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No refúgio dos ursos bailarinos

 

Notícias Magazine
21.Out.2007

No refúgio dos ursos bailarinos

 

Na ilha grega de Arkturos há um santuário especial. Um centro de acolhimento onde vivem trinta ursos, resgatados a tristes destinos: refugiados de guerra, confiscados a circos e a ciganos que os passeavam pelas ruas para mostrarem, os seus dotes de dançarinos.

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O centro de informação sobre os Ursos Castanhos, na ilha grega de Arkturos, na Macedónia Ocidental, recebe mais de trinta mil visitantes por ano. O grande objectivo é contribuir para uma maior consciencialização dos problemas ambientais e para a necessidade de preservar os animais selvagens e os seus habitats.

 

Em Arkturos foi criado um centro para recolher os ursos bailarinos (confiscados aos seus donos que lhes queimavam as patas para dar a impressão de dançarem) e outros, como ursos “refugiados de guerra” vindos do zoo de Belgrado, ou um urso preto americano resgatado de um circo. Um staff de profissionais voluntários cuida deles e do seu habitat.

 

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Há mais de 35 milhões de anos que os muito adaptáveis ursos castanhos conseguiam encontrar boas condições de vida em quase todo o continente europeu. Mas calcula-se que só nos últimos dois séculos a distribuição e a população de ursos castanhos tenha decrescido 60 e 50 por cento, respectivamente, conduzindo a uma dramática fragmentação daquela que sempre foi uma zona de habitat para este animais. Actualmente, os ursos castanhos sobrevivem em pequenas populações isoladas no Sudeste Europeu e foram oficialmente considerados uma espécie ameaçada. O contínuo declínio da população de ursos castanhos e a destruição dos seus habitais devem-se sobretudo a factores humanos. Nos últimos anos, a ilha grega de Arkturos tem-se empenhado activamente em salvar esta espécie.

A triste história da «dança»

urso-1.jpgOs ursos castanhos são muito populares na Grécia. Era frequente vê-los passear nas ruas, pelas trelas dos donos, geralmente ciganos, que os faziam dançar ao som dos batuques dos seus tambores. Só que esta «habilidade» tinha por detrás uma triste história: em bebés, os donos queimavam-lhes as patas da frente para que as levantassem e abanassem enquanto tocavam, dando assim a impressão de estarem a dançar. Em jovens e adultos, traumatizados pela experiência, os ursos levantavam e abanavam as patas sempre que ouviam os batuques.
Em 1969, esta prática foi proibida por lei. Mas havia um problema: as autoridades não podiam confiscar os ursos aos donos porque não tinham onde os guardar. E estes animais nunca conseguiriam sobreviver em estado selvagem. Os donos partiam-lhes os dentes para que não os mordessem e estão psicologicamente perturbados pela experiência da vida em cativeiro.

Refugiados de guerra

Em 1992, a ilha de Arkturos fomentou a criação de uma organização não governamental e sem fins lucrativos para proteger os ursos castanhos. A iniciativa rapidamente conseguiu o apoio de fundos privados e da União Europeia. Foi criado o Centro de Informação sobre os Ursos Castanhos e concebido um abrigo para acolher os ursos «bailarinos» e outros, como refugiados do Zoo de Belgrado, evacuado durante a guerra, e um urso preto americano resgatado a um circo. Hoje vivem no centro trinta ursos. Uma equipa de 16 pessoas, coadjuvada por quarenta associados ao projecto e mais quarenta voluntários, tratam dos animais e da preservação do seu habitat. O centro recebe mais de trinta mil visita por ano e desempenha um papel fulcral na consciencialização das pessoas. Porque a sobrevivência destes ou de quaisquer outros animais depende só de uma verdade muito simples: para que a vida no planeta continue, os seres humanos e os animais selvagens têm de saber «coabitar».

 

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Estes ursos seriam incapazes de sobreviver no estado selvagem. Têm os dentes partidos pelos antigos donos (que o faziam para não serem mordidos) e estão perturbados pela sua experiência de vida em cativeiro. Os ursos castanhos existem no continente europeu há milhões de anos. Hoje, são uma espécie ameaçada.

 

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Matar por luxo

Micheal Bright
Natureza em perigo – Matar por luxo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

Introdução

O Homem sempre matou animais. Tradicionalmente, matava por necessidade alimentar e de vestuário, mas o esqueleto do animal também proporcionava utensílios domésticos, joalharia e outros ornamentos. Nada era desperdiçado. Hoje em dia, vários milhões de animais são mortos, todos os anos, não para fornecer a comida necessária à sobrevivência, mas para abastecer o lucrativo mercado do luxo. Alguns animais são abatidos para serem usados em símbolos de uma posição social abastada ou para favorecer uma imagem de virilidade; mas que preço pagam os animais, para satisfazer esta vaidade humana? Alguns animais são retirados do seu habitat e criados em cativeiro, exclusivamente por causa da sua pele, do seu pêlo ou do aroma que produzem. Será uma maneira aceitável de obter um produto animal? Em certos casos, é o próprio acto de matar que se torna um luxo.

Muitos dos animais comerciados no mercado dos artigos de luxo foram de tal modo reduzidos em número que estão ameaçados de extinção. Manifestamente, têm de ser protegidos. Mas, por vezes, surge um dilema: quem deverá ter prioridade? Os povos nativos que precisam de matar para sobreviver, ou as espécies raras? Para controlar o comércio mundial de produtos animais, foi assinada em Washington, em 1973, a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies de Fauna e Flora Ameaçadas. Todavia, apesar disso, muitas espécies são abatidas e comerciadas ilegalmente. Algumas, tais como elefantes e rinocerontes, correm perigo de desaparecer totalmente. A marta marinha, caçada por causa da pele, extinguiu-se. Quantas mais espécies desaparecerão antes de nos convencermos de que a matança tem de parar?


Durante as primeiras seis semanas de vida, a cria da foca-da-Gronelândia apresenta uma pelagem extremamente apreciada. Todos os anos, dezenas de milhares de crias eram espancadas até à morte por caçadores comerciais da Terra Nova e da Noruega. Em 1968, uma manifestação pública de repúdio conduziu, eventualmente, à proibição de importação de peles de foca, por parte dos países da CEE. Essa proibição praticamente eliminou o mercado.


Os Esquimós (Inuit) também matam focas por causa da pele. Parte da sua subsistência depende dessa caça tradicional. Porém, como a caça é considerada cruel, têm sido feitos apelos para que lhe seja posto fim.


A caça às peles

Por trás da fachada elegante da indústria de peles, que movimenta rios de dinheiro, está a triste realidade da matança. Todos os anos, milhões de animais, apanhados em armadilhas, sofrem uma morte lenta e dolorosa. Ficam presos pelas patas, pescoço ou tronco, em armadilhas de metal ou nós corredios. Os animais permanecem na ratoeira cerca de 15 horas, antes de serem estrangulados ou mortos à paulada. Um lince-do-Alasca esteve com a pata presa numa armadilha durante seis semanas. Conseguiu manter-se vivo tanto tempo porque outros animais do seu grupo familiar lhe levavam comida. As armadilhas são cegas. Muitos outros animais, tais como águias, corujas, cisnes e animais domésticos, são apanhados, mortos e rejeitados. Na gíria do comércio, estes animais são “lixo”.

Nas terras confinantes com o Árctico, as pessoas dependem da caça às peles como meio de subsistência. Muitas temem que uma proibição do uso de armadilhas possa afectar gravemente os índios canadianos isolados e as comunidades Inuit desta área. Outras acham que a utilização de armadilhas se justifica porque mantém sob controlo a população de animais produtores de peles.

