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No refúgio dos ursos bailarinos

 

Notícias Magazine
21.Out.2007

No refúgio dos ursos bailarinos

 

Na ilha grega de Arkturos há um santuário especial. Um centro de acolhimento onde vivem trinta ursos, resgatados a tristes destinos: refugiados de guerra, confiscados a circos e a ciganos que os passeavam pelas ruas para mostrarem, os seus dotes de dançarinos.

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O centro de informação sobre os Ursos Castanhos, na ilha grega de Arkturos, na Macedónia Ocidental, recebe mais de trinta mil visitantes por ano. O grande objectivo é contribuir para uma maior consciencialização dos problemas ambientais e para a necessidade de preservar os animais selvagens e os seus habitats.

 

Em Arkturos foi criado um centro para recolher os ursos bailarinos (confiscados aos seus donos que lhes queimavam as patas para dar a impressão de dançarem) e outros, como ursos “refugiados de guerra” vindos do zoo de Belgrado, ou um urso preto americano resgatado de um circo. Um staff de profissionais voluntários cuida deles e do seu habitat.

 

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Há mais de 35 milhões de anos que os muito adaptáveis ursos castanhos conseguiam encontrar boas condições de vida em quase todo o continente europeu. Mas calcula-se que só nos últimos dois séculos a distribuição e a população de ursos castanhos tenha decrescido 60 e 50 por cento, respectivamente, conduzindo a uma dramática fragmentação daquela que sempre foi uma zona de habitat para este animais. Actualmente, os ursos castanhos sobrevivem em pequenas populações isoladas no Sudeste Europeu e foram oficialmente considerados uma espécie ameaçada. O contínuo declínio da população de ursos castanhos e a destruição dos seus habitais devem-se sobretudo a factores humanos. Nos últimos anos, a ilha grega de Arkturos tem-se empenhado activamente em salvar esta espécie.

A triste história da «dança»

urso-1.jpgOs ursos castanhos são muito populares na Grécia. Era frequente vê-los passear nas ruas, pelas trelas dos donos, geralmente ciganos, que os faziam dançar ao som dos batuques dos seus tambores. Só que esta «habilidade» tinha por detrás uma triste história: em bebés, os donos queimavam-lhes as patas da frente para que as levantassem e abanassem enquanto tocavam, dando assim a impressão de estarem a dançar. Em jovens e adultos, traumatizados pela experiência, os ursos levantavam e abanavam as patas sempre que ouviam os batuques.
Em 1969, esta prática foi proibida por lei. Mas havia um problema: as autoridades não podiam confiscar os ursos aos donos porque não tinham onde os guardar. E estes animais nunca conseguiriam sobreviver em estado selvagem. Os donos partiam-lhes os dentes para que não os mordessem e estão psicologicamente perturbados pela experiência da vida em cativeiro.

Refugiados de guerra

Em 1992, a ilha de Arkturos fomentou a criação de uma organização não governamental e sem fins lucrativos para proteger os ursos castanhos. A iniciativa rapidamente conseguiu o apoio de fundos privados e da União Europeia. Foi criado o Centro de Informação sobre os Ursos Castanhos e concebido um abrigo para acolher os ursos «bailarinos» e outros, como refugiados do Zoo de Belgrado, evacuado durante a guerra, e um urso preto americano resgatado a um circo. Hoje vivem no centro trinta ursos. Uma equipa de 16 pessoas, coadjuvada por quarenta associados ao projecto e mais quarenta voluntários, tratam dos animais e da preservação do seu habitat. O centro recebe mais de trinta mil visita por ano e desempenha um papel fulcral na consciencialização das pessoas. Porque a sobrevivência destes ou de quaisquer outros animais depende só de uma verdade muito simples: para que a vida no planeta continue, os seres humanos e os animais selvagens têm de saber «coabitar».

 

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Estes ursos seriam incapazes de sobreviver no estado selvagem. Têm os dentes partidos pelos antigos donos (que o faziam para não serem mordidos) e estão perturbados pela sua experiência de vida em cativeiro. Os ursos castanhos existem no continente europeu há milhões de anos. Hoje, são uma espécie ameaçada.

 

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Animais: com que direito lhes negamos direitos?

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

Animais: com que direito lhes negamos direitos?

