanente verdade é um prodígio de negação. É um suave milagre que a consciência dos homens os salve daquilo que não vêem e apenas sabem e mais milagre é ainda que os salve daquilo que vêem e ouvem e cheiram. E fazem, claro. Nos matadouros como nas criações, nas produções de leite como de ovos, nos laboratórios como nos biotérios.

Um passeio, chamemos-lhe assim, pelos arquivos audiovisuais das organizações que pugnam pelos direitos dos animais revela-se um desafio à infinita capacidade de obliteração da memória.

A começar, por exemplo, pelo espectáculo das descargas de gado nos centros de abate, efectuado à paulada, ao pontapé, com guindastes (usados para descarregar vacas vivas, suspensas por uma pata, de um navio para o cais), passando pelas pecuárias intensivas onde cada animal é imobilizado num espaço ínfimo, sem luz do dia, manjedoura à frente, entregue à tarefa única de engordar o mais depressa possível para dar lugar a outro.

Pelas produções de leite onde as vacas são mantidas em maternidade constante, retirando-se-lhes os vitelos mal nascem, úberes ulcerados, deformados, o tempo de vida estreitado na margem dos quatro anos mais lucrativos, despachadas para o matadouro mal o fluxo enfraquece; percorrendo as fábricas de ovos onde as poedeiras, às quatro dentro de uma estreita gaiola, se esgotam na vertigem de verter claras e gemas em sequência contínua, o espeto e o fricassé como recompensa final.

Atravessando os longos corredores dos pomposamente denominados biotérios onde em milhares de pequenas gaiolas, sob luzes fluorescentes, em ambiente rigorosamente asséptico, se criam os hamsteres e os ratos e os coelhos e os gatos e os macacos que nos laboratórios desenvolvem todas as doenças, experimentam todos os vírus, bactérias e vacinas, pomadas, gotas, comprimidos, cremes de beleza, desodorizantes, perfumes.

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Quanto tempo leva um champô a destruir o globo ocular? Estes coelhos vão descobrir.

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Animais: com que direito lhes negamos direitos? – cont.

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

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É preciso não esquecer, lembram os gratos cientistas, que é pelo holocausto destes animais e de todos os que os antecederam que tantos medicamentos foram lançados no mercado, tantas doenças incuráveis deixaram de o ser. É graças à morte atroz de milhares de cães, por exemplo, e é só um dos muitos exemplos possíveis, que os diabéticos dispõem hoje da insulina. Se não fossem os animais de laboratório, onde treinariam os cirurgiões as novas técnicas de cirurgia? Que seria dos transplantes? E, já agora, que seria da segurança automóvel não fora a insistência nos “crash-tests” com animais vivos?

Que seria do conhecimento dos danos cerebrais humanos se não fosse possível infligir, em circunstâncias rigorosamente controladas, pancadas brutais, com máquinas, martelos ou outros instrumentos menos sofisticados, na cabeça de babuínos supostamente anestesiados que, entre cada golpe, procuram fugir das amarras que os prendem?

Como se avançaria na psicologia humana e no estudo do autismo e outros fenómenos misteriosos da psique caso não fosse possível manter chimpanzés (animais muito inteligentes e sensíveis, tão parecidos connosco) em absoluta solidão, do nascimento à morte, para ver que tipo de loucura desenvolvem?

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No fim da experiência, terminada a utilidade do sofrimento, este gato deverá ser morto. De forma humana, claro.

Depois, há outras necessidades, talvez menos vitais mas nem por isso menos evidentes. A utilização de produtos de origem animal no vestuário, quer implicando a morte dos animais quer não – é o caso da lã –, é tão antiga como o Homem. Como é antigo o uso de armadilhas, cada vez mais sofisticadas à medida que a tecnologia progride, cada vez mais perfeitas no seu cuidado de não danificar nenhuma parte relevante do animal.

Fotografias e filmes, mais uma vez, atestam a forma como as mandíbulas de aço das armadilhas modernas aprisionam os animais – raposas, arminhos, texugos – sem os matar, numa agonia de horas, dias, até que o caçador apareça para o golpe de misericórdia. Ou como nas quintas de criação de animais para aproveitamento de peles se electrocutam, gaseiam ou asfixiam os visons, chinchilas, etc, de modo a não arruinar nem um pêlo da preciosa mercadoria, a mesmíssima preocupação que obriga os caçadores de focas bebés a espancá-las até à morte. Podia pensar-se que o fazem por prazer; pois não, é mesmo necessário.

Mas, é claro, há também o divertimento. Os espectáculos com animais, da tradicional tourada ao tradicional circo, passando pelas tradicionais corridas de cavalos, cães, etc. Para não falar da luta de galos, dos duelos de cães, ou de certos costumes pouco compreendidos no Ocidente que consistem em torneios de cavaleiros a disputar um cabra, por exemplo, ou a ver qual é que consegue, passando a galope, arrancar a cabeça a um galo pendurado pelos pés. O espantoso arquivo das organizações internacionais de defesa dos animais não deixa nada em claro.