Alguns países condenam o uso de armadilhas e, contudo, importam peles. Por exemplo, dos milhões de peles importadas pela Grã-Bretanha todos os anos, muitas delas são de animais selvagens apanhados por armadilhas de guindaste, mecanismos que foram banidos na Grã-Bretanha, em 1965, depois de um relatório do governo as ter descrito como “instrumentos diabólicos que causam um sofrimento incalculável”.

A moda das peles

Nos Estados Unidos, apesar das campanhas contra a caça às peles, o comércio retalhista triplicou durante a última década, envolvendo dois biliões de dólares. A moda masculina é responsável por grande percentagem desse aumento. Cada vez mais pessoas têm possibilidades de comprar peles verdadeiras e caras e não têm problemas morais em fazê-lo.

A armadilha mais utilizada nos E.U.A. é o guindaste para aprisionar os animais pelas patas. As mandíbulas de metal soltam-se e cerram-se quando o animal pisa o mecanismo de disparo. É como se a porta de um carro se fechasse sobre a nossa mão. Frequentemente, a carne da pata do animal é cortada e o osso partido. Às vezes, o animal, rói a própria pata, numa tentativa para se libertar.


Milhares de raposas são mortas, em toda a Europa. Muitas são apanhadas em armadilhas e envenenadas ilegalmente pelos chamados “bicheiros”. Por engano, são apanhados muitos texugos, que são animais protegidos.


Criação de animais de pêlo

A maioria das peles não provém de animais selvagens, mas sim de “fazendas” de criação de peles onde grandes quantidades de animais, como a marta, a zibelinha e a raposa, são criadas em pequenas jaulas. A criação de animais de pêlo é um grande negócio. Na Finlândia, por exemplo, existem 6.500 “fazendas” destas. As maiores produzem mais de 46.000 peles de raposa e 500.000 de marta, anualmente.

Na última década, a produção quadruplicou, apesar das pressões exercidas pelos apoiantes das campanhas contra o uso de peles. O facto é que, na maior parte do mundo, um verdadeiro casaco de peles ainda é considerado um símbolo de posição social. No Texas, vêem-se pessoas a usar peles caríssimas, mesmo em dias quentes de Verão. Nas regiões do Norte, contudo, as peles ainda são consideradas a melhor protecção contra o frio.

Os criadores de animais de pêlo acham que a sua actividade constitui o aspecto aceitável da indústria de peles. Advogam que os seus animais gozam de excelente saúde e vivem em boas condições. Se assim não fosse — dizem — as peles adquiririam mau aspecto e perderiam valor.

Os animais são mantidos em jaulas pequenas com fundo de arame e não lhes é permitido saírem delas, pois os criadores temem que os animais sujem ou danifiquem as peles, caso os deixassem à solta. Não obstante, as peles acabam por ser danificadas devido a lutas, contaminação pela urina ou má nutrição, o que origina enormes perdas financeiras para as “fazendas”. Nem sequer os animais confinados a jaulas permanecem intactos. As martas são agressivas e mordem-se umas às outras. Por vezes, são vítimas de canibalismo.


Nunca consegui realmente entender a ideia de que vestir a pele de um animal morto seja atraente. Não tenho absolutamente vontade nenhuma de usar peles e nunca possuí alguma. Gostaria sempre mais de ver a pele no próprio animal.


Marie Helvin, Modelo


Por exemplo, as marta das “fazenda” são mortas por gaseamento, injecções letais ou electrocussão. Afirma-se que a morte é imediata, mas isso não foi ainda provado.


A Vicunhas são uma espécie de lama e encontram-se no Chile e no Peru. Em tempos eram abundantes, mas o seu número foi consideravelmente reduzido depois de os invasores espanhóis as terem começado a matar por causa da sua lã, extremamente apreciada. Os Incas (o povo que habitava o Peru, antes da chegada dos Espanhóis) tosquiavam as vicunhas sem as matar. Actualmente, a caça e abate de vicunhas para extracção de lã está proibida. Pelo contrário, as manadas são levadas para ranchos protegidos, nas montanhas.


Na linha de fogo

Muitos dos grandes predadores da natureza transformaram-se em vítimas. Os caçadores furtivos abatem a tiro, capturam com armadilhas e envenenam alguns dos animais mais raros do mundo, apenas para fornecer casacos de peles exclusivos para o mercado do luxo. As peles dos felinos malhados, por exemplo, atingem altos preços e isso encoraja a caça ilegal. Por vezes, o comércio legal ainda piora as coisas. É permitida a venda de peles de espécies protegidas, declaradas antes da introdução de restrições. Este comércio legal muitas vezes esconde a caça furtiva e transacções ilegais. Por exemplo, vários felinos malhados da Índia, tais como o leopardo das neves — “Uncia uncia”, são ilegalmente abatidos por membros de tribos nómadas. Os animais são abatidos nos Himalaias e as suas peles são contrabandeadas em Kashmir, ou vendidas com peles legalmente adquiridas. Posteriormente são traficadas na Europa e no Japão.

Noutras partes do mundo, os ursos polares, lobos, cangurus, tigres, focas e zebras, perdem as suas peles em favor dos caçadores. Até as peles do extremamente raro panda gigante, o próprio símbolo da conservação, têm sido descobertas no comércio ilegal que se efectua desde a China até Taiwan.

Todos os anos, os mercados legais de peles da Europa transaccionam 700.000 peles de animais selvagens, sendo dois terços constituídos por peles de pequenos felinos malhados. O mercado ilegal poderá ter dimensões maiores. Os comerciantes descobriram mil e uma maneiras de dissimular a fonte e o destino das peles ilegais, canalizando-as para terceiros países onde lhes são facultados documentos de comércio internacional legalizado. Este processo é chamado “lavagem”.

Outros modos de enganar o sistema incluem declarações falsas dos nomes das espécies, do país de origem e do fim a que se destina a importação. Há alguns anos, um grande carregamento de peles de chita foi interceptado no aeroporto Kai Tak, de Hong Kong, num voo vindo da Suíça. A remessa estava etiquetada como “marca italiana”.

Já não comemos os miolos de outras pessoas para adquirir sabedoria; seremos ainda tão primitivos que tenhamos de usar peles de animais para alcançar a beleza?

Joanna Lumley, actriz e escritora

A chita é ainda é um alvo da caça ilegal. Restam cerca de 25.000; contudo, todos os anos são comerciadas 5.000 peles.

Muitos dos felinos malhados estão inteiramente protegidos, o que não impede que casacos sejam feitos com as suas peles. Estão à venda peles de leopardo da África e da China, de pantera nebulosa da Ásia, de ocelote, jaguar, gato marsupial e margaí da América do Sul. Todas elas se podem encontrar nas lojas elegantes de Munique e Tóquio. Um ano após a proibição de peles de felinos malhados do Paraguai para a Alemanha Ocidental, foram transaccionadas 95.000 peles.

PERFIL…

Os grandes felinos

Os grandes felinos (leão, tigre, leopardo, jaguar, leopardo das neves, pantera nebulosa e chita) e os pequenos felinos (lince, gato-selvagem, puma, ocelote e várias espécies, tais como o serval e o caracal) são todos carnívoros. São predadores famosos, no topo das suas cadeias alimentares, e quase só o homem é que os abate. Contudo, a matança em larga escala de tigres e ocelotes e o comércio das suas peles malhadas quase os levaram à extinção. Como resultado disso, o tigre tornou-se uma espécie protegida, em 1972. Desde então, o seu número voltou a aumentar.

O leopardo

Os leopardos machos podem atingir 1,90 m de comprimento, têm uma cauda de 1 m e pesam cerca de 90 kg. As fêmeas atingem cerca de metade do tamanho. Vivem cerca de 12 anos em liberdade e até 20 anos em cativeiro.