 

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Isto de ser humano

Sabia que existe uma declaração universal dos direitos dos animais? Sabia que há leis para definir as fórmulas correctas, éticas e “humanas” para criar, transportar e matar vitelos, porcos, galinhas e todos os outros animais usados na alimentação? Sabe distinguir a crueldade “necessária” da “desnecessária”? E o sofrimento “útil” do “inútil”? Já ouviu falar do “bem-estar animal”? Não? Então é provável que não faça a mais pequena ideia do que é o veganismo e que nunca tenha colocado em questão o supremo direito do Homem sobre os outros seres da Terra ou o seu lugar como centro do mundo, rei incontestado de tudo o que existe. É possível que nada o faça desistir de comer carne ou peixe, que ache perfeitamente admissíveis as experiências em animais, que não se incomode com o uso de peles ou com a caça, aplauda as touradas, não pestaneje com o tiro aos pombos, se entusiasme com as lutas de galos, adore levar as crianças ao Zoo e considere as feras o melhor do circo. É possível que encare algumas destas coisas como normais e necessárias e outras não e ache mal misturar tudo. É até possível que determine toda esta conversa como absolutamente ridícula. Em todo o caso, não tem nada a perder: pense nisso.

É difícil escolher por onde começar. Mas podia ser em números. Por exemplo, quantos animais morreram, morrem e morrerão, em média, para que um de nós, carnívoro, omnívoro, apreciador de calçado de pele genuína, cintos de couro, casacos de cabedal e abafos de pêlo, utilizador de cremes, perfumes e desodorizantes, antibióticos, antiesta-mínicos, anti-alérgicos e outras drogas corriqueiras, sujeito a uma ou outra cirurgia, transportado em automóveis, motos e demais veículos, alérgico a ratos, baratas, moscas e outras pragas, viva a sua vida normal? Milhões? Biliões? Triliões?

Entre vacas, ovelhas, cabras, porcos, galinhas, patos, perus, coelhos, perdizes, lebres, javalis, veados, peixes de todas as descrições, moluscos de variados calibres, crustáceos, crocodilos, avestruzes e tudo o que ocorra degustar, incluindo, se calhar em viagem ou em proveniência, macacos, cobras, cães, gatos, antílopes, tartarugas, golfinhos, gafanhotos, toupeiras e o que mais se use comer por esse mundo fora, uma hecatombe.

Só nos Estados Unidos, em cada ano, são 100 milhões de mamíferos e cinco biliões de aves. No mesmo espaço de tempo, a Grã-Bretanha consome 850 milhões de animais. Em média, um milhão e meio por pessoa.

Um oceano de cadáveres a perder de vista, esfaqueados, decapitados, electrocutados, asfixiados, baleados, armadilhados, arpoados, esmagados, espancados, sangrados, cozinhados vivos. Em agonia óbvia ou incerta, rápida ou lenta, necessária ou desnecessária. Quase sempre secreta, invisível na assepsia das prateleiras do supermercado, indeterminável no prato, mastigada com deleite, digerida com negligência. Quem é que já somou as vidas todas que vale, as vidas de que é feito? Quem é que já mediu as agonias, as dores, os sacrifícios que reclama? Quem é que vive com isso? E, deve também perguntar-se, quem é que pode viver sem isso?

É muito diferente quando se vê. Talvez, com o tempo, o hábito apague a náusea das imagens e dos sons e dos cheiros. É possível acreditar que é esta distância entre a vida nas cidades, longe dos ritmos essenciais do nascimento, do crescimento e da morte, longe do que se apelida de natural, que impede a convivência descontraída com o sangue e a carne e os ossos, com aquilo que se chama a inevitabilidade das coisas.

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Marcar animais com um ferro em brasa configura um sofrimento útil ou inútil?

Mas essa ligação tão óbvia entre o lombo, a costeleta e o bife e a carnificina industrial que estremece os matadouros, essa relação de causa e efeito que conduz dos estábulos e das pocilgas e dos aviários estes cortejos de animais comprimidos em gaiolas, em camionetas e vagões, quilómetros de animais em quilómetros de estrada, o espaço útil preenchido ao limite, a utilidade como critério, o sacrifício como razão, essa imanente verdade é um prodígio de negação. É um suave milagre que a consciência dos homens os salve daquilo que não vêem e apenas sabem e mais milagre é ainda que os salve daquilo que vêem e ouvem e cheiram. E fazem, claro. Nos matadouros como nas criações, nas produções de leite como de ovos, nos laboratórios como nos biotérios.

Um passeio, chamemos-lhe assim, pelos arquivos audiovisuais das organizações que pugnam pelos direitos dos animais revela-se um desafio à infinita capacidade de obliteração da memória.

A começar, por exemplo, pelo espectáculo das descargas de gado nos centros de abate, efectuado à paulada, ao pontapé, com guindastes (usados para descarregar vacas vivas, suspensas por uma pata, de um navio para o cais), passando pelas pecuárias intensivas onde cada animal é imobilizado num espaço ínfimo, sem luz do dia, manjedoura à frente, entregue à tarefa única de engordar o mais depressa possível para dar lugar a outro.