Eis a incursão nos bastidores do circo, por exemplo, para descobrir, do outro lado das habilidades demonstradas em palco, os imprescindíveis treinos à base de chicote, paulada e aguilhões. Mas como será que, a bem, se ensina um elefante a caminhar nas patas traseiras? Ou um tigre a saltar um arco em chamas? Com muito amor? Decerto. O mesmo amor aos animais que leva toda a gente a adorar uma ida ao Zoo, onde animais habituados a percorrer dezenas de quilómetros num dia se vêem confinados a algumas dezenas de metros (se tiverem sorte) ou a uma jaula de três por quatro, chão de cimento, paredes de azulejo, talvez mesmo sem luz natural.

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E não há leis?

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)
Texto de Fernanda Câncio

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E não há leis para estas coisas, pergunta-se. Claro que há, isto não é a barbárie. Há convenções, há até uma declaração universal dos direitos dos animais, proclamada pela UNESCO em 1978. E há as leis. Em Portugal, excedem a trintena os diplomas legais subordinados ao tema “protecção dos animais” ou melhor, “bem-estar animal”. Uma coisa algo árdua de definir mas que até merece, desde 1993, toda uma Divisão da administração portuguesa. Criada sob os auspícios do governo Cavaco Silva e inserta no então Instituto de Protecção da Produção Agro-Alimentar, a “Divisão de Bem-Estar Animal e Novas Produções” tinha como incumbência, além do acompanhamento das tais novas produções – crocodilos, avestruzes, chinchilas, caracóis, minhocas, moscas e outras curiosidades – zelar por que os animais de criação fossem tratados dentro dos parâmetros adequados às necessidades da espécie, garantindo as suas características fisiológicas e comportamentais, num meio ambiente correcto.

Nada mais que aplicar a legislação que a entrada de Portugal na Comunidade Europeia tornava imperativa. Uma tarefa espinhosa a que o governo PS deu o seu aval, mantendo a Divisão (já sem a pasta das “novas produções”) e inserindo-a na Direcção Geral de Veterinária.

E de que consta o referido bem-estar que a Divisão tem o dever de acautelar? Está tudo legislado, basta consultar.

Antes de mais, deve evitar-se o “sofrimento inútil”, assim como as “dores inúteis”, as “aflições inúteis”, os “danos inúteis”, etc. Sendo inútil muito claramente o contrário de útil, deve partir-se do princípio que existe um tipo de sofrimento útil e que, esse sim, não pode ser evitado. Quanto às formas de evitar os tais sofrimentos que não servem para nada, a legislação indica algumas:

No caso de animais não desmamados conduzidos ao matadouro, por exemplo, prescreve que devem ser mortos no mais curto espaço de tempo possível; se se tratar de animais de laboratório, sujeitos a experiências particularmente dolorosas ou traumáticas (o tal sofrimento “útil”) cuja recuperação se afigure dolorosa ou árdua, devem ser mortos o mais rapidamente possível, de forma “humana”.

No caso da occisão (morte) ou abate (morte por sangria) de animais para a alimentação, a lei prevê um atordoamento prévio, quer com gás, quer com uma pancada (“concussão”), quer com choque eléctrico (no caso das galinhas, suspendendo-as pelas pernas e enfiando-lhes a cabeça dentro de um tanque de água onde passa uma corrente eléctrica) de modo a anestesiá-los no instante fatal.

As formas de morte podem variar, desde a decapitação, aceite apenas no caso das galinhas, à intoxicação com dióxido de carbono – indicada para as chinchilas –, à electrocussão e ao tiro. Diagramas e desenhos das cabeças das várias espécies, explícitos q.b. e indicando a zona a atingir no atordoamento e “occisão” do animal, acompanham o texto da lei.

Quanto ao “descarregamento” dos animais no matadouro, a lei é estrita: “os animais devem ser deslocados com cuidado”, “deve assegurar-se que os animais não sejam amedrontados, excitados, maltratados e derrubados. É proibido erguer os animais pela cabeça, cornos, orelhas, patas, cauda ou velo, ocasionando dores ou sofrimentos inúteis”. Também é proibido “espancar os animais ou empurrá-los pressionando partes sensíveis do corpo”, “esmagar, torcer ou quebrar a cauda dos animais ou agarrá-los pelos olhos”, e “pancadas aplicadas com brutalidade, designadamente os pontapés”.

A sensatez destes preceitos prolonga-se no que respeita à exigência de que os animais que não possam ser abatidos logo após a chegada ao matadouro sejam estabulados, alimentados, dessedentados, e, caso passem ali a noite, lhes seja disponibilizada uma cama. O mesmo grau de exigência norteia a criação: tudo deve ser feito de modo a evitar “sofrimento inútil”, incluindo o proporcionar de “liberdade de movimentos própria da espécie” e de “um espaço apropriado às suas necessidades fisiológicas e etológicas” (mesmo quando o animal está preso “habitual ou continuamente”).