O leopardo espalha-se pelo Sul da Ásia e em África, o que o torna no membro mais vastamente distribuído da família dos Felídeos. Os leopardos caçam durante a noite, atacando a presa de emboscada ou seguindo-a silenciosamente, de muito perto. A presa é levada para uma árvore, onde fica fora do alcance de leões e hienas.

A cor e o padrão da pele dos leopardos varia conforme o habitat. A base da cor de fundo é o castanho, o cinzento ou o amarelo-dourado, com círculos mais escuros ou laçadas.

O lince

O lince adulto pode atingir mais de 1 m e pesar cerca de 38 kg. Vivem 12 a 15 anos. Os gatos-selvagens da América do Norte diferem do lince por terem malhas escuras, patas nuas e não possuírem tufos de pêlos nas orelhas.

A cor castanho-acinzentada do lince permite-lhe confundir-se com a cor de fundo de uma densa floresta de coníferas.

Vive nas latitudes setentrionais da Escandinávia, no Norte da Ásia e na América do Norte. Com as patas compridas, consegue caminhar na neve alta. As patas são protegidas por pele espessa. Possui tufos de pêlos nas orelhas.

O leopardo das neves

O leopardo das neves vive nas montanhas do Sul da Ásia. Tem pêlo espesso e comprido. Sabe-se pouco sobre os seus hábitos. É noctívago, solitário e tímido.

Os exemplares grandes atingem 1,30 m de comprimento e a cauda mede 1 m. Pesa cerca de 75 kg. Vivem cerca de 15 anos em cativeiro. Também é conhecido por pantera da montanha.

Segue: Despojados da pele

Despojados da pele

Micheal Bright
Natureza em perigo – Matar por luxo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

Anterior: Matar por luxo

Despojados da pele

As vacas e os porcos não são os únicos animais utilizados para fornecer couro. As cobras, crocodilos, cangurus, caimões, lagartos e tubarões são chacinados e as suas peles são transformadas em vestuário e calçado de moda. Parte desse comércio é ilegal; mas grande parte dele não o é. Em 1986, El Salvador exportou 134.000 peles de caimão, apesar de ter uma população de caimões de apenas 10.000 animais. As peles “extra” foram de países onde existem restrições ao comércio, tais como o Panamá e a Colômbia.

O abate de caimões tornou-se semelhante a uma operação militar. Helicópteros-canhoneiras sobrevoam lagos e rios remotos, à noite. Holofotes localizam os animais, que são atingidos entre os olhos para não marcar as peles. No dia seguinte, os corpos são recolhidos. Estas actividades são ilegais, mas, infelizmente, os caçadores furtivos estão mais bem organizados do que os serviços de fiscalização do governo.

Um problema que surge com a tentativa de restringir o comércio de peles de répteis é que os países consumidores pactuam para ignorar os controlos internacionais. Os principais importadores de peles de répteis (França, Japão, Itália e Alemanha Ocidental) recebem milhões de peles, por ano, principalmente oriundas da Ásia e da América do Sul.

Alguns países iniciaram a criação de crocodilos, para satisfazer a procura de artigos de couro de crocodilo. Porém, os conservacionistas argumentam que o comércio encoraja o abate ilegal de animais selvagens. Quando se trata de fiscalizar o comércio, como é que as autoridades alfandegárias distinguem uma pele de animal criado em cativeiro da pele de um animal ilegalmente caçado sabe-se lá onde? A solução dada pela Nova Guiné é a etiquetagem das peles “de cultivo”.

Os tubarões fornecem o couro mais resistente que se conhece. Muitos são apanhados por pescadores mexicanos que enviam as peles secas para os Estados Unidos, para serem curtidas. No passado, o couro era usado por fabricantes de mobiliário para esfregar a madeira, e pelos esgrimistas no punho das espadas, para que as mãos não escorregassem com o sangue. Hoje utiliza-se para fabricar sapatos de qualidade e botas de vaqueiro. O comércio não tem restrições e ainda existem muitos tubarões no mar. A pesca intensiva poderia dizimar toda uma estirpe.

É moralmente inaceitável o abate deliberado de qualquer criatura viva — do crustáceo ao elefante — não sendo motivado pela fome, frio ou necessidades de saúde, mas tão-somente pelo luxo.

Richard Adams, autor de “Watership Down”

A pele de varano-malaio é passada clandestinamente do Bangladesh, Indonésia e Paquistão para o Japão. As peles de cobra também são populares, embora o padrão distinto da pitão seja facilmente descoberto pelos funcionários das alfândegas. Numa encomenda de 400 latas de caju, destinada a Singapura e originária da Índia, apenas 140 latas continham caju. As restantes continham peles de cobras, no valor de um milhão e seiscentos mil dólares.

PERFIL…

Crocodilos

Os crocodilos, aligátores, caimões e gaviais passaram pelas grandes extinções que fizeram desaparecer os dinossauros, há cerca de 65 milhões de anos. Sobreviveram, praticamente inalterados. Todavia, em apenas 100 anos, o homem quase conseguiu dizimá-los. Os crocodílidas possuem cérebros grandes. Além de mostrarem um comportamento instintivo, também são capazes de aprender. São predadores aquáticos bem adaptados, com os olhos e as narinas colocados no cimo da cabeça, o que lhes possibilita ver e respirar à superfície, com o corpo submerso.

O caimão-de-lunetas

O caimão sul-americano pode atinge mais de dois metros, desde o focinho até à extremidade da cauda. Vive nas bacias hidrográficas do Amazonas e do Orenoco. Cresce cerca de 30 cm por ano e pode viver de 75 a 100 anos, se o homem deixar.

O caimão-de-lunetas é assim denominado por causa da saliência córnea que une as órbitas oculares e que se assemelha à trave de um par de óculos. Um caimão adulto alimenta-se de gigantescos caracóis aquáticos, piranhas e qualquer outro animal que lhe surja no caminho. O caimão passa o dia escondido nos juncais ou estendido ao sol, nas margens dos rios. À noite, caça. Os exploradores contam os caimões, à noite, com uma lanterna, localizando os reflexos dos olhos do animal. Dos dois milhões de peles de crocodilos legalmente comerciadas todos os anos, três quartos são de caimão-de-lunetas. Outro milhão de peles sai ilegalmente do Paraguai, Bolívia e Brasil. A maior parte das peles é enviada para Itália, onde são transformadas em bolsas e carteiras dispendiosas.

O crocodilo-do-Nilo

Atinge cerca de 6,5 m de comprimento e pesa cerca de 1080 kg. Em liberdade, vive mais de 50 anos. Sabe-se de crocodilos que vivem mais de 100 anos. Os crocodilos-do-Nilo são responsáveis por muitas mortes.

O crocodilo-do-Nilo vive nas margens dos rios, em toda a parte de África. A fêmea do crocodilo enterra os ovos na areia e vigia o ninho enquanto os ovos incubam. Os crocodilos-bebés saem do ovo e apelam para a mãe, para os desenterrar. Depois, ela transporta-os, na boca, para a água. Durante os primeiros três meses, vivem em “infantários” em águas estagnadas. Se ameaçados, a mãe solta um grunhido e, todos ao mesmo tempo, mergulham na água.

Segue: Beleza e crueldade

Beleza e crueldade

Micheal Bright
Matar por luxo
colecção Natureza em perigo
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

Anterior: Despojados da pele

Beleza e crueldade

A vida selvagem sempre proporcionou aos humanos os ingredientes para medicamentos, poções, perfumes e cosméticos. Milhões de animais morreram devido à crença de que partes dos seus corpos possuíam propriedades mágicas que possibilitavam a cura de doenças, a cicatrização de feridas ou melhoria da aparência. Ainda hoje se buscam essas propriedades. A tradição é difícil de mudar, especialmente quando estão envolvidos grandes lucros.