Pelas produções de leite onde as vacas são mantidas em maternidade constante, retirando-se-lhes os vitelos mal nascem, úberes ulcerados, deformados, o tempo de vida estreitado na margem dos quatro anos mais lucrativos, despachadas para o matadouro mal o fluxo enfraquece; percorrendo as fábricas de ovos onde as poedeiras, às quatro dentro de uma estreita gaiola, se esgotam na vertigem de verter claras e gemas em sequência contínua, o espeto e o fricassé como recompensa final.

Atravessando os longos corredores dos pomposamente denominados biotérios onde em milhares de pequenas gaiolas, sob luzes fluorescentes, em ambiente rigorosamente asséptico, se criam os hamsteres e os ratos e os coelhos e os gatos e os macacos que nos laboratórios desenvolvem todas as doenças, experimentam todos os vírus, bactérias e vacinas, pomadas, gotas, comprimidos, cremes de beleza, desodorizantes, perfumes.

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Quanto tempo leva um champô a destruir o globo ocular? Estes coelhos vão descobrir.

Segue: Animais: com que direito lhes negamos direitos? – cont.

Animais: com que direito lhes negamos direitos? – cont.

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos adaptados)

Texto de Fernanda Câncio

Anterior: Animais: com que direito lhes negamos direitos?

É preciso não esquecer, lembram os gratos cientistas, que é pelo holocausto destes animais e de todos os que os antecederam que tantos medicamentos foram lançados no mercado, tantas doenças incuráveis deixaram de o ser. É graças à morte atroz de milhares de cães, por exemplo, e é só um dos muitos exemplos possíveis, que os diabéticos dispõem hoje da insulina. Se não fossem os animais de laboratório, onde treinariam os cirurgiões as novas técnicas de cirurgia? Que seria dos transplantes? E, já agora, que seria da segurança automóvel não fora a insistência nos “crash-tests” com animais vivos?

Que seria do conhecimento dos danos cerebrais humanos se não fosse possível infligir, em circunstâncias rigorosamente controladas, pancadas brutais, com máquinas, martelos ou outros instrumentos menos sofisticados, na cabeça de babuínos supostamente anestesiados que, entre cada golpe, procuram fugir das amarras que os prendem?

Como se avançaria na psicologia humana e no estudo do autismo e outros fenómenos misteriosos da psique caso não fosse possível manter chimpanzés (animais muito inteligentes e sensíveis, tão parecidos connosco) em absoluta solidão, do nascimento à morte, para ver que tipo de loucura desenvolvem?

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No fim da experiência, terminada a utilidade do sofrimento, este gato deverá ser morto. De forma humana, claro.

Depois, há outras necessidades, talvez menos vitais mas nem por isso menos evidentes. A utilização de produtos de origem animal no vestuário, quer implicando a morte dos animais quer não – é o caso da lã –, é tão antiga como o Homem. Como é antigo o uso de armadilhas, cada vez mais sofisticadas à medida que a tecnologia progride, cada vez mais perfeitas no seu cuidado de não danificar nenhuma parte relevante do animal.

Fotografias e filmes, mais uma vez, atestam a forma como as mandíbulas de aço das armadilhas modernas aprisionam os animais – raposas, arminhos, texugos – sem os matar, numa agonia de horas, dias, até que o caçador apareça para o golpe de misericórdia. Ou como nas quintas de criação de animais para aproveitamento de peles se electrocutam, gaseiam ou asfixiam os visons, chinchilas, etc, de modo a não arruinar nem um pêlo da preciosa mercadoria, a mesmíssima preocupação que obriga os caçadores de focas bebés a espancá-las até à morte. Podia pensar-se que o fazem por prazer; pois não, é mesmo necessário.

Mas, é claro, há também o divertimento. Os espectáculos com animais, da tradicional tourada ao tradicional circo, passando pelas tradicionais corridas de cavalos, cães, etc. Para não falar da luta de galos, dos duelos de cães, ou de certos costumes pouco compreendidos no Ocidente que consistem em torneios de cavaleiros a disputar um cabra, por exemplo, ou a ver qual é que consegue, passando a galope, arrancar a cabeça a um galo pendurado pelos pés. O espantoso arquivo das organizações internacionais de defesa dos animais não deixa nada em claro.