Nos sistemas de criação intensiva, os animais devem ser “objecto de uma inspecção rigorosa” pelo menos uma vez por dia e jamais ser alimentados “de forma susceptível a causar-lhes danos ou sofrimentos…” (adivinha-se o resto). Para os biotérios, estabelecem-se medidas mínimas para jaulas e gaiolas, métodos de alimentação, cuidados de higiene, temperaturas, humidades. Recomenda-se ao pessoal que, dado ser muito importante para o êxito da maioria das experiências que os animais tenham confiança nos humanos, reserve alguns momentos do dia para contactar com os animais, falar com eles ou até acariciá-los. Conciliando, bem entendido, a “amabilidade” com a “firmeza”, e excluindo sempre a agressividade.

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Apanhada na armadilha, esta raposa pode esperar dias pelo golpe de misericórdia. Tudo por uma gola de pele

Quanto ao transporte de gado, a lei obriga a que, em percursos superiores a 50 quilómetros, os animais sejam descarregados, alimentados e abeberados regularmente, tendo ainda que ter espaço para se deitarem e alguém para tomar conta deles. As multas pela não observância destas e das outras regras atingem alguns milhares de contos e as eventuais punições podem incluir o confiscar dos animais, o retirar da licença ou o encerramento das instalações ou exploração.

Surpresa das surpresa, na Divisão de Bem-Estar Animal, para além de algumas multas pecuniárias, não há notícia de qualquer contra-ordenação aplicada até hoje no que a estas regras diz respeito. Não houve até hoje uma única criação de animais que tivesse merecido ser encerrada. Portugal é um país de apaixonados do bem-estar animal, os nossos matadouros são um exemplo de compaixão e as nossas pecuárias referência mundial em termos de ética? Ou será que nesta matéria como nas outras – a começar pela da qualidade da carne produzida, da despistagem de usos de antibióticos, farinhas suspeitas e hormonas – a fiscalização é uma piada e a aplicação das leis uma quimera?

Num país em que é normal abandonar animais de companhia (estima-se em um milhão o total de cães e gatos “errantes”), afogar cachorrinhos e gatinhos à nascença e manter cães presos por correntes de ferro uma vida inteira, alimentados a ossos e pontapés, não é difícil adivinhar que tipo de tratamento recebem os animais destinados à alimentação. E se fosse difícil adivinhar bastaria abrir os olhos e ver os transportes de gado que passam todos os dias nas estradas portuguesas, ao sol, à chuva, atolados nas próprias fezes, sem água nem espaço para mexer a cabeça. Bem-estar animal? Matança humanizada?

“Isso é uma absoluta contradição”. Em inglês resulta melhor: “a contradiction in terms”, uma contradição dos termos. Andrew Butler está muito certo disso, talvez não devesse estar. Afinal, o que é que há de contraditório entre “humano” e “matança”? Para um membro da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals – Pessoas a favor do tratamento ético dos animais) a pergunta só pode ter uma resposta. Mais misteriosa é a forma como os PETAS coadunam a vida normal com esse “tratamento ético dos animais”. É fácil tratar bem os cães e os gatos, não é impossível deixar de comer carne ou peixe, abdicar do leite e dos ovos, abandonar as lãs, deitar fora os casacos de cabedal e as botas de couro… Mas como é que se faz quando apanhamos uma pulga ou deparamos com uma barata gigante no lava-loiças? Do outro lado da linha, Andrew sorri. “É praticamente impossível viver no mundo moderno sem causar sofrimento a algum animal ou até eventualmente matá-lo. Mas podemos tentar. Podemos deixar de comer animais, podemos parar com práticas cruéis, com as experiências com animais, a criação de animais para produção de eles, as armadilhas com o mesmo fim. O que nós defendemos, aqui na PETA, é que os animais não são nossos para comer, brincar, possuir, explorar ou seja o que for.”

 

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Método de “occisão” comum nas criações de animais para aproveitamento de pele: asfixia com um tubo de metal.

Conhecida no mundo inteiro pela intensidade e glamour das suas campanhas anti-peles, encenadas com o auxílio inestimável de algumas celebridades, produzidas em pelota para fazer fé ao dístico “prefiro andar nua que usar peles”, a PETA apresenta-se, com os seus 600 mil membros, como a mais importante de todas as organizações de defesa dos direitos dos animais, vencedora de algumas batalhas determinantes, como a travada contra a General Motors para obrigar a empresa a acabar com os testes de embate usando animais vivos. Ferozmente veganista – um tipo extremo de vegetarianismo que recusa qualquer produto de origem animal – e apaixonadamente contrária a qualquer tipo de utilização de animais, mesmo em experimentações com o objectivo de salvar vidas humanas, a PETA degusta nos seus panfletos, manifestos e discursos a ideia de justiça poética associada ao aparecimento de doenças como a Creuftfeld Jacobs. “Aquilo que temos andado a fazer não é bom para os animais, não é bom para o planeta e não é bom para nós”, agoira Andrew.