Os cosméticos de luxo constituem um grande negócio em todo o mundo. Porém, cada vez mais, há uma forte «pressão pública contra a exploração de animais com objectivos frívolos. Muita gente considera inaceitável tal utilização dos animais, particularmente agora que os produtos sintéticos podem substituir os de origem animal. Uma bem sucedida companhia de cosméticos criou toda uma gama sem utilizar produtos de origem animal e sem testar os seus produtos em animais.

Um animal apanhado pelo conflito entre conservação da vida selvagem e a indústria de cosméticos é o veado-almiscarado macho. Os caçadores furtivos matam este animal por causa da glândula de almíscar, que contém um dos mais valiosos produtos de origem animal. A glândula é retirada e seca. Algumas são utilizadas para perfumes, embora existam produtos substitutos. As restantes são para utilização medicinal — bebidas “energéticas”, tónicos para crianças, sedativos para o tratamento da asma e epilepsia, estimulantes para a bronquite e pneumonia e afrodisíaco. Na Índia, os médicos tradicionais utilizam-na como estimulante cardíaco e nervoso, eficaz e para tratamento de mordeduras de cobras. Os animais têm sido criados em cativeiro e as suas glândulas “mungidas”, mas as secreções obtidas deste modo são de qualidade inferior. O abate do veado-almiscarado, para alimentar o comércio de almíscar, ameaça a sobrevivência do animal.


Muitas são as pessoas que exigem que se ponha termo aos testes de cosméticos com utilização de animais e ao abate dos mesmos para obtenção de matérias-primas. Os veados-almiscarados têm sido particularmente afectados pela sua utilização na indústria de cosmética. Existentes na Sibéria, China e Tibete, os animais têm vindo a ser protegidos com mais rigor.

As lágrimas de crias de dugongos ou vacas-marinhas são vendido como elixir para atrair a sorte, e o sucesso no amor. As lágrimas das crias são recolhidas após o abate das mães.


Chifres e marfim

Em África e na Ásia, a caça furtiva já quase exterminou todas as cinco espécies de rinocerontes. Durante as duas últimas décadas, o seu número foi reduzido em 85%. O chifre, que é simplesmente cabelo emaranhado, é procurado pelos Yemeni para punhos de adagas e por fabricantes de remédios tradicionais do Extremo Oriente para fazer baixar a febre. Há quem o tome como afrodisíaco (uma poção que se diz aumentar o desejo sexual). Diz-se que vale o seu peso em ouro. Todavia, os testes mostraram que o chifre de rinoceronte não possui qualquer valor medicinal e não faz melhor do que roer unhas. Embora o corno do antílope saiga seja oferecido como substituto, a procura de corno de rinoceronte continua e o futuro da espécie apresenta-se sombrio.


Nalguns parques, os cornos dos rinocerontes mortos em lutas são retirados. O corno é armazenado pelo governo, para impedir que seja comerciado. Apesar destas precauções, alguns atingem o mercado. Um caçador furtivo recebe cerca de 100 dólares por quilo, enquanto que o mesmo corno, no lémen do Norte, poderá ser vendido a 600 dólares por quilo. Restam cerca de 11 000 rinocerontes em África e cerca de 3 000 na Ásia.


A extensão da carnificina e a natureza das atrocidades cometidas contra os animais são suficientemente assustadoras. Contudo, poucos parecem entender como este comércio degrada o próprio Homem.
É impossível não crer que o Homem é o mais repugnante, cruel e perigoso dos animais.

David Bellamy, Conservacionista


O marfim dos elefantes era tão valioso que, em alguns países, era usado como moeda corrente, em vez de dinheiro. Na procura de marfim, por exemplo, em África, grupos inteiros de elefantes são abatidos com armas automáticas muito aperfeiçoadas. Outros morrem lenta e dolorosamente, com setas envenenadas. Apenas os seus dentes têm valor — as carcaças, não desejadas, são deixadas a apodrecer.

Todos os anos, são comerciadas mais de 1 000 toneladas de dentes, o que representa 70 000 elefantes, muitos deles caçados ilegalmente na África Central. Grande parte do marfim é enviado para o Japão e Hong Kong onde é esculpido como curiosidade ou guardado como investimento. Se o elefante se extinguir, o preço elevado dos dentes subirá em flecha.


O Japão é o maior consumidor mundial de marfim. Nos últimos anos, muito do marfim importado tem sido de fraca qualidade. Como os elefantes selvagens diminuem, os caçadores furtivos matam qualquer animal que encontram, incluindo elefantes-bebés com dentes minúsculos. Em zonas de guerra, o marfim é oferecido em troca de armas.


Troféus e curiosidades

Na maior parte do mundo, incluindo a Europa e os EUA, os produtos provenientes de animais selvagens ainda são adquiridos como símbolos de posição social e exibidos nos lares para impressionar os amigos e vizinhos. Algumas pessoas procuram deliberadamente possuir partes de animais raros ou perigosos para satisfazer uma imagem de “homem-da-selva” ou de “Rambo”. Outras compram curiosidades inocentemente, sem se darem conta do sofrimento envolvido. As cabeças de gorilas, por exemplo, são cortadas, empalhadas e montadas. Frequentemente, é morto o macho dominante. Sem a sua influência, a estrutura do grupo quebra-se e o resto da família corre o risco de morrer também.

A gama destas curiosidades é bizarra e variada. Uma mão de gorila vira cinzeiro, uma pata de elefante transforma-se em assento, uma pele de tigre serve de tapete e um gato-selvagem empalhado ornamenta a mesa do café. Ornamentos mais pequenos são frequentemente vendidos como recordações, tais como uma argola para guardanapos revestida de pele de lagarto ou um colar de dentes de tubarão.

Por vezes, a necessidade de um produto proveniente de animais selvagens é justificada. A França reivindica a necessidade de importar grandes quantidades de carapaças de tartarugas para fabricação de óculos para as pessoas que são alérgicas aos produtos sintéticos. Porém, não será um disfarce para um mercado de luxo?

O comércio destes objectos é enorme. Só os EUA importam, legalmente, 130 milhões de artigos, por ano. Os oficiais das alfândegas dos EUA apreendem importações ilegais avaliadas em mais de 7 milhões de dólares. São os animais empalhados e as peles por curtir, os artigos de marfim, as conchas e os corais provenientes do Sudoeste asiático, Havai e Seychelles; são as borboletas de Taiwan, as esponjas do Mediterrâneo e das Caraíbas e as bolsas de pele de avestruz, criada em cativeiro, do Japão.


“Temos provas de que o contrabando de drogas e o comércio ilegal de vida selvagem são controlados pela mesma Mafia latino-americana”.

Manfred Niekisch, TRAFFIC (unidades de inspecção do comércio de vida selvagem) Alemanha Ocidental


Comida de luxo

Os Inuit, que têm uma grande possibilidade de escolha de alimentos para comer, arpoam as muito raras baleias-da-Gronelândia, armazenam a carne e comem-na no Dia de Acção de Graças e no Natal. Será que esta caça “tradicional” (utilizando armas de fogo modernas) é necessária à sua sobrevivência ou ter-se-á tornado um luxo? Os animais selvagens tornaram-se um dos principais ingredientes no comércio de comida exótica para gastrónomos enfastiados. A carne de baleia excita os palatos no Japão, Noruega e Islândia. Na Alemanha Ocidental, podem comprar-se vários animais exóticos nos talhos — elefante, tigre, puma, urso, pitão, crocodilo, tapir, leão, leopardo e palanca. Mais de 100.000 animais exóticos e frequentemente raros, destinados a especialidades gastronómicas, são contrabandeados da China para Hong Kong, todos os anos. Esta grande procura de comida invulgar custa caro à vida selvagem.