Eis a incursão nos bastidores do circo, por exemplo, para descobrir, do outro lado das habilidades demonstradas em palco, os imprescindíveis treinos à base de chicote, paulada e aguilhões. Mas como será que, a bem, se ensina um elefante a caminhar nas patas traseiras? Ou um tigre a saltar um arco em chamas? Com muito amor? Decerto. O mesmo amor aos animais que leva toda a gente a adorar uma ida ao Zoo, onde animais habituados a percorrer dezenas de quilómetros num dia se vêem confinados a algumas dezenas de metros (se tiverem sorte) ou a uma jaula de três por quatro, chão de cimento, paredes de azulejo, talvez mesmo sem luz natural.

Segue: E não há leis?

E não há leis? – cont.

Notícias Magazine
12.Abril.1998
(excertos)
Texto de Fernanda Câncio

Anterior: E não há leis?

Pois é normal e até desejável que, na mesma altura em que se discute com cada vez mais virulência a questão dos direitos da vida intra-uterina e do ovo e da concepção e por aí fora, se polemize também em matéria de direitos animais. Um embrião humano com doze semanas terá mais sensibilidade e consciência e capacidade de sofrer que uma vaca? E, caso seja por aí, não são ambos criaturas de Deus?

Há no entanto poucas coisas que suscitem tanto ridículo e irritação como esta história dos direitos dos animais. É usual argumentar-se que enquanto houver crianças a sofrer, homens e mulheres privados dos mais ínfimos direitos, a morrer à fome, etc, etc, não se pode falar em defesa dos animais. Uma estranha lógica que levaria os nossos antepassados abolicionistas a calarem-se para sempre perante a consciência de que também, entre os membros da raça considerada superior, se poderiam indiciar casos de sofrimento, exploração e discriminação, e induziria as mulheres em luta pela igualdade a meterem a viola no saco à menção da existência de homens escravizados, discriminados, explorados e privados da “auto-determinação”. Considerar mutuamente exclusiva a demanda de direitos só colherá quando esses direitos colidam de algum modo. Pois não é o caso: em que é que defender os direitos dos animais pode contender com a defesa dos direitos dos homens? Ou, melhor ainda, como é que suportar, compreender e achar normal o maltratar de animais pode beneficiar a causa da dignidade humana?

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Primata bebé de olhos cosidos numa experiência qualquer: legal, justificado e útil?

Depois das crianças, das mulheres e de todos os indivíduos de raças que não a branca, era inevitável que chegasse a vez dos animais. Não que as outras discussões estejam encerradas, longe disso. Por definição, estas discussões nunca se encerram. Aliás, é instrutivo recordar que no Ocidente o primado inquestionável (?) dos direitos humanos não tem nem cem anos.

Foi neste século, após centenárias discussões sobre a existência, fiabilidade e solidez da “alma” feminina, que as mulheres ocidentais, por exemplo, conquistaram o direito de voto, a autonomia da personalidade jurídica dentro do casamento e o direito de decidir sobre a sua vida sexual e reprodutiva (quer dizer…). Mas é neste século, mais exactamente no seu final, que as afegãs são fechadas em casa, impedidas de ir à rua sem a companhia de um homem, interditas de estudar, ler, ouvir música, de decidir seja o que for por si próprias.
Foi neste século que os maus-tratos infligidos às crianças pelos detentores do poder paternal se configuraram como crime e foi apenas no século passado que a maioria das nações ocidentais aboliu a escravatura. Para se constatar agora, aqui, que talvez nunca tenha sido tão extensa a multidão de seres humanos, crianças e adultos, forçados a trabalhar sem regras nem horário por um salário de miséria.

Foi este o século que instituiu o tráfico de órgãos humanos como um negócio altamente rentável e é neste século que a manipulação genética e a clonagem se perfilam como as mais milagrosas das descobertas científicas, capazes de obviar as insuficiências da Natureza, de compatibilizar o coração de um porco com o corpo humano, de multiplicar ao infinito cada indivíduo e abolir todas as fronteiras bioquímicas.

Foi neste século que as Nações Unidas declararam o genocídio como o mais abominável dos crimes contra a Humanidade, mas foi este século que encenou o mais sistemático e voluntarioso genocídio de que há memória. Contam-se exactamente cinquenta e três anos desde que milhões de pessoas foram espoliadas de tudo o que lhes pertencia, enfiadas aos magotes em vagões de mercadorias, transportadas durante semanas, através de milhares de quilómetros, sem água, luz, comida, ou higiene de qualquer espécie, para um destino onde a subalimentação, o trabalho escravo, a sujeição a incontáveis torturas com fins recreativos ou alegadamente científicos, e a ameaça permanente da morte só se suspendiam com o decreto do fim da sua utilidade enquanto seres vivos.