Como justificação – para quem precisa, é claro – ocorre sempre a mesma fórmula. Que é assim, que sempre foi assim, que é a lei da sobrevivência. Que também os animais (os outros) se matam entre si e se comem e aparentemente não têm grandes problemas de consciência lá por causa disso. Que temos de comer qualquer coisa e se não forem os bichos hão-de ser as plantas que também têm direito à vida. Que os animais existem para isso. Que a Terra é dos homens. Que somos o topo da cadeia alimentar, os predadores supremos. Que gostamos de comer carne e peixe. Que nos apetece. Que não temos força de vontade para mudar. Que fomos criados assim. Que é tradição. Que qualquer coisa.

As coisa são o que são, etc, etc. Mas o que é que as coisas são, finalmente? Donde é que vem esta certeza que nos separa tão radicalmente dos outros animais, esta consciência de superioridade não apenas no pensamento e na vontade mas sobretudo, porque é disso que se trata aqui, na sensibilidade e na capacidade de sofrer? Das diferenciações aristotélicas entre animais úteis e daninhos às determinações cartesianas do animal como autómato, passando pelas taxidérmicas distinções dos reinos e por todas as metódicas interrogações sobre o assunto da alma para finalizar nas mui científicas pesquisas da inteligência animal, conclusões nenhumas.

Tudo, afinal, uma questão de querer. Ou de querer pensar. O que é que faz da vida humana sagrada no desprezo radical das outras? De que é que falamos quando falamos de vida? E de humano? David DeGrazia, autor de “Taking Animais Seriously”, coloca o dedo na ferida (e em mais que uma, até):

“A nossa intermitente angústia moral acerca do aborto de embriões/fetos humanos demonstra que não somos sempre cegos em relação aos direitos dos fracos e sem defesa; mas as nossas vítimas dentro do útero são, do ponto de vista neurológico e psicológico, muito menos desenvolvidas que as vítimas da nossa última refeição.”

Segue: E não há leis? – cont.

E não há leis? – cont.

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos)
Texto de Fernanda Câncio

Anterior: E não há leis?

Pois é normal e até desejável que, na mesma altura em que se discute com cada vez mais virulência a questão dos direitos da vida intra-uterina e do ovo e da concepção e por aí fora, se polemize também em matéria de direitos animais. Um embrião humano com doze semanas terá mais sensibilidade e consciência e capacidade de sofrer que uma vaca? E, caso seja por aí, não são ambos criaturas de Deus?

Há no entanto poucas coisas que suscitem tanto ridículo e irritação como esta história dos direitos dos animais. É usual argumentar-se que enquanto houver crianças a sofrer, homens e mulheres privados dos mais ínfimos direitos, a morrer à fome, etc, etc, não se pode falar em defesa dos animais. Uma estranha lógica que levaria os nossos antepassados abolicionistas a calarem-se para sempre perante a consciência de que também, entre os membros da raça considerada superior, se poderiam indiciar casos de sofrimento, exploração e discriminação, e induziria as mulheres em luta pela igualdade a meterem a viola no saco à menção da existência de homens escravizados, discriminados, explorados e privados da “auto-determinação”. Considerar mutuamente exclusiva a demanda de direitos só colherá quando esses direitos colidam de algum modo. Pois não é o caso: em que é que defender os direitos dos animais pode contender com a defesa dos direitos dos homens? Ou, melhor ainda, como é que suportar, compreender e achar normal o maltratar de animais pode beneficiar a causa da dignidade humana?

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Primata bebé de olhos cosidos numa experiência qualquer: legal, justificado e útil?

Depois das crianças, das mulheres e de todos os indivíduos de raças que não a branca, era inevitável que chegasse a vez dos animais. Não que as outras discussões estejam encerradas, longe disso. Por definição, estas discussões nunca se encerram. Aliás, é instrutivo recordar que no Ocidente o primado inquestionável (?) dos direitos humanos não tem nem cem anos.

Foi neste século, após centenárias discussões sobre a existência, fiabilidade e solidez da “alma” feminina, que as mulheres ocidentais, por exemplo, conquistaram o direito de voto, a autonomia da personalidade jurídica dentro do casamento e o direito de decidir sobre a sua vida sexual e reprodutiva (quer dizer…). Mas é neste século, mais exactamente no seu final, que as afegãs são fechadas em casa, impedidas de ir à rua sem a companhia de um homem, interditas de estudar, ler, ouvir música, de decidir seja o que for por si próprias.
Foi neste século que os maus-tratos infligidos às crianças pelos detentores do poder paternal se configuraram como crime e foi apenas no século passado que a maioria das nações ocidentais aboliu a escravatura. Para se constatar agora, aqui, que talvez nunca tenha sido tão extensa a multidão de seres humanos, crianças e adultos, forçados a trabalhar sem regras nem horário por um salário de miséria.

Foi este o século que instituiu o tráfico de órgãos humanos como um negócio altamente rentável e é neste século que a manipulação genética e a clonagem se perfilam como as mais milagrosas das descobertas científicas, capazes de obviar as insuficiências da Natureza, de compatibilizar o coração de um porco com o corpo humano, de multiplicar ao infinito cada indivíduo e abolir todas as fronteiras bioquímicas.