Em determinados restaurantes de luxo, em Macau e Hong Kong, os ricos podem impressionar os seus amigos com um banquete cruel e ilegal. Um macaco jovem é trazido para a mesa, forçado a ingerir álcool e encerrado numa jaula, com a cabeça saliente no cimo da jaula, que é colocada por baixo de uma mesa de jantar com um buraco no centro, por onde sai a cabeça do macaco. Então, são comidos os miolos com o animal ainda vivo.

Os Europeus e os Americanos consideram este ritual cruel, mas a sua concepção de crueldade não é universal. Culturas diferentes têm pontos de vista diferentes quanto ao modo de tratamento dos animais. As pessoas de culturas diversas da europeia e norte-americana poderão achar que cozer lagostas vivas ou comer patas de rã são coisas desnecessariamente cruéis ou podem alarmar-se com a pesca excessiva que pode conduzir à extinção de espécies inteiras.


As rãs actuam como agentes controladores da população de insectos nocivos. O país gasta largas somas na importação de insecticidas enquanto que, por outro lado, permite a matança ilimitada de rãs para exportação.

Professor Zakir Hossain, Universidade de Dacca


O “patê de foie gras” é feito com fígados de ganso anormalmente inchados. Os gansos são forçados a ingerir comida, para assegurar que os seus fígados adquiram o tamanho e a contextura adequadas. As pessoas discordam desta prática cruel, mas não argumentam contra uma outra especialidade francesa: as patas de rã, que são cortadas com o animal ainda vivo.


As tartarugas são criadas em viveiros por causa da sua carne. Para as manter frescas, são postas de patas para o ar durante várias horas. A maioria das espécies selvagens está ameaçada e argumenta-se que a criação em viveiros só serve para encorajar a caça furtiva de tartarugas selvagens.

Segue: Matar por luxo – Aves


Matar por luxo – Aves

Micheal Bright
Matar por luxo
Colecção “Natureza em perigo”
Porto, Edinter, 1989

Excertos adaptados

 

Anterior: Beleza e crueldade

Todas as aves do céu

As aves sempre foram exploradas como fonte de alimento. Na Europa, a caça de aves canoras era uma maneira tradicional de completar a dieta dos camponeses. O impacto exercido nas populações de aves não era grande. Actualmente, porém, muitas aves acabam por ir parar a restaurantes onde especialidades como “laverca em pickles” e “patê de tordo” têm grande procura, e a caça transformou-se em massacre. Todas as Primaveras são abatidas centenas de milhares de aves em migração de África para a Europa. São mortas a tiro, aprisionadas em armadilhas e apanhadas em poleiros untados com visco. A matança é indiscriminada, algumas vezes para alimento, outras apenas por diversão. A Espanha dá conta de 30 milhões de mortes por ano; a França e a Itália, 40 milhões cada. Malta, Chipre, Líbano, Portugal e Grécia também participam na matança.

No Sudoeste da França, a caça à rola mobiliza dezenas de milhares de caçadores. Colocam-se em plataformas elevadas e abatem uma por uma as rolas migradoras, desprezando as leis de proibição de selecção. Uma directiva da CEE sobre conservação de aves selvagens exige que os estados membros protejam todas as aves migratórias, mas um forte grupo de influência assegura que as proibições de caça ao longo do Mediterrâneo sejam ignoradas.

No passado recente, existem vários exemplos da matança de aves, em larga escala, ter conduzido à destruição das espécies. O pombo-selvagem norte-americano foi, provavelmente, a ave mais numerosa do globo. Centenas de milhões de aves prosperavam em bandos enormes que enchiam os céus. Foram implacavelmente caçados como fonte de alimento e por desporto, até que o último morreu, em 1914. Hoje em dia, a destruição dos habitais está a reduzir o número de muitas espécies. O abate indiscriminado pode conduzi-las à extinção.

Na minha opinião, a destruição intencional e descuidada da vida selvagem é uma ofensa não só contra a Natureza, mas também contra a civilização.

Bil Oddier, observador de aves

Os andorinhões da Malásia crescem em ninhos parcialmente construído com a saliva seca dos pais, ingrediente essencial de uma cara especialidade gastronómica: a sopa de ninhos de andorinha. É bastante frequente as crias serem desalojadas para se ficar com os ninhos. Então, são dilaceradas por insectos vorazes.

 

O caçador e as vítimas

Culturas diferentes têm atitudes variadas em relação ao abate da vida selvagem. Para algumas, é simplesmente uma fonte de alimento; para outras é um meio de enriquecer rapidamente ou de manter tradições importantes. Na América do Norte e no Norte da Europa, é pela pura excitação de matar, nos Estados Unidos o abate de ursos, lobos, veados e alces é um grande negócio. Na Escócia, os caçadores perseguem os veados machos por causa das suas armações — um desporto muito lucrativo. Não estão interessados na perseguição, muito menos sedutora, do veado fêmea. Em consequência disso, as manadas ficam desequilibradas, com demasiados veados em busca de comida. Mas os atiradores também criam animais de caça para os soltarem e abaterem. Este tipo de caça acontece, frequentemente, em grandes propriedades que preservam a área selvagem.

Nas opulentas Europa e América do Norte as espécies caçadas não estão, geralmente, ameaçadas; mas noutras partes do mundo, a caça de vida selvagem é um modo de vida necessário. Por que haveriam os pobres de se preocupar com a extinção de uma espécie, quando têm que se preocupar com a sua própria sobrevivência? Comerciantes sem escrúpulos, atraídos pelo dinheiro do Ocidente, tiram partido dessa situação difícil e encorajam o saque da vida selvagem. Até que os destinatários do saque compreendam o prejuízo causado para lhes satisfazer os caprichos e desejos, o mundo selvagem continuará a ser devastado.

Seguir o rasto de um veado, na floresta, e abatê-lo com arco e flecha exige perícia. Para algumas pessoas, a caça parece satisfazer uma necessidade primitiva de perseguir e matar. No Canadá, a época de caça às aves aquáticas migratórias é esperada por mais de 385.000 caçadores que pagam uma licença de 10 dólares. Assim, ajudam à conservação do ambiente, pois parte da cota vai para o “Habitat Selvagem do Canadá”.

Marcella, uma amiga que veio de longe

Marcella, uma amiga que veio de longe

Lúcia desceu a escada a correr e com grande alarido. Certamente pelo barulho que fez, a mãe olhou para ela e disse-lhe:

— Não vás lá para fora tão pouco agasalhada.

— Oh! mãe, não está frio!

A Lúcia respondeu assim porque não gostava nada de usar muita roupa. Mas, temendo ser obrigada a vestir aquele casacão que, apesar de muito bonito, era bastante pesado, concordou:

— Está bem, vou vestir outra coisa.

Não fosse a mãe lembrar-lhe o tal casacão, subiu, na mesma pressa com que há pouco a descera, a escada que dá para o andar onde ficam os quartos de dormir. Imediatamente pensou em vestir a camisola azul que lhe fizera a avó Joana, porque era muita quentinha e leve.

Feita de uma lã tão macia que, quando lhe tocava, lembrava-se logo do seu já velhinho mas sempre fofo ursinho de peluche.

— Vês como assim estás melhor? — disse a mãe, quando de novo Lúcia desceu do quarto. E só depois lhe perguntou:

— Aonde vais?

— Vou até ao fundo do quintal ver os aviões.