Do ilimitado pragmatismo da empresa atesta a existência de artefactos de pele humana (de preferência tatuada, para um efeito mais artístico) como luvas e abat-jours, o registo das várias manipulações e experiências – nomeadamente filmes e fotografias da autoria dos metódicos algozes – com incontáveis corpos desmembrados e o aproveitamento da carne dos mesmos para a alimentação. Isso mesmo explicava um normalíssimo octogenário de barba branca num documentário recente passado na televisão portuguesa: quando faltava a carne nos campos de concentração “era necessário” ir buscá-la aos cadáveres que esperavam, à boca dos fornos crematórios, a solução final. “Não me pareceu eticamente reprovável fazê-lo”, afirmava ele. Acredita-se.

Segue: Acção directa

Matar por luxo – Aves

Micheal Bright
Matar por luxo
Colecção “Natureza em perigo”
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

 

Anterior: Beleza e crueldade

Todas as aves do céu

As aves sempre foram exploradas como fonte de alimento. Na Europa, a caça de aves canoras era uma maneira tradicional de completar a dieta dos camponeses. O impacto exercido nas populações de aves não era grande. Actualmente, porém, muitas aves acabam por ir parar a restaurantes onde especialidades como “laverca em pickles” e “patê de tordo” têm grande procura, e a caça transformou-se em massacre. Todas as Primaveras são abatidas centenas de milhares de aves em migração de África para a Europa. São mortas a tiro, aprisionadas em armadilhas e apanhadas em poleiros untados com visco. A matança é indiscriminada, algumas vezes para alimento, outras apenas por diversão. A Espanha dá conta de 30 milhões de mortes por ano; a França e a Itália, 40 milhões cada. Malta, Chipre, Líbano, Portugal e Grécia também participam na matança.

No Sudoeste da França, a caça à rola mobiliza dezenas de milhares de caçadores. Colocam-se em plataformas elevadas e abatem uma por uma as rolas migradoras, desprezando as leis de proibição de selecção. Uma directiva da CEE sobre conservação de aves selvagens exige que os estados membros protejam todas as aves migratórias, mas um forte grupo de influência assegura que as proibições de caça ao longo do Mediterrâneo sejam ignoradas.

No passado recente, existem vários exemplos da matança de aves, em larga escala, ter conduzido à destruição das espécies. O pombo-selvagem norte-americano foi, provavelmente, a ave mais numerosa do globo. Centenas de milhões de aves prosperavam em bandos enormes que enchiam os céus. Foram implacavelmente caçados como fonte de alimento e por desporto, até que o último morreu, em 1914. Hoje em dia, a destruição dos habitais está a reduzir o número de muitas espécies. O abate indiscriminado pode conduzi-las à extinção.

Na minha opinião, a destruição intencional e descuidada da vida selvagem é uma ofensa não só contra a Natureza, mas também contra a civilização.

Bil Oddier, observador de aves

Os andorinhões da Malásia crescem em ninhos parcialmente construído com a saliva seca dos pais, ingrediente essencial de uma cara especialidade gastronómica: a sopa de ninhos de andorinha. É bastante frequente as crias serem desalojadas para se ficar com os ninhos. Então, são dilaceradas por insectos vorazes.

 

O caçador e as vítimas

Culturas diferentes têm atitudes variadas em relação ao abate da vida selvagem. Para algumas, é simplesmente uma fonte de alimento; para outras é um meio de enriquecer rapidamente ou de manter tradições importantes. Na América do Norte e no Norte da Europa, é pela pura excitação de matar, nos Estados Unidos o abate de ursos, lobos, veados e alces é um grande negócio. Na Escócia, os caçadores perseguem os veados machos por causa das suas armações — um desporto muito lucrativo. Não estão interessados na perseguição, muito menos sedutora, do veado fêmea. Em consequência disso, as manadas ficam desequilibradas, com demasiados veados em busca de comida. Mas os atiradores também criam animais de caça para os soltarem e abaterem. Este tipo de caça acontece, frequentemente, em grandes propriedades que preservam a área selvagem.

Nas opulentas Europa e América do Norte as espécies caçadas não estão, geralmente, ameaçadas; mas noutras partes do mundo, a caça de vida selvagem é um modo de vida necessário. Por que haveriam os pobres de se preocupar com a extinção de uma espécie, quando têm que se preocupar com a sua própria sobrevivência? Comerciantes sem escrúpulos, atraídos pelo dinheiro do Ocidente, tiram partido dessa situação difícil e encorajam o saque da vida selvagem. Até que os destinatários do saque compreendam o prejuízo causado para lhes satisfazer os caprichos e desejos, o mundo selvagem continuará a ser devastado.