Foi neste século que as Nações Unidas declararam o genocídio como o mais abominável dos crimes contra a Humanidade, mas foi este século que encenou o mais sistemático e voluntarioso genocídio de que há memória. Contam-se exactamente cinquenta e três anos desde que milhões de pessoas foram espoliadas de tudo o que lhes pertencia, enfiadas aos magotes em vagões de mercadorias, transportadas durante semanas, através de milhares de quilómetros, sem água, luz, comida, ou higiene de qualquer espécie, para um destino onde a subalimentação, o trabalho escravo, a sujeição a incontáveis torturas com fins recreativos ou alegadamente científicos, e a ameaça permanente da morte só se suspendiam com o decreto do fim da sua utilidade enquanto seres vivos.

Do ilimitado pragmatismo da empresa atesta a existência de artefactos de pele humana (de preferência tatuada, para um efeito mais artístico) como luvas e abat-jours, o registo das várias manipulações e experiências – nomeadamente filmes e fotografias da autoria dos metódicos algozes – com incontáveis corpos desmembrados e o aproveitamento da carne dos mesmos para a alimentação. Isso mesmo explicava um normalíssimo octogenário de barba branca num documentário recente passado na televisão portuguesa: quando faltava a carne nos campos de concentração “era necessário” ir buscá-la aos cadáveres que esperavam, à boca dos fornos crematórios, a solução final. “Não me pareceu eticamente reprovável fazê-lo”, afirmava ele. Acredita-se.

Segue: Acção directa

Matar por luxo

Micheal Bright
Natureza em perigo – Matar por luxo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

Introdução

O Homem sempre matou animais. Tradicionalmente, matava por necessidade alimentar e de vestuário, mas o esqueleto do animal também proporcionava utensílios domésticos, joalharia e outros ornamentos. Nada era desperdiçado. Hoje em dia, vários milhões de animais são mortos, todos os anos, não para fornecer a comida necessária à sobrevivência, mas para abastecer o lucrativo mercado do luxo. Alguns animais são abatidos para serem usados em símbolos de uma posição social abastada ou para favorecer uma imagem de virilidade; mas que preço pagam os animais, para satisfazer esta vaidade humana? Alguns animais são retirados do seu habitat e criados em cativeiro, exclusivamente por causa da sua pele, do seu pêlo ou do aroma que produzem. Será uma maneira aceitável de obter um produto animal? Em certos casos, é o próprio acto de matar que se torna um luxo.

Muitos dos animais comerciados no mercado dos artigos de luxo foram de tal modo reduzidos em número que estão ameaçados de extinção. Manifestamente, têm de ser protegidos. Mas, por vezes, surge um dilema: quem deverá ter prioridade? Os povos nativos que precisam de matar para sobreviver, ou as espécies raras? Para controlar o comércio mundial de produtos animais, foi assinada em Washington, em 1973, a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies de Fauna e Flora Ameaçadas. Todavia, apesar disso, muitas espécies são abatidas e comerciadas ilegalmente. Algumas, tais como elefantes e rinocerontes, correm perigo de desaparecer totalmente. A marta marinha, caçada por causa da pele, extinguiu-se. Quantas mais espécies desaparecerão antes de nos convencermos de que a matança tem de parar?


Durante as primeiras seis semanas de vida, a cria da foca-da-Gronelândia apresenta uma pelagem extremamente apreciada. Todos os anos, dezenas de milhares de crias eram espancadas até à morte por caçadores comerciais da Terra Nova e da Noruega. Em 1968, uma manifestação pública de repúdio conduziu, eventualmente, à proibição de importação de peles de foca, por parte dos países da CEE. Essa proibição praticamente eliminou o mercado.


Os Esquimós (Inuit) também matam focas por causa da pele. Parte da sua subsistência depende dessa caça tradicional. Porém, como a caça é considerada cruel, têm sido feitos apelos para que lhe seja posto fim.


A caça às peles

Por trás da fachada elegante da indústria de peles, que movimenta rios de dinheiro, está a triste realidade da matança. Todos os anos, milhões de animais, apanhados em armadilhas, sofrem uma morte lenta e dolorosa. Ficam presos pelas patas, pescoço ou tronco, em armadilhas de metal ou nós corredios. Os animais permanecem na ratoeira cerca de 15 horas, antes de serem estrangulados ou mortos à paulada. Um lince-do-Alasca esteve com a pata presa numa armadilha durante seis semanas. Conseguiu manter-se vivo tanto tempo porque outros animais do seu grupo familiar lhe levavam comida. As armadilhas são cegas. Muitos outros animais, tais como águias, corujas, cisnes e animais domésticos, são apanhados, mortos e rejeitados. Na gíria do comércio, estes animais são “lixo”.

Nas terras confinantes com o Árctico, as pessoas dependem da caça às peles como meio de subsistência. Muitas temem que uma proibição do uso de armadilhas possa afectar gravemente os índios canadianos isolados e as comunidades Inuit desta área. Outras acham que a utilização de armadilhas se justifica porque mantém sob controlo a população de animais produtores de peles.