Como a mãe não disse mais nada, a menina compreendeu que ela estava de acordo. Saiu de casa, meteu pelo estreito passeio que atravessa o jardim e o pomar, e foi entregar-se ao seu passatempo favorito.

Realmente, o que Lúcia mais gostava de fazer era ir até ao fundo do quintal, mesmo ao lado do aeroporto. Atrás da sebe feita com rede de arame, ficava horas sem fim a ver os aviões que a toda a hora chegavam e partiam.

— Afinal, a mãe até tinha razão — pensou. — Mesmo com o sol a espreitar, o tempo está um pouco frio!

Encostou-se à rede e, apesar de o arame lhe arrefecer o rosto, não o descolou dela, tão grande era o fascínio que lhe causava o vaivém no aeroporto. Ao olhar tudo aquilo, sonhou com o dia em que iria viajar num daqueles aviões e conhecer novas terras. Depois, e porque esse sonho ainda estava longe de se realizar, desejou que, pelo menos, um deles lhe trouxesse algo muito importante e bonito, para maior alegria do seu coração. A imaginar coisas fantásticas, da forma que só nós, os mais pequenos, sabemos fazer, ficou ali muito tempo encostada à sebe.

Despertou-a dos sonhos o ruído de mais um avião que se preparava para aterrar. Desde o momento em que este parou até à saída de todos os passageiros, Lúcia não tirou os olhos daquele grande pássaro de aço pensando alto, como se falasse para si mesma:

— Quem virá lá dentro? Reis? Princesas? Gente importante, certamente! — E continuou a dar largas à sua imaginação carregada de fantasia: — Doutores! Poetas! Mágicos! Inventores!

A certa altura, teve de interromper a festa dos seus pensamentos, pois um choro miudinho fez-se ouvir muito perto de si. Apanhada de surpresa – sim, porque não esperava que surgisse alguém por ali! – olhou na direcção de onde vinha esse choro. Ficou, sem palavras, maravilhada a olhar uma linda borboleta. Esta flutuava, como se buscasse um raio de sol, um pouco acima da sua cabeça. Era realmente a mais bela borboleta que já tinha visto, e só o facto de ela estar a chorar e a tremer muito lhe quebrou o prazer de contemplar tão formosa criatura.

— Porque choras? — perguntou-lhe.

A borboleta nem lhe respondeu, e Lúcia não conseguiu perceber se era porque o choro lhe travava a voz, ou se não sabia falar. Talvez fosse surda! Ou muda! Ou as duas coisas! Devagarinho, estendeu-lhe a mão. Como ela não fez o mais leve movimento de receio, pegou-lhe mansamente nos minúsculos pés e puxou-a para si. A borboleta, sem sombras de querer fugir. Por fim, muito a custo, respondeu:

— Tenho frio.

— Ah! — compreendeu a menina. — Por isso tremes tanto!

Percebendo o seu problema, Lúcia não esperou por mais nada. Juntou as mãos e fechou-as como uma concha, guardando dentro delas aquela pequenina e colorida criatura. Depois, correu para casa. Quando lá chegou, perguntou muito alto:

— Mamã, o fogão da sala está aceso?

— Está — respondeu a mãe como se estivesse a repreendê-la. — Tens frio, não é? Bem disse para te agasalhares.

Mas Lúcia nem se justificou e, na sua habitual correria, dirigiu-se ao seu quarto. Quando lá chegou, poisou a borboleta em cima da cama.

— Não fujas, está bem? — pediu-lhe. — Trato já de ti.

Abriu o guarda-roupa, revolvendo o seu interior em busca de qualquer coisa.

— Está aqui! — exclamou, com satisfação, ao encontrar aquilo que procurava. — Aqui dentro estavam as minhas botas de cano alto — explicou, enquanto mostrava uma caixa de cartão vazia — mas, com um agasalho, fica uma boa cama.

Da primeira gaveta da cómoda tirou um cachecol igual à sua camisola azul. Dobrou-o em três partes e colocou-o dentro da caixa de cartão. Depois, envolvendo-a de calor e carinho, disse à borboleta:

— Vais sentir-te tão quentinha nesta cama que até esqueces o frio que faz lá fora.

Deitou a amiga no colchão azul e, dirigiu-se à sala, transportando com todo o cuidado aquele improvisado leito que, antes disso, era a casa de umas botas de cano alto. Quando lá chegou, poisou-a no chão junto à lareira, onde ardiam pinhas secas. Sentiu vontade de continuar a conversar com a borboleta, mas ela já dormia. Talvez de cansaço. Talvez feliz por não sentir frio.

Era já dia, mas mais cedo do que o costume, quando Lúcia saiu da cama. Enquanto se vestia lembrou-se de que, na véspera, tinha deixado a pequenina criatura a dormir perto do fogão da sala. Antes de se deitar ainda fez algum barulho, para ver se ela acordava e lhe contava coisas da sua vida. Mas qual quê! A amiga dormia um sono tão profundo que nem foi capaz de a despertar.

— São horas de ires para a cama, Lúcia. Vai, que a tua borboleta já dorme. Amanhã brincas com ela — disse-lhe a mãe, nessa altura.

E a menina lá teve que ir dormir. Muito lhe custou, pois estava com um receio escondido no peito de que o silêncio da borboleta não fosse do sono, mas sim que tivesse morrido de frio.

No entanto, esse receio fora inútil, pois, pela manhã, quando regressou à sala, já a sua amiga borboleteava perto da janela com o olhar fixo no exterior, mostrando-se ansiosa par sair dali.

— Bom-dia, borboleta — cumprimentou Lúcia. — Dormiste bem?

— Dormi — respondeu a outra — mas quero ir embora.

— Embora? Não vês que faz frio lá fora? — perguntou a menina, muita decepcionada, pois já gostava da sua nova amiga.

— Eu quero ir para a minha terra. Lá nunca está frio.

— Ah! — exclamou Lúcia com o espanto de quem faz uma grande descoberta. — Não és de cá!?

— Não. Sou de um sítio onde há sempre calor.

— Mesmo quando chove?

— Mesmo quando chove — confirmou a borboleta.

— E onde fica esse sítio?

— Não sei. Mas creio que é muito longe.

Lúcia insistiu nas perguntas:

— Então, como vieste cá parar?

— Acho que foi porque adormeci.

Aí, a menina não entendeu mesmo nada!

— Adormeceste? Explica-te melhor, pois não percebo o que queres dizer com isso de “adormeci”.

A borboleta sentiu-se muito importante. Era a primeira vez que alguém lhe pedia explicações sobre qualquer coisa! A verdade é que também era a primeira vez que tinha uma pessoa como amiga. Sem mais demoras, contou o que lhe tinha acontecido:

— Tudo começou lá longe, na minha terra. Estava tão cansada e cheia de calor que nem conseguia voar e, por isso, caí em cima do chapéu de renda de uma velha senhora. Adormeci imediatamente.

— E depois? — insistiu Lúcia.

— Depois? Depois, quando acordei, ainda descansava no chapéu da tal senhora — continuou, agora muito preocupada — mas já não estava na minha terra. Encontrava-me dentro de uma casa muito comprida, que tinha janelinhas redondas e filas de cadeiras com pessoas comodamente sentadas. Ainda tentei sair, mas não consegui abrir nenhuma das janelas! Finalmente, quando uma porta se abriu, vi que já me encontrava aqui, na tua terra.

— Mas…tu vieste num avião! — exclamou Lúcia, ao perceber o que tinha acontecido. — Quer dizer que realmente és de muito longe!