Seguir o rasto de um veado, na floresta, e abatê-lo com arco e flecha exige perícia. Para algumas pessoas, a caça parece satisfazer uma necessidade primitiva de perseguir e matar. No Canadá, a época de caça às aves aquáticas migratórias é esperada por mais de 385.000 caçadores que pagam uma licença de 10 dólares. Assim, ajudam à conservação do ambiente, pois parte da cota vai para o “Habitat Selvagem do Canadá”.

Um urso à caça

Um urso à caça

Esta história não é nenhum conto de fadas.

Era uma vez um ursinho a quem faltavam pêlos na cabeça.

A sério! Quando o urso veio ao mundo, tinha um pêlo maravilhoso no corpo todo. Só em cima, no cocuruto da cabeça, havia uma mancha redonda e despida.

— Oh, uma careca! — disse o pai. — De certeza que o pêlo ainda vai nascer. Tem tempo.

Mas não cresceu. Nem com o tempo.

Então, a mãe pôs-lhe umas raízes na careca: rábano, raízes de árvores, raízes de dente-de-leão, raízes de acanto.

— É das raízes que tudo nasce — dizia a mãe — portanto, isto há-de ajudar!

Mas não ajudou. A mãe esfregou com água da chuva.

— A água da chuva faz nascer tudo.

Nada.

Esfregou estrume de galinha.

— Os homens também o usam para as plantas crescerem.

Nada.

Então o irmão do urso cuspiu-lhe na pelada.

— Desculpa, mas teve de ser! — disse o irmão. — Onde eu cuspo, medra sempre alguma coisa.

Na cabeça do urso, contudo, não cresceu nada.

— Não é assim tão mau — disse a mãe. — Põe um gorro.

Mas o urso só usava o gorro quando estava frio. No Verão tirava-o, primeiro, porque tinha muito calor, e segundo, porque todos os outros ursos olhavam para ele com um olhar tão esquisito como quando lhe viam a careca.

— Faz tu alguma coisa! Um bom urso sabe sempre tirar-se de apuros — dizia o pai. — Caça um animal, arranca-lhe o pêlo e depois colamos-to na cabeça.

— Com cuspo — disse o irmão.

O urso saiu para o bosque e encontrou um tigre que bufava ferozmente e se preparava para lhe saltar. Zás! O urso saiu dali e foi a correr para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não. No bosque só estava um tigre e eu não quis caçá-lo. Não quero ficar com riscas na cabeça.

No dia seguinte, o urso voltou ao bosque para ir caçar e viu vir ao longe um lobo a lamber os beiços.

O urso fugiu o mais depressa que pôde e correu para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não, só encontrei um lobo e não quis caçá-lo. Tinha pêlo cinzento e branco e eu não quero parecer assim tão velho.

Na caçada seguinte, apareceu-lhe, de repente, uma raposa, de boca aberta. O urso foi mais rápido e conseguiu chegar inteiro a casa.

— Voltaste a não caçar nada? — perguntou o irmão.

— Não, só vi uma raposa e não quis apanhá-la. Cheirava a carne podre e eu não quero ter maus cheiros na cabeça.

— Esta é a minha última tentativa — disse o urso, no dia seguinte, ao partir para o bosque.

Não encontrou ninguém e foi-se embrenhando nele cada vez mais. Procurava nos matagais, rastejou para dentro dos arbustos, subiu a uma árvore. Aí, na segunda ramificação, estava um esquilinho a dormir, e o seu pêlo era da mesma cor do pêlo do urso.

— Ora aqui está! — disse o urso, esfregando as patas de contente. Levantou-se para fulminar o esquilo com um golpe. O esquilinho abriu um olho e piscou-lho amigavelmente e sem medo.

— Desculpa! — disse o urso. — Não quero que seja assim. Não quero ficar com remorsos.

Baixou a pata, estendeu-a ao esquilinho e desceu do ramo. Sentou-se no musgo, encostou-se à árvore e, como estava cansado, adormeceu também.

Chegou depois junto dele um arganaz, ou melhor, uma mãe arganaz com uma barriga muito gorda. Passou furtivamente pelo urso, rastejou-lhe pelo braço e pelo ombro até que chegou à cabeça.

— Olá! — exclamou ela. — Este lugarzinho parece ter sido feito para mim. Não é lá muito macio, mas à volta é quentinho.

Arrancou algum pêlo seu, com o qual almofadou a pelada, instalou-se e deu à luz os filhotes.