Alguns países condenam o uso de armadilhas e, contudo, importam peles. Por exemplo, dos milhões de peles importadas pela Grã-Bretanha todos os anos, muitas delas são de animais selvagens apanhados por armadilhas de guindaste, mecanismos que foram banidos na Grã-Bretanha, em 1965, depois de um relatório do governo as ter descrito como “instrumentos diabólicos que causam um sofrimento incalculável”.

A moda das peles

Nos Estados Unidos, apesar das campanhas contra a caça às peles, o comércio retalhista triplicou durante a última década, envolvendo dois biliões de dólares. A moda masculina é responsável por grande percentagem desse aumento. Cada vez mais pessoas têm possibilidades de comprar peles verdadeiras e caras e não têm problemas morais em fazê-lo.

A armadilha mais utilizada nos E.U.A. é o guindaste para aprisionar os animais pelas patas. As mandíbulas de metal soltam-se e cerram-se quando o animal pisa o mecanismo de disparo. É como se a porta de um carro se fechasse sobre a nossa mão. Frequentemente, a carne da pata do animal é cortada e o osso partido. Às vezes, o animal, rói a própria pata, numa tentativa para se libertar.


Milhares de raposas são mortas, em toda a Europa. Muitas são apanhadas em armadilhas e envenenadas ilegalmente pelos chamados “bicheiros”. Por engano, são apanhados muitos texugos, que são animais protegidos.


Criação de animais de pêlo

A maioria das peles não provém de animais selvagens, mas sim de “fazendas” de criação de peles onde grandes quantidades de animais, como a marta, a zibelinha e a raposa, são criadas em pequenas jaulas. A criação de animais de pêlo é um grande negócio. Na Finlândia, por exemplo, existem 6.500 “fazendas” destas. As maiores produzem mais de 46.000 peles de raposa e 500.000 de marta, anualmente.

Na última década, a produção quadruplicou, apesar das pressões exercidas pelos apoiantes das campanhas contra o uso de peles. O facto é que, na maior parte do mundo, um verdadeiro casaco de peles ainda é considerado um símbolo de posição social. No Texas, vêem-se pessoas a usar peles caríssimas, mesmo em dias quentes de Verão. Nas regiões do Norte, contudo, as peles ainda são consideradas a melhor protecção contra o frio.

Os criadores de animais de pêlo acham que a sua actividade constitui o aspecto aceitável da indústria de peles. Advogam que os seus animais gozam de excelente saúde e vivem em boas condições. Se assim não fosse — dizem — as peles adquiririam mau aspecto e perderiam valor.

Os animais são mantidos em jaulas pequenas com fundo de arame e não lhes é permitido saírem delas, pois os criadores temem que os animais sujem ou danifiquem as peles, caso os deixassem à solta. Não obstante, as peles acabam por ser danificadas devido a lutas, contaminação pela urina ou má nutrição, o que origina enormes perdas financeiras para as “fazendas”. Nem sequer os animais confinados a jaulas permanecem intactos. As martas são agressivas e mordem-se umas às outras. Por vezes, são vítimas de canibalismo.


Nunca consegui realmente entender a ideia de que vestir a pele de um animal morto seja atraente. Não tenho absolutamente vontade nenhuma de usar peles e nunca possuí alguma. Gostaria sempre mais de ver a pele no próprio animal.


Marie Helvin, Modelo


Por exemplo, as marta das “fazenda” são mortas por gaseamento, injecções letais ou electrocussão. Afirma-se que a morte é imediata, mas isso não foi ainda provado.


A Vicunhas são uma espécie de lama e encontram-se no Chile e no Peru. Em tempos eram abundantes, mas o seu número foi consideravelmente reduzido depois de os invasores espanhóis as terem começado a matar por causa da sua lã, extremamente apreciada. Os Incas (o povo que habitava o Peru, antes da chegada dos Espanhóis) tosquiavam as vicunhas sem as matar. Actualmente, a caça e abate de vicunhas para extracção de lã está proibida. Pelo contrário, as manadas são levadas para ranchos protegidos, nas montanhas.


Na linha de fogo

Muitos dos grandes predadores da natureza transformaram-se em vítimas. Os caçadores furtivos abatem a tiro, capturam com armadilhas e envenenam alguns dos animais mais raros do mundo, apenas para fornecer casacos de peles exclusivos para o mercado do luxo. As peles dos felinos malhados, por exemplo, atingem altos preços e isso encoraja a caça ilegal. Por vezes, o comércio legal ainda piora as coisas. É permitida a venda de peles de espécies protegidas, declaradas antes da introdução de restrições. Este comércio legal muitas vezes esconde a caça furtiva e transacções ilegais. Por exemplo, vários felinos malhados da Índia, tais como o leopardo das neves — “Uncia uncia”, são ilegalmente abatidos por membros de tribos nómadas. Os animais são abatidos nos Himalaias e as suas peles são contrabandeadas em Kashmir, ou vendidas com peles legalmente adquiridas. Posteriormente são traficadas na Europa e no Japão.