Embora por razões diferentes, as duas amigas ficaram tristes quando a menina fez esta descoberta. A borboleta, por sentir que, se não regressasse à sua terra, morreria de frio e também de saudade. A Lúcia, por saber que era urgente devolver a amiga ao sítio de onde veio e, ao consegui-lo, nunca mais a veria.

Dos pequeninos olhos azuis da borboleta nasceram duas lágrimas às quais se seguiram outras e outras, até se transformarem num choro um bocadinho ruidoso. Só um bocadinho, pois, como era pequenina não podia chorar muito alto, não é verdade? Ao vê-la assim, o coração de Lúcia ficou apertado pela tristeza. Na esperança maior que conseguiu, animou a amiga com uma promessa:

— Não chores. Havemos de encontrar forma de regressares à tua terra.

Ainda a soluçar, mas, acreditando que isso era possível, a borboleta perguntou:

— Como? De avião?

— E porque não? — respondeu Lúcia a sorrir, porque aquela era uma boa sugestão. — Se vêm aviões de lá para cá, também vão de cá para lá. Só precisamos de descobrir onde é a tua terra.
Ficou a pensar nesse enigma. Bem grande, por sinal, pois a sua amiga apenas sabia que era de um país longínquo onde havia muito sol e raramente chovia.

Mas a Lúcia nunca foi menina para se atrapalhar pela falta de ideias e, por isso, logo teve uma que lhe pareceu extraordinária:

— Já sei! Vamos falar com o senhor João, que mora na casa em frente. Como ele sabe de tudo, decerto saberá onde fica a tua terra.

Sem esperar por mais nada pegou na amiga, encostou-a ao peito, de encontro à sua fofa camisola, e dirigiu-se a casa do senhor João.

É claro que a Lúcia tinha quase a certeza de que o vizinho havia de descobrir a origem da borboleta.

— Pois! — pensou a menina — para que lhe servia ter uma sala cheia de livros se não aprendesse o que eles ensinam?

E não é que tinha razão?! Quando o seu vizinho, senhor já idoso e com os cabelos todos brancos, olhou a amiga de Lúcia, disse:

— Vou confirmar ali numa enciclopédia, mas parece-me que esta borboleta é uma Marpesia Marcella, originaria da América do Sul, habitando principalmente no Amazonas.

Enquanto a borboleta se sentia orgulhosa por ter um nome tão complicado e a menina admirava a sabedoria do velho senhor, este dirigiu-se a uma estante, de onde tirou um grande livro de capa vermelha com inscrições a ouro. Num segundo encontrou o que procurava.

— Aqui está! — confirmou vitorioso. — É realmente uma Marpesia Marcella. Como a conseguiste? — perguntou, intrigado.

Lúcia contou ao senhor João a viagem da sua amiga e como as duas se conheceram.

— Vais emoldurá-la? — continuou ele.

— Emoldurá-la?!

— Sim. Colocá-la dentro de uma moldura que se pendura na parede! Como se faz com as pinturas e fotografias.

— E porque iria eu fazer uma coisa dessas? — interrogou a menina, muito admirada.

Aí, o senhor João fez um gesto largo de impaciência com os braços e respondeu:

— Ora, ora! É o que toda a gente faz com as borboletas raras e bonitas! Ou vais vendê-la a algum coleccionador de borboletas?

— Vender a minha amiga?! — gritou Lúcia, assustada. — Não quero que lhe aconteça mal algum. Apenas desejo que regresse à sua terra.

Nesse momento, o senhor João compreendeu que, para a menina, a borboleta era já uma grande amiga para quem só queria o melhor. Apesar da sua fama de rabugento, mostrou que era um homem bondoso, pois imediatamente se interessou pelo caso da Marcella.

— Então temos aqui um grande problema — disse. — Não queres que a tua amiga morra, mas ela não resistirá por muito tempo ao nosso clima.

— Por isso eu queria saber onde é a sua terra — justificou a Lúcia.

E contou-lhe a sua ideia em procurar no aeroporto um avião que devolvesse a borboleta ao seu país.

Pela primeira vez desde que o conhecia, a menina viu a senhor João sorrir, enquanto lhe dizia:

— Bom… Vamos já tratar da viagem desta doce criatura, antes que seja tarde.

Lúcia aconchegou mais a borboleta à camisola azul com a mão esquerda, enquanto o senhor João pegava na sua mão direita como se fosse o seu melhor amigo.

E se calhar já o era! Confiantes de que tão brilhante ideia tivesse bom resultado, dirigiram-se ao aeroporto.

Como sempre, àquela hora do dia, a sala de passageiros apresentava grande movimento, pois era a altura em que chegavam e partiam muitas pessoas nos enormes aviões. Os nossos amigos, muito juntos, encaminharam-se para um balcão onde estava escrito “Informações”.

— Faça o favor de me informar: quando segue um avião para o Amazonas? — perguntou o senhor João à senhora que ali se encontrava. Esta logo lhe respondeu:

— Mais ou menos daqui a uma hora segue um para o Brasil, com escala em Manaus, que, como deve saber, fica no Amazonas.

— É que — continuou o senhor João — a nossa amiga tem de seguir para lá, urgentemente.

A senhora olhou para Lúcia e perguntou:

— E vai acompanhada por quem?

— Por ninguém — respondeu o velho senhor com o mau humor por que era conhecido. — Exactamente como veio para cá: num chapéu!

— Num chapéu?! — quase gritou a senhora com cara de quem não estava a gostar nada daquela conversa.

Foi então que o senhor João percebeu a confusão dela e, numa grande risada explicou:

— Quem tem de ir para a Amazonas não é a menina! — Pegou na borboleta das mãos da Lúcia e mostrou-a à senhora das Informações, continuando a explicar: — É ela quem precisa de viajar!

— A borboleta?!

— Exactamente — informou ele.

Depois, contou-lhe a história da pequenina criatura. Tal e qual como a Lúcia lhe tinha contado.

A senhora, compreendendo a situação, mostrou logo vontade de colaborar.

— Vamos arranjar alguém que leve a borboletinha de volta — disse. Pegou depois no telefone que estava mesmo a seu lado e marcou um número.

— Álvaro? Podes chegar aqui, às Informações, por favor?

Poisando de seguida o auscultador no seu lugar, disse aos três amigos que a olhavam com muita ansiedade:

— Vem aí um colega meu. É o piloto do avião que vai para o Brasil. Com certeza não se importará de levar a borboleta de regresso ao Amazonas.

Realmente, daí a instantes chegou o piloto Álvaro, a quem a senhora do balcão contou o problema da Marpesia Marcella.

— Com que então queres regressar à tua terra! Terei muito gosto em levar-te — disse o piloto à borboleta, quando ficou ao corrente da sua história.

Agora que a grande problema parecia resolvido, o olhar de Lúcia mergulhou no rio da tristeza.

O senhor João, que se apercebeu disso, pegou-lhe no queixo. Olhando-a nos olhos, perguntou:

— Não queres mesmo ficar com ela?

— Como? Morta?! — exclamou a menina horrorizada. — Nunca!

De repente teve uma dúvida que a levou a perguntar ao piloto do avião:

— Não vai emoldurá-la, pois não? Nem vendê-la a algum coleccionador de borboletas?

Ele deu uma risada simpática e respondeu:

— Claro que não. Achas que sou capaz disso?

Lúcia olhou-o mais atentamente e compreendeu que, na verdade, uma pessoa que sorria assim não podia fazer uma coisa dessas. Pediu-lhe desculpa.

— Entendo a tua preocupação – continuou o piloto. — Ninguém gostaria que lhe maltratassem ou vendessem uma amiga de quem se gosta. Descansa, pois olharei por ela até estar a salvo, na sua terra.