Quando o urso acordou, sentiu uma comichão esquisita na cabeça. Levou a pata à mancha branca – como ele lhe chamava – e viu que se encontravam lá um rato grande e quatro ratinhos que sentiu não terem pêlo. Levantou-se com muito, muito cuidado, e foi para casa pé ante pé.

A mãe, o pai e o irmão ficaram assombrados.

— Agora já tens pêlos na cabeça — disseram.

O urso passou a dormir de costas direitas, sentado numa cadeira, até os pequenos arganazes saírem da pelada, rastejarem atrás da mãe pelos ombros e pelo braço do urso e, passando pela perna dele, seguirem na direcção do bosque.

Aos poucos, o vento fio soprando da cabeça do urso o pelo do arganaz.

— Afinal, estou muito satisfeito com a minha careca — disse o urso. — Talvez alguém mais possa vir a precisar dela.

Hans Manz

Reinhard Michl (org.)
Wo Fuchs und Hase sich Gute Nacht sagen
Hildesheim, Gerstenber Verlag, 2002
Tradução e adaptação

Porque maltratamos os animais?

Miles Marton
Porque maltratamos os animais?
Porto, Edições Asa, 1990

Que se entende por maltratar os animais?
Durante milhares de anos, o homem matou animais para se alimentar e vestir e por desporto. Mas há muitas pessoas que consideram que não devemos tratar os animais dessa maneira. Será que os animais sofrem, desnecessariamente, nas mãos dos seus donos, tratadores, agricultores, cientistas e caçadores?
Este livro pretende fazer-te pensar se teremos o direito de maltratar os animais como fazemos constantemente.

Será boa ideia ter animais de estimação?
Ter um coelhinho pode ser muito bom. Mas será que é justo manter o animal fechado entre as paredes dum quarto?
Muitos de nós gostamos de ter animais de estimação.
Porque é que gostamos deles? Talvez porque dependem de nós ou porque nos dão afecto. Mas, que é que fazemos por eles?
Observar peixes tropicais ou afagar um gato é agradável e pode ajudar-nos a acalmar quando estamos preocupados. Mas estará certo termos os animais só para nosso prazer? Sim, desde que olhemos bem por eles. No entanto, há pessoas que não o fazem. Nas cidades há muitos cães a quem é dada muita comida e pouco exercício.

O cão é chamado “o melhor amigo do homem”. No passado, os homens e os cães tomavam conta uns dos outros. Estes protegiam as pessoas dos seus inimigos, fossem eles animais ou outros homens, e caçavam para os seus donos. Hoje, com as lojas, já não precisamos dos cães da mesma maneira.
Como é que tratas os animais? Um animal de estimação requer muitos cuidados e atenções. Os hamsters são muito fáceis de cuidar embora precisem de um mínimo de espaço. Muitos animais sofrem em pequenas gaiolas ou por serem maltratados.
Os animais não são brinquedos que se oferecem como presentes. Requerem uma alimentação regular e grandes cuidados, durante muitos anos.

As pessoas fazem mal aos seus animais de estimação?
Todos os anos, milhares de cachorros e de gatos, abandonados pelos seus donos que já não os querem, têm de ser abatidos pela polícia e pelos serviços de saúde.
Por vezes, os animais têm de ser deixados com outras pessoas. Se tiveres necessidade de o fazer, tenta deixar o teu animal com alguém que saibas que o tratará bem durante a tua ausência.
Deixar o cão no canil quando vais de férias, pode ser doloroso para ele.

É crueldade mantermos os animais num jardim zoológico?
Podermos observar os animais selvagens de perto é excitante e, ao mesmo tempo, permite-nos aprender muitas coisas com eles. Animais pequenos, como os esquilos, que não requerem um espaço muito grande, são ideais para permanecerem nos zoos. No entanto, animais maiores, como os elefantes, ursos polares e golfinhos ficam aborrecidos com o encarceramento a que são sujeitos. Alguns deles precisam de companhia e de muito espaço, o que nem sempre têm nos jardins zoológicos.
Algumas pessoas pensam que, se podemos ver os animais na televisão, não é necessário tê-los num zoo.

Muitos animais selvagens morreram já em consequência da actividade do homem e muitos mais estão ameaçados. Precisam de espaços naturais para sobreviver em liberdade. Temos de tentar equilibrar as nossas necessidades com as dos animais.
Os jardins zoológicos podem salvar animais em perigo. Os bons zoos mostram como vivem os animais no seu habitat natural e como é importante preservá-lo. Isto poderá fazer com que os animais sejam protegidos no seu ambiente natural. Podem ainda desempenhar um importante papel na preservação de espécies em extinção, ao permitirem a reprodução e crescimento de animais que são, posteriormente, devolvidos à vida selvagem.