Noutras partes do mundo, os ursos polares, lobos, cangurus, tigres, focas e zebras, perdem as suas peles em favor dos caçadores. Até as peles do extremamente raro panda gigante, o próprio símbolo da conservação, têm sido descobertas no comércio ilegal que se efectua desde a China até Taiwan.

Todos os anos, os mercados legais de peles da Europa transaccionam 700.000 peles de animais selvagens, sendo dois terços constituídos por peles de pequenos felinos malhados. O mercado ilegal poderá ter dimensões maiores. Os comerciantes descobriram mil e uma maneiras de dissimular a fonte e o destino das peles ilegais, canalizando-as para terceiros países onde lhes são facultados documentos de comércio internacional legalizado. Este processo é chamado “lavagem”.

Outros modos de enganar o sistema incluem declarações falsas dos nomes das espécies, do país de origem e do fim a que se destina a importação. Há alguns anos, um grande carregamento de peles de chita foi interceptado no aeroporto Kai Tak, de Hong Kong, num voo vindo da Suíça. A remessa estava etiquetada como “marca italiana”.

Já não comemos os miolos de outras pessoas para adquirir sabedoria; seremos ainda tão primitivos que tenhamos de usar peles de animais para alcançar a beleza?

Joanna Lumley, actriz e escritora

A chita é ainda é um alvo da caça ilegal. Restam cerca de 25.000; contudo, todos os anos são comerciadas 5.000 peles.

Muitos dos felinos malhados estão inteiramente protegidos, o que não impede que casacos sejam feitos com as suas peles. Estão à venda peles de leopardo da África e da China, de pantera nebulosa da Ásia, de ocelote, jaguar, gato marsupial e margaí da América do Sul. Todas elas se podem encontrar nas lojas elegantes de Munique e Tóquio. Um ano após a proibição de peles de felinos malhados do Paraguai para a Alemanha Ocidental, foram transaccionadas 95.000 peles.

PERFIL…

Os grandes felinos

Os grandes felinos (leão, tigre, leopardo, jaguar, leopardo das neves, pantera nebulosa e chita) e os pequenos felinos (lince, gato-selvagem, puma, ocelote e várias espécies, tais como o serval e o caracal) são todos carnívoros. São predadores famosos, no topo das suas cadeias alimentares, e quase só o homem é que os abate. Contudo, a matança em larga escala de tigres e ocelotes e o comércio das suas peles malhadas quase os levaram à extinção. Como resultado disso, o tigre tornou-se uma espécie protegida, em 1972. Desde então, o seu número voltou a aumentar.

O leopardo

Os leopardos machos podem atingir 1,90 m de comprimento, têm uma cauda de 1 m e pesam cerca de 90 kg. As fêmeas atingem cerca de metade do tamanho. Vivem cerca de 12 anos em liberdade e até 20 anos em cativeiro.

O leopardo espalha-se pelo Sul da Ásia e em África, o que o torna no membro mais vastamente distribuído da família dos Felídeos. Os leopardos caçam durante a noite, atacando a presa de emboscada ou seguindo-a silenciosamente, de muito perto. A presa é levada para uma árvore, onde fica fora do alcance de leões e hienas.

A cor e o padrão da pele dos leopardos varia conforme o habitat. A base da cor de fundo é o castanho, o cinzento ou o amarelo-dourado, com círculos mais escuros ou laçadas.

O lince

O lince adulto pode atingir mais de 1 m e pesar cerca de 38 kg. Vivem 12 a 15 anos. Os gatos-selvagens da América do Norte diferem do lince por terem malhas escuras, patas nuas e não possuírem tufos de pêlos nas orelhas.

A cor castanho-acinzentada do lince permite-lhe confundir-se com a cor de fundo de uma densa floresta de coníferas.

Vive nas latitudes setentrionais da Escandinávia, no Norte da Ásia e na América do Norte. Com as patas compridas, consegue caminhar na neve alta. As patas são protegidas por pele espessa. Possui tufos de pêlos nas orelhas.

O leopardo das neves

O leopardo das neves vive nas montanhas do Sul da Ásia. Tem pêlo espesso e comprido. Sabe-se pouco sobre os seus hábitos. É noctívago, solitário e tímido.

Os exemplares grandes atingem 1,30 m de comprimento e a cauda mede 1 m. Pesa cerca de 75 kg. Vivem cerca de 15 anos em cativeiro. Também é conhecido por pantera da montanha.

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Despojados da pele

Micheal Bright
Natureza em perigo – Matar por luxo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

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Despojados da pele

As vacas e os porcos não são os únicos animais utilizados para fornecer couro. As cobras, crocodilos, cangurus, caimões, lagartos e tubarões são chacinados e as suas peles são transformadas em vestuário e calçado de moda. Parte desse comércio é ilegal; mas grande parte dele não o é. Em 1986, El Salvador exportou 134.000 peles de caimão, apesar de ter uma população de caimões de apenas 10.000 animais. As peles “extra” foram de países onde existem restrições ao comércio, tais como o Panamá e a Colômbia.