Pegou com muito cuidado na borboleta, colocou-a na pala da boné do seu uniforme e disse, sorrindo:

— Vieste num chapéu, vais num boné.

Olhando o relógio na parede continuou:

— Já? — perguntou Lúcia, como se tivesse recebido uma má notícia.

— Tem de ser — respondeu o piloto. — Antes de partir, temos que experimentar os motores do aparelho, o que leva algum tempo. Por isso, tens de te despedir da tua borboleta.

Apesar de haver muito movimento no interior do aeroporto, à volta dos nossos amigos fez-se um grande silêncio. A borboleta Marcella mantinha-se em cima da pala do boné que o piloto segurava nas mãos. Ao olhar a amiga, agradeceu-lhe, reconhecida:

— Obrigada por tudo, Lúcia. Nunca te esquecerei.

E, para se mostrar forte pois a despedida também a deixava triste, pediu ao piloto:

— Vamos embora, que se faz tarde.

A menina tremia, mas não era de frio. Par isso, e para se sentir amparada, apertou com força a mão do seu vizinho.

— Não estejas triste. Hás-de arranjar outra amiga. Uma que não tenha de partir — disse ele, tentando confortá-la.

Mas Lúcia sentia que, quando sabemos gostar de alguém, ninguém o pode substituir no nosso coração.

Depois de o piloto se afastar, os dois amigos da borboleta Marcella encaminharam-se lentamente para o exterior do aeroporto. Lá fora fazia um sol gostoso, quentinho.
— Nem está muito frio! — murmurou a menina.
— Agora — respondeu o senhor João, que percebeu muito bem onde ela queria chegar. — Mas logo, ou amanhã… a borboleta não ia resistir ao nosso clima!
Ficaram, durante algum tempo na varanda do aeroporto a ver os aviões desaparecerem lá longe, até ficarem do tamanho de um pontinho como este (.).
A todos que levantavam voo dirigiam um olhar de despedida, por saberem que em algum deles ia a sua amiga. Estiveram ali muito tempo. Até terem partido todos os aviões que havia na pista.
— Já foi! — suspirou Lucia.
— Já! — concordou o amigo.
— Mas continua viva, não é? — perguntou a menina, resignada.
O senhor João percebeu que, apesar de lhe ter custado muito o adeus, a Lúcia sabia que tinham feito aquilo que estava certo.
Seguiram para casa. De mãos dadas, na certeza de uma nova e grande amizade. Levavam no coração a tristeza da despedida de uma amiga, mas, ao mesmo tempo, a alegria de saberem que ela já não morreria de frio. Nem de saudade.

Daniel Marques Ferreira
Marcella, uma amiga que veio de longe
V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2002

Um urso à caça

Um urso à caça

Esta história não é nenhum conto de fadas.

Era uma vez um ursinho a quem faltavam pêlos na cabeça.

A sério! Quando o urso veio ao mundo, tinha um pêlo maravilhoso no corpo todo. Só em cima, no cocuruto da cabeça, havia uma mancha redonda e despida.

— Oh, uma careca! — disse o pai. — De certeza que o pêlo ainda vai nascer. Tem tempo.

Mas não cresceu. Nem com o tempo.

Então, a mãe pôs-lhe umas raízes na careca: rábano, raízes de árvores, raízes de dente-de-leão, raízes de acanto.

— É das raízes que tudo nasce — dizia a mãe — portanto, isto há-de ajudar!

Mas não ajudou. A mãe esfregou com água da chuva.

— A água da chuva faz nascer tudo.

Nada.

Esfregou estrume de galinha.

— Os homens também o usam para as plantas crescerem.

Nada.

Então o irmão do urso cuspiu-lhe na pelada.

— Desculpa, mas teve de ser! — disse o irmão. — Onde eu cuspo, medra sempre alguma coisa.

Na cabeça do urso, contudo, não cresceu nada.

— Não é assim tão mau — disse a mãe. — Põe um gorro.

Mas o urso só usava o gorro quando estava frio. No Verão tirava-o, primeiro, porque tinha muito calor, e segundo, porque todos os outros ursos olhavam para ele com um olhar tão esquisito como quando lhe viam a careca.

— Faz tu alguma coisa! Um bom urso sabe sempre tirar-se de apuros — dizia o pai. — Caça um animal, arranca-lhe o pêlo e depois colamos-to na cabeça.

— Com cuspo — disse o irmão.

O urso saiu para o bosque e encontrou um tigre que bufava ferozmente e se preparava para lhe saltar. Zás! O urso saiu dali e foi a correr para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não. No bosque só estava um tigre e eu não quis caçá-lo. Não quero ficar com riscas na cabeça.

No dia seguinte, o urso voltou ao bosque para ir caçar e viu vir ao longe um lobo a lamber os beiços.

O urso fugiu o mais depressa que pôde e correu para casa.

— Não caçaste nada? — perguntou a mãe.

— Não, só encontrei um lobo e não quis caçá-lo. Tinha pêlo cinzento e branco e eu não quero parecer assim tão velho.

Na caçada seguinte, apareceu-lhe, de repente, uma raposa, de boca aberta. O urso foi mais rápido e conseguiu chegar inteiro a casa.

— Voltaste a não caçar nada? — perguntou o irmão.

— Não, só vi uma raposa e não quis apanhá-la. Cheirava a carne podre e eu não quero ter maus cheiros na cabeça.

— Esta é a minha última tentativa — disse o urso, no dia seguinte, ao partir para o bosque.

Não encontrou ninguém e foi-se embrenhando nele cada vez mais. Procurava nos matagais, rastejou para dentro dos arbustos, subiu a uma árvore. Aí, na segunda ramificação, estava um esquilinho a dormir, e o seu pêlo era da mesma cor do pêlo do urso.

— Ora aqui está! — disse o urso, esfregando as patas de contente. Levantou-se para fulminar o esquilo com um golpe. O esquilinho abriu um olho e piscou-lho amigavelmente e sem medo.

— Desculpa! — disse o urso. — Não quero que seja assim. Não quero ficar com remorsos.

Baixou a pata, estendeu-a ao esquilinho e desceu do ramo. Sentou-se no musgo, encostou-se à árvore e, como estava cansado, adormeceu também.

Chegou depois junto dele um arganaz, ou melhor, uma mãe arganaz com uma barriga muito gorda. Passou furtivamente pelo urso, rastejou-lhe pelo braço e pelo ombro até que chegou à cabeça.

— Olá! — exclamou ela. — Este lugarzinho parece ter sido feito para mim. Não é lá muito macio, mas à volta é quentinho.

Arrancou algum pêlo seu, com o qual almofadou a pelada, instalou-se e deu à luz os filhotes.

Quando o urso acordou, sentiu uma comichão esquisita na cabeça. Levou a pata à mancha branca – como ele lhe chamava – e viu que se encontravam lá um rato grande e quatro ratinhos que sentiu não terem pêlo. Levantou-se com muito, muito cuidado, e foi para casa pé ante pé.

A mãe, o pai e o irmão ficaram assombrados.

— Agora já tens pêlos na cabeça — disseram.

O urso passou a dormir de costas direitas, sentado numa cadeira, até os pequenos arganazes saírem da pelada, rastejarem atrás da mãe pelos ombros e pelo braço do urso e, passando pela perna dele, seguirem na direcção do bosque.

Aos poucos, o vento fio soprando da cabeça do urso o pelo do arganaz.

— Afinal, estou muito satisfeito com a minha careca — disse o urso. — Talvez alguém mais possa vir a precisar dela.

Hans Manz

Reinhard Michl (org.)
Wo Fuchs und Hase sich Gute Nacht sagen
Hildesheim, Gerstenber Verlag, 2002
Tradução e adaptação