Os animais selvagens são maltratados pelas pessoas?
Alguns animais, como o rinoceronte e o elefante, precisam de ser especialmente protegidos já que são muito procurados pelos seus chifres e dentes, que são usados como ornamentos. Em todo o Mundo, os pássaros e animais selvagens são incomodados pelo homem que, ao invadir os seus domínios, os deixa sem local para viver.
Também produzimos resíduos que poluem os rios e os mares, o que provoca a morte de peixes e, por consequência, das baleias que deles se alimentam.
Os gorilas da África Central foram salvos da extinção porque as florestas onde vivem são agora áreas protegidas.

Devemos usar peles de animais como vestuário?
Algumas pessoas gostam de usar peles de animais porque pensam que é bonito. No passado, o homem usava peles porque esse era o único material disponível para fazer agasalhos. Actualmente, podem fazer-se roupas quentes a partir de substâncias vegetais e de produtos sintéticos como o poliéster e o nylon. Apesar disso, os animais continuam a ser mortos para se utilizar a sua pele. Raposas, castores, martas e gatos selvagens são capturados e mortos.
Carteira de pele de gato-tigre. Os gatos selvagens estão a tornar-se raros e precisam de ser protegidos.

E os animais da quinta?
As pessoas comem carne desde há milhares de anos. Até há pouco tempo, os animais eram criados em pequenas quintas. Os criadores sabiam que, quanto melhor os tratassem, melhor seria a carne.
Actualmente, muita da carne é produzida em “quintas-fábricas”, nas quais o maior número de animais é metido no menor espaço possível, o que se traduz em carne, leite e ovos mais baratos e em maior quantidade. No entanto, há pessoas que defendem que não devemos comer carne.

Quais são os custos da carne mais barata?
Nas modernas quintas de criação, os frangos são mantidos em gaiolas de arame demasiado pequenas. Em alguns países, este tipo de criação está a ser proibido. Pequenos aperfeiçoamentos nas quintas melhorarão substancialmente a vida de milhões de animais. Mas como o criador e as empresas que fabricam alimentos pretendem manter as suas margens de lucro, estas medidas traduzir-se-ão num aumento do preço da carne.
As galinhas em pequenas gaiolas põem mais ovos do que as que são mantidas nos tradicionais galinheiros.

Os animais devem ser usados em testes de medicamentos?
Os cientistas usam animais para observarem o funcionamento do corpo e para procurarem a cura para certas doenças. Se não o fizessem, teriam de ser pessoas a arriscar a sua vida e saúde para testar novos medicamentos.
Certas pessoas afirmam que não deveríamos fazer aos animais aquilo que não fazemos a nós próprios. Mas, será que os animais sentem do mesmo modo que nós? E indiscutível que são capazes de sentir a dor mas, por serem menos inteligentes que o homem, há quem pense que o seu sofrimento é menor que o do ser humano.
Champôs, sabonetes e batons são testados em animais. Valerá a pena sacrificar coelhos por um novo champô? Alguns produtos não utilizam animais em testes.

Devemos usar animais em espectáculos?
Os animais são usados em espectáculos desde tempos remotos. Alguns mais cruéis, tais como as lutas de ursos e de galos, foram proibidos. No entanto, há animais que continuam a ser caçados por divertimento, havendo pessoas que pagam muito dinheiro para disparar sobre leões em África.
Por vezes, o número de animais duma determinada espécie torna-se demasiado elevado numa certa área, pondo em causa a sua própria sobrevivência e a de outros animais. Por essa razão, os caçadores afirmam que não maltratam os animais pelo facto de matarem alguns. Mas há muita gente que considera isto cruel.
Muitos países não permitem o uso de animais no circo porque consideram que isso é uma forma de os maltratar.

Temos necessidade de maltratar os animais?
O relacionamento que temos com os animais está a mudar. Já não necessitamos tanto deles para nos protegerem ou para nos arranjarem alimentos. Em contrapartida, usamo-los mais para outros efeitos, como sejam os testes de novas drogas, a companhia e o fornecimento de carne.
As pessoas maltratam os animais quando põem os seus interesses à frente de tudo. Os animais, as plantas e o homem vivem todos no mesmo mundo e dependem uns dos outros. Temos de respeitar os animais no nosso próprio interesse.
Continuamos a usar as ovelhas para obtermos carne e lã. Estes animais podem sofrer de falta de cuidados quando são encerrados nas quintas de criação intensiva. Os animais das quintas precisam que olhem por eles.