O abate de caimões tornou-se semelhante a uma operação militar. Helicópteros-canhoneiras sobrevoam lagos e rios remotos, à noite. Holofotes localizam os animais, que são atingidos entre os olhos para não marcar as peles. No dia seguinte, os corpos são recolhidos. Estas actividades são ilegais, mas, infelizmente, os caçadores furtivos estão mais bem organizados do que os serviços de fiscalização do governo.

Um problema que surge com a tentativa de restringir o comércio de peles de répteis é que os países consumidores pactuam para ignorar os controlos internacionais. Os principais importadores de peles de répteis (França, Japão, Itália e Alemanha Ocidental) recebem milhões de peles, por ano, principalmente oriundas da Ásia e da América do Sul.

Alguns países iniciaram a criação de crocodilos, para satisfazer a procura de artigos de couro de crocodilo. Porém, os conservacionistas argumentam que o comércio encoraja o abate ilegal de animais selvagens. Quando se trata de fiscalizar o comércio, como é que as autoridades alfandegárias distinguem uma pele de animal criado em cativeiro da pele de um animal ilegalmente caçado sabe-se lá onde? A solução dada pela Nova Guiné é a etiquetagem das peles “de cultivo”.

Os tubarões fornecem o couro mais resistente que se conhece. Muitos são apanhados por pescadores mexicanos que enviam as peles secas para os Estados Unidos, para serem curtidas. No passado, o couro era usado por fabricantes de mobiliário para esfregar a madeira, e pelos esgrimistas no punho das espadas, para que as mãos não escorregassem com o sangue. Hoje utiliza-se para fabricar sapatos de qualidade e botas de vaqueiro. O comércio não tem restrições e ainda existem muitos tubarões no mar. A pesca intensiva poderia dizimar toda uma estirpe.

É moralmente inaceitável o abate deliberado de qualquer criatura viva — do crustáceo ao elefante — não sendo motivado pela fome, frio ou necessidades de saúde, mas tão-somente pelo luxo.

Richard Adams, autor de “Watership Down”

A pele de varano-malaio é passada clandestinamente do Bangladesh, Indonésia e Paquistão para o Japão. As peles de cobra também são populares, embora o padrão distinto da pitão seja facilmente descoberto pelos funcionários das alfândegas. Numa encomenda de 400 latas de caju, destinada a Singapura e originária da Índia, apenas 140 latas continham caju. As restantes continham peles de cobras, no valor de um milhão e seiscentos mil dólares.

PERFIL…

Crocodilos

Os crocodilos, aligátores, caimões e gaviais passaram pelas grandes extinções que fizeram desaparecer os dinossauros, há cerca de 65 milhões de anos. Sobreviveram, praticamente inalterados. Todavia, em apenas 100 anos, o homem quase conseguiu dizimá-los. Os crocodílidas possuem cérebros grandes. Além de mostrarem um comportamento instintivo, também são capazes de aprender. São predadores aquáticos bem adaptados, com os olhos e as narinas colocados no cimo da cabeça, o que lhes possibilita ver e respirar à superfície, com o corpo submerso.

O caimão-de-lunetas

O caimão sul-americano pode atinge mais de dois metros, desde o focinho até à extremidade da cauda. Vive nas bacias hidrográficas do Amazonas e do Orenoco. Cresce cerca de 30 cm por ano e pode viver de 75 a 100 anos, se o homem deixar.

O caimão-de-lunetas é assim denominado por causa da saliência córnea que une as órbitas oculares e que se assemelha à trave de um par de óculos. Um caimão adulto alimenta-se de gigantescos caracóis aquáticos, piranhas e qualquer outro animal que lhe surja no caminho. O caimão passa o dia escondido nos juncais ou estendido ao sol, nas margens dos rios. À noite, caça. Os exploradores contam os caimões, à noite, com uma lanterna, localizando os reflexos dos olhos do animal. Dos dois milhões de peles de crocodilos legalmente comerciadas todos os anos, três quartos são de caimão-de-lunetas. Outro milhão de peles sai ilegalmente do Paraguai, Bolívia e Brasil. A maior parte das peles é enviada para Itália, onde são transformadas em bolsas e carteiras dispendiosas.

O crocodilo-do-Nilo

Atinge cerca de 6,5 m de comprimento e pesa cerca de 1080 kg. Em liberdade, vive mais de 50 anos. Sabe-se de crocodilos que vivem mais de 100 anos. Os crocodilos-do-Nilo são responsáveis por muitas mortes.

O crocodilo-do-Nilo vive nas margens dos rios, em toda a parte de África. A fêmea do crocodilo enterra os ovos na areia e vigia o ninho enquanto os ovos incubam. Os crocodilos-bebés saem do ovo e apelam para a mãe, para os desenterrar. Depois, ela transporta-os, na boca, para a água. Durante os primeiros três meses, vivem em “infantários” em águas estagnadas. Se ameaçados, a mãe solta um grunhido e, todos ao mesmo tempo, mergulham na água.

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